TEMPORADA DE CAÇA

Posted in Uncategorized on fevereiro 17, 2015 by contosdacratera

                                        ursoeditado                                                                                                                               Por Glaucio Fabrizio

Segunda-feira de carnaval na década mais violenta dos últimos 50 anos. Calor intenso, meio-dia, há exatamente 20 anos um cidadão de nome Ariovaldo resolveu criar um bloco formado de um tipo muito comum nos carnavais, os Ursos. Garotos se cobriam da cabeça aos pés com trapos e saiam em grupos pedindo trocados para inteirar a cachaça das festas. O bloco a cada ano que passava crescia, as ruas ficavam tomadas, ursos batendo latas fazendo algazarra seguindo a fanfarra, a avenida parecia um rio de sujos molambos. No camarote armado para as autoridades, dondocas bebiam seus finos drinks gelados ostentando poder e beleza. No meio da multidão de farrapos estavam Jeová, Raimundim e Bartô, três perigosos marginais que se aproveitaram das fantasias para cometer latrocínios, traficar crack, bater carteiras e anarquizar geral, o disfarce era perfeito para malocar armas e drogas. Eles precisavam com urgência juntar uma boa quantia pois estavam endividados com um chefão local do trafico.

Por volta das nove da manhã num galpão abandonado antes da festa começar, Jeová fumava um grosso baseado enquanto Raimundim e Bartô estalavam pedras em latas de refrigerante crack!crack!crack! fazia o barulho da pedra subindo no ar um cheiro de borracha queimada.

– Vida lôca mermão, vida lôca! – disse Bartô alucinado parecendo que ia decolar.

Jeová, o mais tranquilo e calado de todos (o mais perigoso também) tirou uma pistola reluzente do meio dos farrapos, verificou o pente lotado de munição, deu uma polida na maquina com ajuda da fantasia, passou a unha na numeração raspada da arma e sorriu candidamente. Raimundim como de costume depois de fumar, tinha diarreia, obrava e depois chegava louco querendo fazer arte.

– Quarta feira de cinza porra, só temo até quarta pra pagar O Omi! – disse Raimundim.

– Nois consegue, fique peixe! – tentou tranquilizar Jeová, líder dos CONGAS VERMELHOS, os três usavam tênis conga de cor vermelha, a marca da gangue.

Abordavam as vitimas como ursos batendo lata depois anunciavam o assalto, vitimaram primeiro um jovem casal de lésbicas cambaleantes e chapadas, dois celulares, 80 reais e Bartô (estuprador crônico) ainda tirou uma casquinha da mais vistosa das garotas, só não foi mais adiante pois Jeová não permitiu. A segunda investida foi numa bodega que tinha acabado de abrir, ali descolaram mais uma boa quantia do caixa e umas garrafas de uísque Chanceler. Jeová gastou a primeira bala do dia na cabeça do dono da venda. Depois da bodega resolveram vender umas pedras e uns dolinhas. A cada viciado que vendiam, roubavam dois, esse era o revezamento 2 por 1 como dizia Jeová:

– É as olimpíada malandragem! – debochava o líder dos C.V.

Eles roubavam quase todo tipo de gente que viam pela frente, ate mesmo outros míseros ursos tinham seus trocados engabelados pela mira do cano prateado de Jeová, ou pela ponta enferrujada do punhal de Raimundim, Bartô chegava dando sopapos:

– O dinheiro fela da puta, cadê o celular? – aterrorizava Bartô dando safanões.

Por volta das 11, enquanto passavam pela Rua do Ouvidor, depois de assaltarem um posto de gasolina, viram na janela aberta de uma casa de esquina numero 45, a oportunidade de levantar mais algum. Bartô chegou batendo palmas pedindo agua enquanto Raimundim filmava o local, junto da porta Jeová esperava o desfecho. Uma mulata gorda e suada veio atender, Juju como era conhecida na rua já veio com uma garrafa d’agua e umas pratas pra dar aos ursos, mal sabia ela que seria abordada violentamente por Bartô, Raimundim rapidamente entrou pela janela e abriu a porta para Jeová. Raimundim arrumou uma sacola grande e ia jogando dentro coisas de valor, enquanto Jeová de larica assaltava a geladeira, Bartô arrastou Juju pro quarto, onde se encontrava seu esposo Manoel, um velho soldado reformado que se encontrava prostrado na cama há pelo menos 8 anos depois de ter sofrido um AVC, viviam da sua aposentadoria desde então.

Bartô arrancou o vestido de Juju, revelando suas arrobas de carne morena e suada, tetas imensas com aureolas marrons, pareciam bolachas pretas. Enquanto abafava com um travesseiro os gritos da pobre mulher, o marginal metia com força em seu sexo roxo, as marcas escurecidas entre as coxas e nas axilas deixavam Bartô mais excitado. Do lado na cama o pobre velho vegetando olhava pro teto. Raimundim entrou no quarto com uma sacola cheia de cacarecos no ombro e uma garrafa de rum que bebericava no gargalo:

– Mas que putaria é essa Bartô, só falta comer o boga do velho! – disse o marginal.

Bartô alucinado deixou a mulata Juju de lado e foi direto no velho, esfregou o pênis na sua cara que não esboçava reação nenhuma, virou o soldado reformado de bruços e meteu sem pena no rabo de seu Manoel. Raimundim dava gargalhada e como já tinha virado uma babilônia resolveu meter na mulata Juju também, espancou a pobre no rosto ate que ela desmaiou. Seu Manoel com a cara virada pro colchão deixou escorrer umas lágrimas que molharam o lençol junto com suor e esperma dos bandidos.

De bucho cheio, Jeová entrou no quarto depois de toda a anarquia, avaliando os espólios da investida:

– Pronto, agora nois já tem dinheiro pro material – disse Jeová.

-Ouxe que material? – perguntou Raimundim.

-Vamo descolar umas dinamite e estourar uns caixa amanhã, acho que pelo menos dois caixa paga nossa divida com O Omi e ainda sobra – respondeu calmamente Jeová enquanto enrolava um baseado.

– Agora vai! Bem que a gente devia trocar esses tênis conga por redley vermelhos, dá menos calo – falou Raimundim.

-Não, porra de redley tem que ser conga, é a marca da gangue, deixe de frescura porra! – rebateu Jeová meio puto.

-Bora pro bloco, vai ser só chinfra agora! – disse Bartô depois de ter sodomizado o seu Manoel.

Fumaram mais pedras Bartô e Raimundim, antes de sair Jeová gastou a segunda bala do dia na cabeça da mulata Juju, resolveu poupar o velho inutilizado Manoel economizando bala.

Meio-dia em ponto os ursos mal feitores estavam no meio da folia. Estimava-se pelo menos 3 mil pessoas no bloco, farrapos cobriam a avenida Joaquim Trabuco, o forte odor de suvaqueira e éter estavam suspensos no ar. Num canto perto das arquibancadas um urso cheirava lança-perfume nos seios siliconados de um travesti fantasiado de Marilyn Monroe, Bartô ficou excitado mas foi logo arrastado por Raimundim que seguiram em fila no meio da multidão, a locomotiva era Jeová, um autentico trem do mal. No momento que a fanfarra dava sua clássica paradinha para reverenciar os camarotes com as autoridades, um urso portando uma 12 de dois tiros com cano serrado se aproximou por trás de Bartô e efetuou um disparo em sua nuca, o mesmo tiro alvejou Raimundim que também foi abatido na hora, meio atordoado com os estilhaços, Jeová ainda tentou revidar com sua pistola, mas foi alvejado com segundo disparo na altura da garganta quase decepando sua cabeça.

No primeiro disparo a multidão já tinha entrado em pânico, o caos estava tomado, o urso da 12 foi logo derrubado pela policia que fazia a segurança das autoridades após ter tombado Jeová. Varias pessoas foram atingidas com os tiros dos policiais, ao todo foram 8 mortes. Quando tiraram a fantasia do urso da 12 viram que era seu Manoel, o velho soldado reformado que se fingia de prostrado na cama para poder receber sua aposentadoria.Com sede de vingança seguiu em caça no rastro dos ursos de congas vermelhos assassinos de sua esposa, estava então aberta a temporada de caça aos ursos de carnaval.

SÃO EGÍDIO EM CHAMAS

Posted in Uncategorized on dezembro 29, 2014 by contosdacratera

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                                                                                                                                                                Por Glaucio Fabrizio

Eles se conheceram formalmente numa fila do INAMPS, antes daquela tarde José e Zulmira tinham varias coisas em comum, além de serem alcoólatras, frequentavam os mesmos lugares e eram deficientes físicos. Aleijados de nascença como se dizia na época, José era mais conhecido como Zé das Roda, andava numa cadeira de rodas com uma espécie de manivela na lateral. Zé das Roda tinha os membros inferiores atrofiados, era um homem da cintura pra cima, para baixo era como um bebezinho de colo. Tinha o braço direito maior que o esquerdo, mas curiosamente a manivela ficava no lado do braço menor, o braço maior ele usava como freio apertando o pneu, certamente não tinha mãos delicadas. Era um bom sapateiro, caprichoso e habilidoso, às vezes vacilava nas carraspanas e os meninos de rua lhe roubavam cola pra cheirar no mangue, meninos estes que constantemente vilipendiavam o pobre sapateiro gritando:

– Zé dá a roda, Zé dá a roda!

– Vão pro inferno mangote de fela da puta! – rebatia sempre o pobre homem.

Zulmira era uma galega queimada do sol das salinas. Nasceu com uma perna também atrofiada, parecia uma perna de uma criança de cinco anos. Usava uma muleta de madeira, geralmente o mesmo vestido florido, uma chinela japonesa, os olhos azuis habitualmente avermelhados, como se tivesse acabado de acordar, alguns diziam que ela usava tóxico. Fazia grude pra vender na praia e vivia disso. José e Zulmira moravam numa pequena cidade litorânea, eram analfabetos, desamparados, sobreviviam no dia a dia e a noite como besouros eram atraídos pelas luzes dos bares, principalmente aqueles mais ferrados. Zé das Roda chegava e parava num canto, enrolava um brejeiro e ficava observando o movimento, pedia uma meiota de cana e ficava na sua bebericando a pinga no crânio de um preá que ele sempre carregava amarrado no pescoço quando saia pra beber, um dia foi seu preá de estimação, Damião.

Lá pelas tantas da madrugada ela chegava, já meio possuída pelos demônios etílicos, tentava seduzir alguém em uma mesa, bebia um trago, depois era afugentada como um cachorro faminto tentando comer as sobras embaixo da mesa de uma lanchonete. A tertúlia pra ela começava quando o ceguinho puxava o fole, antes os olhares de repulsa pra aquela mulher deficiente agora se voltavam com encanto, pois ela bailava no barro pisado do terreiro de Dona Frizêlda com uma leveza angelical, logo aparecia o primeiro par, com um braço apoiava a muleta de madeira, com o outro agarrava firme a cintura do homem, assim deslizavam como que flutuando sem levantar poeira naquele forrobodó, as putas perfumadas do lugar sentiam inveja, todos queriam dançar com ela, Zé das roda observava bebendo sua pinga no crânio de Damião, às vezes com ciúmes de sua amada secreta, às vezes boquiaberto como que estivesse olhando um anjo bailando nas nuvens brancas do paraíso.

Já perto de amanhecer Dona Frizêlda ia desligando as luzes do terreiro e todos iam embora devagar, Zé das Roda via de longe Zulmira cambaleante arrastada por algum cabra que ia comê-la escondida lá no cais, sentia ódio de si pois não era homem suficiente para possui-la, ela nem mesmo olhava pra ele, só uma vez, quando ele estava tão embriagado que caiu da cadeira, todo cagado e mijado, ela parou para olhar se ele estava vivo, balançou a cabeça negativamente e saiu se equilibrando na velha muleta. José odiava a sua situação, bebia pra espantar a tristeza, mas era que nem catinga de cu que nunca cessava. Um dos dias mais felizes de sua vida foi na fatídica tarde em que encontrou Zulmira na fila do INAMPS, na cidade vizinha, um centro urbano mais desenvolvido. Tentavam pela centésima vez uma aposentadoria que sempre lhes eram negados, pois eles não residiam naquela cidade, o carimbo vermelho de NEGADO entristecia os olhos de Zé, e enchiam de ódio os olhos de Zulmira:

– Bando de fi de rapariga, eu sou uma aleijada num tão vendo seus porra?!

Quando foi colocada pra fora da repartição pelos seguranças, Zé das Roda estava a sua espera no lado de fora, tomou coragem e a convidou pra tomar uns tragos numa bodega que tinha perto do ponto onde eles pegariam a condução pro litoral:

– É muita omilhação, aqui quem é pobre num tem vez, ainda mais sendo aleijado! – lamentou Zé enquanto tomava o seu trago.

– Eu quero é que tudo vão tomar no cu ate sair sangue pelas urêia! Vociferou Zulmira.

– Dizem que lá no sul um homem perdeu um dedo e se aposentou por invalidez, hoje é sindicalista – Disse um almofadinha que estava ao lado no balcão se metendo na conversa.

– E o que djabo é sindicalista? – perguntou já meio trôpega na língua Zulmira ao mesmo tempo em que se enroscava no almofadinha com sua perninha atrofiada.

– Sindicalista é um tipo que cuida para que seus companheiros tenham seus direitos garantidos como trabalhador! – respondeu o almofadinha.

– Ouxe e isso é lá trabalho de gente, parece vagabundagem! – rebateu Zé.

– Qual a sua graça moço? – Perguntou Zulmira.

– Mauro Junior de Albuquerque, advogado a seu dispor! – respondeu o almofadinha lhe entregado o seu cartão.

Adevogado Mauro, num carece não, num sei ler nem escrever um ó com uma quenga – disse Zulmira dando uma gargalhada seguida de pigarro.

– Seu Doutor, o que a gente faz pra conseguir se apusentar? – perguntou Zé das Roda.

– Bem, primeiro preciso do titulo de eleitor de vocês, meu cliente, vereador muito bem articulado vai ser o homem que pode conseguir isso fácil – disse o advogado.

– Xii moço, nóis num tem isso de titulo não! Disse o pobre Zé com um sorriso amarelo.

Depois de ouvir isso, o homem foi embora ligeiro, como o diabo foge da cruz, mas sem esquecer antes de pegar o seu cartão de visitas de volta.

Horas se passaram e ate a condução para o litoral chegar (na verdade era o carro do leite que levava entre passageiros, carneiros e galinhas pra zona rural até o litoral) Zulmira estava tão embriagada que já não se aguentava de pé, Zé muito solícito lhe acomodou em seu colo na cadeira, ela adormeceu em seus braços como uma criança, aquele homem nunca esteve tão feliz em sua vida, acalentando sua amada num sono pesado, às vezes roncava baixinho, sentia o cheiro de óleo de côco do seu cabelo galego queimado de sol, sentia o calor de seu corpo magro, mas com aquela certa delicadeza típica da pele feminina. Quando chegou ao litoral já de noitinha Zulmira ainda dormia, Zé a levou pra seu casebre, a colocou na sua cama com forro de palha, foi ate o tanque nos fundos do barraco, se lavou ligeiramente e quando retornou Zulmira dormia com as pernas entreabertas, o vestido meio levantado mostrando a calcinha branca e o seu sexo peludo dourado saindo nas laterais da lingerie, meio hipnotizado com a visão Zé acariciou levemente os pelos loiros do púbis da galega, enquanto afastava um pouco pro lado a calcinha, Zulmira acordou com um sorriso, quando colocou a mão dentro da calça de Zé das Roda e se deparou com seu órgão minúsculo caiu numa gargalhada:

– Ouxe Zé, vai me matar de fazer cósca com isso é?

Furioso o homem acertou forte com seu braço maior o rosto de Zulmira a jogando na cama, meio atordoada com a bofetada, sentiu um puxão forte pelas coxas, Zé a puxou violentamente arrancando a calcinha e começando a chupar Zulmira alucinadamente, no começo ela tentou se desvencilhar, mas depois foi tomando gosto e já começava a revirar os olhos de prazer, gritava, suava e arranhava as costas de Zé, puxava o seu cabelo e pedia pra que ele não parasse nunca mais de chupa-la. Zulmira não parava de gozar e no meio de tanto prazer não notaram quando a lamparina acesa caiu no chão do barraco começando um incêndio que se alastrou rapidamente por conta do material que o sapateiro usava no seu oficio, quando se deu pelo incêndio, a cama já pegava fogo, Zé tentou salvar sua amada mas já era tarde, entre os gritos dos dois e o cheiro de carne queimada que subia no ar, ainda restava na parede do barraco um antigo calendário desbotado de São Egídio que parecia observar placidamente os amantes queimando em dor, o calendário do santo padroeiro dos aleijados não demorou muito até também ser consumido pelas chamas do casebre.

Somente no outro dia, de manhã, apareceu um fusca da policia junto com um repórter gordo pra fazer a reportagem da morte dos desvalidos:

– Cristo santo mas que catinga de carniça é essa? – perguntou o policial.

– É catinga de churrasco de pobre! – respondeu ironicamente o repórter enquanto fazia fotos do que havia sobrado do casebre.

Anos depois esse repórter se tornou apresentador de um programa sensacionalista policial na tevê, aproveitou a fama, entrou na política e conseguiu se aposentar por invalidez como deputado, típico das terras tupiniquins onde os mais pobres, na sua grande maioria, sempre toma no rabo.

ZUMIRO

Posted in Uncategorized on outubro 12, 2016 by contosdacratera

Por Glaucio Fabrizio

Não era mais aquela época onde geradores a diesel fornecia energia elétrica nas cidades, não havia mais enforcamentos, esquartejamentos ou bruxas queimando em fogueiras, entretanto fazia apenas uma semana que a programação das rádios FM estava 24 horas no ar na cidade cratera. Antes a emissora que ficava ate mais tarde encerrava a programação às 23:55,  sempre ao som do mesmo mambo mexicano, não demorava e o ruído da estática cortava o silencio em intervalos inconstantes madrugada adentro. A guerra do golfo ganhava cobertura em cores na tv, misseis tomahawk  deixavam  rastros de luz nas câmeras com visão noturna desenhando o céu como uma obra do Pollock. O mundo pegava fogo com cheiro de gasolina no ar e  Zumiro ouvia compulsivamente radios FM.

De cabelo encaracolado meio black power, o pastorador de carros geralmente de chinelos usava um shorts Elite vermelho encardido com listras brancas na lateral, uma camiseta regata da campanha pra algum deputado da década passada, carregava um balde e uma flanela no ombro. Lavava e guardava carros dia e noite nos logradouros públicos. Criado nas ruas era safo para sobrevivência urbana como um gato vadio. Passou o começo da vida num orfanato ate  ser adotado por um casal de idosos. Durante quatro anos teve uma vida feliz, mas o sumiço misterioso dos velhos intrigou toda a população local: Zumiro devia ter uns 8 anos quando disse ter visto os pais adotivos serem levados por uma bola de luz no céu. Depois disso passou a morar nas ruas, se abrigou um tempo numa Kombi abandonada, em varias malocas ate ocupar o vão que ele chama de casa.

Entroncado meio marrento, o homem morava beirando a marginal de uma rodovia federal. Dentro de casa não tinha muita coisa, o suficiente para se virar, uma rede suja, um pote de barro com agua, algumas garrafas vazias de conhaque barato (um pela metade), pouca roupa e um velho walkman sony amarelo todo remendado de fita isolante que só funcionava o radio. O banheiro era ao ar livre num pequeno quintal, cagava e mijava junto de umas bananeiras e o banho era de cuia (um velho pote desbotado de margarina) junto de um tonel que usava como cisterna. O quintal além das bananeiras tinha uns pés de acácia que a noite dava privacidade para o pastorador que gostava também de ficar no escuro, sentado numa cadeira ouvindo o radio com uns headphones de esponjas desgastadas observando os carros passando.   Comia de tudo que aparecia na rua, sobras em lanchonetes e churrascarias de beira de estrada, machista se recusava a comer sobras de homem, pois segundo ele não queria sobejo de macho. Comia também goiaba, seriguela, manga, quando não era do chão era roubada nos quintais de noite e de dia que ele saia para pastorear.

Nos últimos três dias Zumiro não sabia o que era dormir. Já era fissurado por radio, ouvia de tudo, assobiava perfeitamente as vinhetas dos comerciais, os jingles, mas agora com as FMs 24 horas no ar, a empolgação exagerada o levava a viver em função de comprar pilhas pra manter o walkman ligado a todo vapor. Não existia crack naquela época, mas o aspecto acelerado, a fala ligeira às vezes difícil de compreender lembrava um viciado em pedra. Tinha levado muito sol naquele dia de labuta, a pele vermelha escura queimada ardendo e o bolso cheio de moedas fazendo barulho, chegou batucando no balde na bodega de Biu do Frinfa:

– Bote ai seis pilha na conta de Ziriguineldo Alencar! – Falou velozmente Zumiro.

– É o que bafo de rola? – rebateu o dono da bodega dando com um mata-moscas no ombro de Zumiro:

– Ai carai!!! Seu buceta, ta doido? Tô todo queimado omi, bote essas pilha logo– disse jogando muitas moedas no balcão.

Nesse momento chegou ao recinto o famigerado Chico Camelo, outro ouvinte inveterado de radio. Diferente de Zumiro, Chico vivia em função de comprar com as moedas pelas quais mendigava, fichas telefônicas para ligar pedindo musicas e dar recados para outros ouvintes nas difusoras AM e FM. Era comum ouvi-lo na sintonia, então o pastorador o considerava como uma figura ilustre. Chico usava um chapéu preto e óculos estilo caminhoneiro, já aparentava idade avançada o caboclo. Com muitos anéis nos dedos, o cigano comprou algumas fichas e saiu em direção do orelhão telefônico que ficava a poucos metros dali. Já abastecido de pilhas novas, Zumiro observava cada passo do seu heroi enquanto chupava um dindim de coco queimado que vendia a 10 cents na bodega de Biu do Frinfa. Sentiu-se extasiado ao ver e ouvir o velho viciado em radio pedindo uma musica de Bartô Galeno em oferecimento a rapaziada do Papôco.

O calor do dia parecia persistir ao cair da noite com a sensação da pele queimada. Zumiro sentia um certo enfado e ele sabia que precisaria de mais moedas para garantir mais baterias. Partiu num passo miúdo ao estacionamento de uma churrascaria chamada O Boizão. Procurou o carro mais sujo e com apenas um balde e sua flanela lambeu o veiculo em 15 minutos. O dono quando chegou ficou meio irritado com a liberdade de Zumiro, mas se conteve e meio contrariado deu umas moedas pro pastorador. Chegava um carro e o homem virava manobrista, conseguia vagas pra quem chegava e ali levantava seus trocados e umas sobras em marmitex, perto da meia noite o restaurante fechou. Antigamente Zumiro voltava pra casa, mas nos últimos tempos as coisas tinham mudado com a necessidade constante de comprar novas pilhas.

Seguindo a rodovia durante uns vinte minutos de andada, se chegava num clube de bancários onde estava rolando uma tertúlia. Durante a caminhada Zumiro imaginava maneiras de solucionar o problema das pilhas. Não tinha eletricidade em casa, pensou em conseguir com Tião Mufino, um velho da oficina auto elétrica que funcionava perto da sua maloca, uma bateria de caminhão pra usar como gerador e manter o walkman funcionando, também pensou em roubar energia mas não parecia ser viável. Chegando próximo ao clube o viciado em radio observou os carros estacionados ao longo da rodovia, o lugar estava tomado pela turma das Maldivas, pastoradores com os quais ele tinha boas relações. Aproximou-se de um pequeno jeep cor carmim feito de fibra de vidro onde dois jovens suburbanos observavam o movimento de fora da festa enquanto rolava no toca fitas “roadstar cara preta” (com um equalizador tojo) a musica Roxxane:

– Que som é esse galego? É Bob Marlis? – perguntou ao jovem loiro de óculos.

– Não, é The Police. – Respondeu o rapaz meio sorridente.

– Massa! To ligadão faz três dias, so tomando dreher e ouvindo FM! – disse um muito empolgado e saltitante Zumiro.

Depois de passar uma hora e meia no lugar e ter descolado algumas moedas, o pastorador cansado e com a pele dolorida queimada de sol, já se preparava para retornar pra seu barraco quando foi abordado por duas motocicletas que pararam do seu lado buzinando. Em uma das motos estava um velho amigo de orfanato, Irineu, os condutores eram dois homossexuais conhecido das cercanias. O seu antigo amigo convenceu o pastorador a aceitar uma carona. Como estava cansado não rejeitou. Quem conduzia a moto em que ele estava era um deficiente auditivo traficante de loló (uma mistura de álcool e clorofórmio). As motos emparelharam e Irineu gritou perguntando:

– Bora la na casa do mudo, tomar uma?

– Vou nada omi,  tô todo moído! – berrou de volta o pastorador.

No meio da conversa (ou dos berros) o surdo mudo condutor apertou na virilha de Zumiro que no susto do impulso derrubou os dois da motocicleta. No momento da queda para o seu desespero o walkman amarelo foi arremessado longe e destruído, enquanto catava os restos Zumiro chorava feito uma criança. Compadecido, o surdo mudo que não morava longe, foi ate sua casa e trouxe um pequeno radio de pilha pra tentar amenizar o sofrimento do pastorador. As costas pareciam em chamas, os joelhos arranhados escorriam filetes de sangue. Ao chegar no seu barraco, Zumiro bebeu no gargalo a meia garrafa de conhaque que restava, se despiu, pendurou o pequeno radio de pilha num galho da acácia que ficava próxima do tonel cisterna, ligou o radio que tocava uma musica antiga, dos tempos dourados do radio, entrou no tonel e ficou só com a cabeça de fora, tipo um hipopótamo, aliviando as dores da carne com a agua fria observando caminhões carregados de sal passando na rodovia.

 

MEIOTAS E DEVANEIOS

Posted in Uncategorized on maio 17, 2016 by contosdacratera

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Por Glaucio Fabrizio

O bar nunca fechava e ficava a três quadras da zona portuária. Seu Osmar, eternamente de olhos vermelhos dizia não conseguir dormir fazia oito anos, desde o dia que presenciou um cliente sendo esfaqueado na jugular por um travesti apaixonado. Ele não sabia, mas dormia de olhos abertos, às vezes de pé, encostado no balcão, escondendo uma velha 12 enferrujada de cano serrado e dois disparos. Quando falava, seu Osmar puxava o ar fazendo um buraco no peito. O bar ficava no beco das almas, vizinho ao antigo teatro chinês que hoje só tinha a faixada e era abrigo de doenças e animais viciados em pedra. As paredes encardidas ainda exibiam timidamente o que um dia foi uma pintura, podia ser verde, mas podia ser azul, nem seu Osmar lembrava mais. O balcão, de madeira que cupim não rói, era todo tatuado em ponta de canivete de nomes como Chico, Zé da Rola, Cid Malavéia, Brigite, Jamaica do Pife.

Ao raiar do dia entrava pela porta o tremulo Dantas. A sede brutal não permitia ações simples do dia a dia como abrir  o zíper e tirar o cacete pra urinar. Chegava meio envergonhado e perguntava se tinha café. Seu Osmar bufava alguma palavra indecifrável e trazia a garrafa de aguardente. Os olhos de Dantas brilhavam, esboçava um sorriso no que havia lhe restado de dentes na boca. Trazia consigo um canudinho branco listrado de vermelho desses que vem nas caixinhas de achocolatado cheias de vitaminas e diabetes para o seus filhos. Sem o acessório Dantas não conseguia segurar o copo sem derramar o que matava sua sede. Bebia de canudinho e lambia os beiços como se fosse toddynho.

Luizito era outro grande habituê do lugar. Praticamente vivia no bar, tomava umas 3 doses seguidas e apagava na mesa ao canto perto de um calendário antigo com a Roberta Close. Geralmente levantava pra fazer as necessidades fisiológicas. Suas refeições se resumiam aos tira gostos gordurosos e geralmente azedos da casa:

– ô seu Osmar, tem carne de sol tem? – perguntava Luizito

– Tem não! – respondia pigarreando.

– Tem macaxeira?

– Tem não!

– Guiné?

– Tem não!

-Tem o que então omi?

-Muela!

– Só isso? É de hoje?

– É não! Se quiser mastigue papel de embrulho! – respondia enfezado seu Osmar.

– Pode trazer a muela.

Enquanto Luizito ruminava o tira gosto, dois estudantes surgiram no boteco, sentaram no balcão e pediram um refrigerante, era um jovem casal, já se passava das 9 da manhã. O rapaz de cabelos longos e camiseta do ac /dc fazia um carinho na barriga da jovem, que por sua vez tinha uma pele muito alva e cabelos tingidos de vermelho cor de sangue. Ela repousava suas pernas entre as coxas do seu jovem amante. O rapaz segurava a mão da moça, cantarolava uma musica num inglês bem sem vergonha, ela curtia, bebia o refrigerante também de canudo, mas suas tremidas deviam ser somente quando gozava na ponta dos dedinhos delicados. Seus pequenos lábios carnudos rosados sem batom envolviam o objeto, segurava a garrafa de vidro de uma forma que fazia seu Osmar imaginar sacanagens, imaginava a calcinha de algodão suja da garota, como ele queria sentir o cheiro, os dois foram embora e seu Osmar logo se perdeu em outros pensamentos menos pecaminosos.

Por volta das 11 horas ouviu-se cincos disparos secos de espoleta. Um jovem jornalista que refrescava a goela com uma cerveja gelada levantou-se ligeiro e correu pra fora do boteco. Seu Osmar não ficou preocupado, pois o rapaz havia deixado suas coisas por sobre o balcão, com exceção da câmera fotográfica que trazia consigo. A polícia demorou uma meia hora pra chegar. Um menino de rua foi executado enquanto dormia entorpecido de cola de sapateiro na sarjeta. Segundo a única testemunha ocular do crime, um louco sem teto, uma freira chegou numa traxx e executou o pequeno delinquente atirando a queima roupa. Segundo o vadio, o garoto deu vários sopapos a cada tiro que tomava, parecia uma folha de papelão, de fato o menino era magérrimo. O jornalista como um abutre circulando o corpo, fotografava freneticamente de vários ângulos, mas depois deu-se conta que a estória da testemunha não era publicável, não fazia sentido, voltou para o bar descontente, tomou mais uma cerveja enquanto via no visor da câmera um corpo magro furado de balas.

La pelas 15 horas adentraram ao bar dois jovens discutindo sobre politica, um era de direita, o outro de esquerda, eram orgulhosos em assumir seus posicionamentos, citavam trechos de livros famosos, manifestos, sorviam cerveja na mesa ao lado onde Luizito dormia. Tocava na radio uma musica dessas que se pagam pra tocar, alguns chamam de jabá, o rapaz de esquerda chamava de lavagem cerebral. Os ânimos alterados da população só refletia a conversa dos dois. Ambos eram a favor da liberdade, mas a liberdade de quem? Saíram embriagados do bar, cambaleando ainda discutindo quem merecia a liberdade. Seu Osmar dizia consigo:

– Mangote de fela da puta que nunca pegaram numa enxada – refletia e deixava quieto, afinal eles pagaram a conta sem problemas.

Com o cair da tarde, o calor amenizou. Uma nuvem enorme que estava sobre a cidade mijava uma fraca chuva, daquelas que você se arrepende de não ter trazido um guarda chuvas. O camarada sai acreditando que não vai  se molhar muito mas depois de dois minutos de caminhada fica todo encharcado. Entrou uma turma de universitários trazendo junto uma marola de erva, a única moça do grupo já chegou meio alterada, usava essas saias indianas hippies e discutia sobre feminismo. Era pequena, mas parecia mais forte que todos aqueles marmanjos abobados. Subia nas pontas dos pés e apontava com o dedo na cara exibindo uma tatuagem de Simone de Beauvoir nua de costas na parte interna do braço, ostentava também um suvaco cabeludo. Pediu uma dose de cana enquanto os garotos foram de cerveja. Seu Osmar a seu modo gostou dela, mas tratava de forma grosseira a todos. A moça era magra, sem sutiã os seios pequenos marcava na blusa branca com flores bordadas, a bela transparência da liberdade. Ela não ligava quando seu Osmar mirava discreto. Ele sabia que ela não ligava, mas não desrespeitou a moça. Luizito acordou e se aproximou do balcão onde estavam os universitários chapados. Ficou observando indiscretamente as tatuagens, brincos que arrombavam as orelhas e outras extravagancias do grupinho de hipsters. Fixou o olhar de forma muito constrangedora no suvaco peludo da garota. Seu Osmar para evitar confusão serviu logo as tres doses que Luizito sorveu instantaneamente e voltou pra sua mesa dormitorio. Aproximava-se das 20 horas quando o grupinho foi embora.

Aquela parte da cidade diminuía o ritmo enquanto apareciam as criaturas que habitavam a noite. Travestis, putas, traficantes pé de chulé, cafetões, policiais. O bar ficava quase sempre vazio, aqui acolá umas criaturas surgiam, compravam um cigarro, um estivador que vinha comprar uma meiota de cana ou ate mesmo buscando os serviços das putas, travestis e traficantes.

O relógio orient de Luizito marcava meia noite, subia um vapor das bocas de lobo do beco. A umidade estava no ar, parecia uma buceta quente e viva. Uns besouros se chocavam nas duas únicas lâmpadas de tungstênio que dava aquela luz âmbar ao lugar. No exato momento que seu Osmar puxava um cochilo e sonhava com os seios da jovem feminista, o barulho de motoneta o acordou. Rapidamente entrou no recinto uma freira de baixa estatura com uma pistola automática desert eagle , parecia um canhão cromado, primeiro acertou Luizito na cabeça , que do jeito que dormia continuou. Seu Osmar primeiro puxou um gatilho sob o balcão acertando na região da barriga a freira, atordoada recebeu mais um disparo no peito agora por sobre o balcão, a freira com o impacto foi jogada sobre a mesa onde estava o cadáver de Luzito. Seu Osmar rapidamente correu ate a porta e verificou se alguém havia testemunhado o ocorrido, o beco estava vazio tomado pela neblina de vapor. Muito raramente seu Osmar baixava a porta do bar, oito anos aberta a mesma emperrou. Antes de deitar sobre o balcão seu Osmar verificou os documentos da freira, se chamava Irmã  Rosalba, era da paroquia velha.

Dantas que chegou tremulo atrás de seu “café” parou a tremedeira ao ver os cadáveres sobre a mesa e seu Osmar deitado em cima do balcão dormindo roncando alto. O dia raiava e logo chegaram uma viatura da policia civil e uma ambulância, a mesma viatura que veio atender o caso do cheira-cola morto, Dantas, suando frio de abstinência, ficou horrorizado quando um dos policiais sacou o celular do bolso  e fotografou sob o habito da freira morta sua calcinha com os fartos tufos de pentelho saindo pelos lados, Seu Osmar também viu a cena e então lembrou da moça feminista. Foi levado pra depor na delegacia e nunca mais reabriu o bar.

OS ASTRONAUTAS ERAM DEUSES

Posted in Uncategorized on janeiro 15, 2016 by contosdacratera

 

iris-scanPor Glaucio Fabrizio

O Sujeito desta narrativa tem um nome impronunciável, chamemos de W para facilitar a vida de quem vos narra o conto. W veio de algum observatório de galáxias, num quadrante entre zilhões, agora estacionado em um setor entre as galáxias de Andrômeda e Via Láctea onde os humanos costumam chamar de universo. Criatura excêntrica, de formas hominídeas, o formato do crânio era muito parecido com a cabeça de um nordestino, mas ao invés de cabelos, olhos, orelhas, nariz, boca, pelos, todo seu corpo ou tecido parecia ser de uma massa cintilante que hora permanecia com aspecto metálico cromado, hora se misturava em uma íris multicolorida como se o corpo inteiro fosse um olho ou para ser mais especifico: um globo ocular.

W fazia parte de uma classe de criaturas extremamente criativas e sensitivas. Apesar de engenhosas, estavam bem abaixo do alto escalão. Concebido pelos seres superiores, que aqui podemos chamar de Mestres, W funcionava como uma engrenagem num mecanismo magico infinito de geração de uma forma de energia comum a tudo e a todos, que aqui chamaremos de *. Criado como unidade, W passava toda a sua existência sozinho, vagando de universo em universo, observando as galáxias. A sua finalidade se resumia a criar o cosmos, planetas, vida e a matéria. Tudo que fosse criado teria uma alma, teria o básico essencial da matéria prima que se fabrica *.

Desta energia, como sentinelas, as criaturas da classe de W observavam, separavam e sintetizavam a matéria prima essencial aos Mestres que também criava outras classes e suas respectivas hierarquias. Se num planeta distante um alien peidasse, o fato do alien existir, do peidar, já estaria gerando o básico essencial. O correr do tempo, o vagar das coisas, o nascer de pessoas na terra, uma punheta em alto mar, tudo, mas tudo produzia. O seu trabalho era acompanhar e tentar manter a produção de * estável para os Mestres, pois deles, criaturas como W dependia para existir. As galáxias, os planetas e todos os corpos celestes eram desenhados e projetados de maneira que lembrava um aquário, ou um formigueiro de projeto de feira de ciências onde o console de controle era a sua mente. Em alguns planetas como a terra, a matéria prima se dividia em dois subprodutos:*1 e *2. O primeiro era extraído de vida orgânica, pessoas, plantas, bichos, bactérias e etc. e servia diretamente como fonte de alimentação dos Mestres, e o *2 extraído de matéria não orgânica, menos nobre era processado como fonte de energia para a criação das sentinelas.

Uma vez estacionado, W calibrava a conexão com cada elemento existente nas galáxias.Na terra o escoamento das almas se dava pelo que durante muitos anos os cientistas chamaram de buracos na camada de ozônio. À medida que se mantinha estável a produção, os mestres evoluíam as subclasses, criando classes mais avançadas e fazendo melhorias nas suas sentinelas. A tal calibração às vezes necessitava de uma presença em campo, então W criava milhares de subsentinelas (mini copias dele mesmo) que desciam diretamente nos pontos de controle, também pelos buracos na camada de ozônio. Apesar de criados como unidade e nunca se esbarrarem diretamente pelo universo, as criaturas como W, como que por uma espécie de anomalia conseguiam interagir entre eles no estado de subsentinelas e podiam assumir as formas que melhor lhe convir. Quando seus entes se cruzavam in loco, a troca de energia causava uma sensação de bem estar e êxtase.

Nessas ações dos subsentinelas, muitas vezes havia um contato direto com os objetos criados, os inicios de varias civilizações assim se deram, com um leve empurrãozinho ou ajuste, os humanos foram desenvolvendo seus instintos mantendo a cadeia de produção do néctar essencial. Como autômatos os sistemas naturais foram se criando e se multiplicando. Os grandes cientistas, todos eles foram criados com o objetivo de serem superiores no seu intelecto, de forma que o conhecimento fosse compartilhado em uma velocidade gradual para a sociedade, o conhecimento as vezes pode ser perigoso para quem não está acostumado com o poder de saber. Por isso que são poucos gênios para uma imensa massa de idiotas.

Um subsentinela desceu em uma área suburbana cercada de remanescentes de vegetação hipexerofila. Os lugares mais áridos apresentavam uma boa quantidade de matéria prima, pois a energia envolvida para manter a estrutura básica dessas plantas era imensurável, tais espécies esperavam vários meses, segurando sua latência, sem folhas, sobrevivendo com o mínimo de agua e com o primeiro sinal de umidade no ar, explodiam numa energia de mil bombas atômicas, sistemas delicados, uma verdadeira obra prima minimalista das sentinelas. A mini copia de W assumia naquele instante, a singela forma de um pardal preto. Pousou na janela de um banheiro onde uma senhora gravida, com um imenso barrigão, sofria sentada no vaso, gemendo baixinho, ela estava com cólicas há alguns minutos, mas não sabia se era o menino que ia nascer ou era vontade de obrar. Por alguns bons segundos ela soltou um peido gigante, mas tão forte que derrubou o espelho do banheiro, assustando o pardal preto sentinela que estava na janela, quando ouviu aquele bater danado de asas a mulher que ainda viu o vulto do pássaro assustado, pode jurar que o menino nasceu com asas, ricochetou no espelho e saiu voando pela janela. Em estado de choque a mulher ainda balbuciava que o menino ia aparecer lá na torre da igreja da catedral profetizando o apocalipse.

Há alguns quilômetros dali, outro subsentinela, em forma de barata, observava o habitat de um bar decadente. O prédio que parecia um drive thru, era uma cabine em forma de V, tinha duas janelas que abertas lateralmente formava dois balcões, era coberto com toldos para proteger de chuvas que eram muito raras e algumas mesas de plástico espalhados pela calçada. Não tocava musica no lugar porque o dono do bar já havia trocado o radio por crack. Um jovem apresentando boa aparência contava com entusiasmo uma estória cheia de ação, aventuras, espancamentos, mulheres nuas,  interrompia ia no banheiro, cheirava pó na unha do polegar e voltava todo cafungado pra continuar. Às vezes aparecia uns maconheiros com cachaça barata comprada no posto de gasolina malocada embaixo das camisetas, não consumiam nada do bar, mas o barman gostava de tê-los por perto, fazia volume, elevava o astral do lugar. Nas prateleiras tinha uma garrafa de cachaça com uma lagosta dentro e uma garrafa de uísque gringo, mas só a garrafa, pois o conteúdo era aguardente de uísque para enganar playboy. Às vezes acendia uma lâmpada do lado de fora e colocava um pedestal sem microfones, somente para atrair alguns clientes secos por musica ao vivo. No passar da noite já começando a sentir os efeitos da abstinência, esperava ate ter a quantidade de dinheiro para pagar o ultimo debito com o traficante e comprar suas doses extras, fechou o bar e saiu alucinado em direção a boca. No caminho sentiu uma dor muito forte de cabeça quando a barata que o observava no bar voou e pousou na sua testa, padeceu vitima de derrame, sentado na calçada de uma rua que durante o dia era muito movimentada, na real fora abduzido por algum deus sentinela, virou matéria prima, virou energia. W cumprira sua missão naquele lugar e partiu carregado de almas para alimentar o seu deus faminto, partiu para um quadrante aleatório no espaço e no tempo em algum entre os incontáveis universos.

MANTENDO DISTANCIA

Posted in Uncategorized on novembro 24, 2015 by contosdacratera

animais na estrada
Por Glaucio Fabrizio
Aos sete anos de idade Cícero foi diagnosticado com síndrome de asperger. Era uma época onde os veículos ainda andavam sobre rodas em longas estradas pavimentadas também conhecidas como estradas de rodagem.  A humanidade era dependente do óleo negro que causava guerras, genocídios e poluía a terra e a agua, além de alimentar os motores dos veículos, na fabricação de roupas, pênis e vaginas de silicone. Todos os anos durante o verão a família viajava pela autoestrada em direção ao oeste nas montanhas onde tinham um belo e confortável chalé.

Era o nono verão do menino, a viagem lhe fazia muito bem, a interação com os animais do pequeno rancho fazia parte do seu tratamento. A casa ficava no alto de um penhasco, de lá era possível ver toda a região, no escuro da noite as luzes das cidades distantes chegavam a se confundir com as estrelas do céu. Os irmãos mais velhos junto com os pais acendiam uma fogueira e ficavam horas ao redor, assando milho, queijos e bebendo vinho. Cícero brincava sozinho com seus pequenos soldados de plástico. Apesar de estar no inicio do tratamento já era notável uma evolução no seu quadro, a socialização era lenta mas deixava seus pais esperançosos.

Havia diversas arvores frutíferas no lugar, todos acordavam muito cedo, afinal dormia muito cedo também, o pai colhia frutas pela manhã, o caseiro Eli que tomava conta do lugar a maior parte do ano também aparecia cedo trazendo leite, ovos, queijo de cabra e uma maconha natural que o próprio plantava na serra, o patriarca sentava e fumava aquela erva verde num belo cachimbo feito de chifre de veado espalhando uma fumaça doce por todo o alpendre, dando gargalhadas puxava umas canções num velho fole de oito baixos, conhecido vulgarmente por pé-de-bode, Cícero sentia toda aquela vibração positiva no ar, sentava junto do pai e ficava observando com olhos vidrados o ir e o vir da sanfona e os dedos ágeis do seu velho. Havia também um galinheiro, o galo que era o dono do pedaço, costumava intrigar o garoto quando cobria as galinhas no seu coito aperreado e desengonçado. O mês corria ligeiro entre os dedos do tempo, como cobra de Mussum ensaboada. Logo a família estaria a bordo do carro carregado de malas no bagageiro do teto, Eli geralmente se despedia com aquele sorriso fingindo alegria no lugar da tristeza, afinal ele também se divertia com aquela família.

Quando partiram de volta para a cidade no final das férias pela manhã, o verão ainda castigava com o seu sol bravio, sobrevoando a estrada de rodagem urubus observavam o seu almoço, talvez um café da manhã atrasado, Pedro o irmão mais velho lia um gibi sci-fi, Sofia, a irmã do meio, encaracolava a ponta do seu cabelo preto pensando no inicio das aulas, no seu professor de álgebra pelo qual era apaixonada. O rádio do carro tocava a mais bela bachiana de Heitor Vila Lobos, a numero quatro, segundo a mãe Pedro o primogênito, tinha sido concebido ao som dessa obra prima. No exato momento em que a mãe contava essa historia da concepção olhando e segurando a mão do marido candidamente, um filhote de jumento cruzou a estrada, o pai freou bruscamente mas não conseguiu evitar a batida no pequeno asno que foi lançado sobre o para-brisas do veiculo, os pais foram atingidos em cheio morrendo com a violência do choque, sem controle o carro desgovernado capotou ao atingir o meio fio do acostamento, a musica continuou tocando no rádio ate o momento que parou a capotagem. Lançado pra fora do carro pelo vidro traseiro, Cícero foi o único sobrevivente do acidente.

A tragédia foi manchete nos telejornais locais, pois o seu pai era uma figura conhecida, empresário bem sucedido. Restou à avó materna cuidar do garoto até que esse atingisse sua vida adulta. Vivendo no seu mundo particular, Cícero aprendeu a ler sozinho, não precisou ir à escola, autodidata demonstrou habilidades com cálculos complexos e surpreendeu a todos quando inventou um pequeno dispositivo que mudaria a sua vida para sempre. Desde o acidente, se tornou uma obsessão descobrir alternativas para que aquela tragédia não se repetisse novamente, durante toda a adolescência estudou elementos de frequência e sua relação com os bichos. Partindo da ideia de um apito de cachorro desenvolveu um aparelho que afugentava animais em um raio de 300 metros.

O dispositivo foi instalado ao longo da rodovia mais movimentada do estado, onde a estatística com acidentes envolvendo animais era considerada mais alta, a eficiência foi demonstrada logo nos primeiros meses onde houve uma redução de 98% dos casos, os outros 2% se deu pela falta de  manutenção dos equipamentos que não suportava o calor forte do sertão. Tornou-se milionário aos 18 anos quando o governo criou uma lei obrigando as fabricas de automóveis a utilizar o dispositivo como peça obrigatória de segurança. Aos trinta ficou bilionário quando criou um anel repelente de insetos, o dispositivo foi vendido em todo mundo, porem distribuído na África gratuitamente, diminui drasticamente os casos de doenças como malária e dengue chegando a quase zero de casos.

 A avó faleceu pouco tempo depois de ver o neto se tornar famoso. Solitário, Cícero passou a se incomodar cada vez mais com o assedio das pessoas, não suportava as reuniões com os sócios mostrando planilhas e números de lucro absurdos mas com potencial para ser maiores. No dia que quase foi estuprado por duas belas loiras, o rapaz resolveu se debruçar sobre a prancheta mais uma vez para evoluir o seu evento, o seu desejo agora era que os seres humanos fossem afetados de alguma maneira, a sensação tinha que ser sutil, afinal ele também sofreria com os efeitos, partindo da ideia de armas sonoras não letais utilizadas para controlar manifestantes em massa, Cícero foi trabalhando o dispositivo para que este causasse certas sensações incomodas, como cólica, dor de cabeça.

Primeiro testou com os empregados que trabalhavam na sua casa, Nazaré que estava na família há anos foi a primeira cobaia, ela trazia o seu café da manhã no quarto desde pequeno, quando entrou naquela manhã, Cícero ligou o dispositivo afetando de alguma forma o sistema digestivo dele e da domestica, ela peidou sem querer e quase cagou nas calças, ele também quase suja a cueca. O inventor anotou aquela frequência, de repente poderia ser usada como alternativa para laxantes, a indústria farmacêutica não gostaria desta ideia certamente. A segunda cobaia foi o jardineiro Jeremias, Cícero se aproximou com o dispositivo ligado e notou nos primeiros segundos um comichão nos bagos que logo se transformou numa ereção dolorida, Jeremias que já era meio idoso, aproveitou correndo pra junto de Nazaré, que era sua esposa, atacando-a na cozinha, pena que o fogo só durou o tempo em que o dispositivo estava ligado para a decepção do velho jardineiro. Anotada a frequência certamente Cicero quebraria a indústria farmacêutica ou seria assassinado a mando dela.Com os ajustes feitos, o jovem inventor finalmente conseguiu êxito numa reunião na qual foi obrigado a comparecer, com o dispositivo disfarçado no relógio, o jovem gênio resumiu a chata reunião em apenas 5 minutos.

No outro dia pela manhã, apesar do sucesso na sua empreitada, Cícero sentiu um imenso vazio no seu peito, tipo a musica de Cartola, o sentimento de saudades que tinha de sua família lhe deixava com um nó na garganta, o seu invento poderia realizar o seu desejo de ficar sozinho, mas jamais afugentaria a sua saudade. Ordenou que o motorista o levasse até a casa da montanha, antes no caminho parou no local do acidente onde perdeu seus entes queridos, deixou um ramalhete das flores prediletas de sua mãe e tocou para o chalé, lá encontrou Eli, já meio velho, cego de um olho, o mesmo sorriso inocente , passaram a tarde sentados na varanda, calados, o jovem já não precisava ali do seu repelente de gente, observou a paisagem ate quando anoiteceu e as luzes da cidade faziam parecer que as estrelas caíram do céu, ele não voltou mais pra cidade, ali ficou até o ultimo dia de sua vida.

NÁUFRAGO

Posted in Uncategorized on setembro 4, 2015 by contosdacratera

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                                                                                                                                                               Por Glaucio Fabrizio
Atormentado por uma enxaqueca moral diária nos últimos dois anos, Bertoldo Antunes já não tinha paciência para travar diálogos com outras pessoas. Enclausurado numa redoma de intolerância social, até o cantar de um passarinho poderia incomodar, principalmente quando não conseguia dormir na noite anterior. Tomava café com pão e nas primeiras horas do dia sentia um certo conforto até o momento que uma de suas vizinhas do prédio acordava e tirava o seu sossego com barulhos de panelas, cantigas religiosas e comentários fervorosos sobre o capitulo passado da telenovela ou da roupa indecente da gostosa do 1808, tudo  isso com uma voz rouca de quem fuma 4 maços de cigarro diariamente.

As 7 e meia da manhã o filho da vizinha trazia o seu neto, pra sorte de Bertoldo, nesse momento geralmente ele estava indo pegar a condução até a repartição onde trabalhava como funcionário publico. O garoto era infernal e nas poucas vezes que esteve na casa da sua avó no dia que Bertoldo também estava em casa, foi difícil sobreviver sem um AVC por tanta aporrinhação e barulho, a musiquinha da galinha escrotinha era a coisa mais insuportável para o náufrago.  A voz rouca intercaladas com tosses e pigarro a cada gargalhada da avó chamando o neto de coisa fofa fazia Bertoldo sonhar acordado, ele se imaginava saindo de casa deixando uma boca de gás aberta no fogão, sonhava com uma explosão tipo Hiroshima devastando toda a vizinhança e as gargalhadas de pigarro da sua vizinha.

No ponto de ônibus Bertoldo colocava um fone de ouvido, mesmo sem ouvir musica, só para evitar papo com os outros. Sempre tinha uma senhora solitária que puxava conversa, enquanto o nosso personagem fingia ouvir e sacudia a cabeça lentamente, nem fazendo sim nem fazendo não. Certa vez dentro da condução um senhor tentou puxar conversa mas Bertoldo se fingiu de surdo, pra sua surpresa o homem conhecia a linguagem dos sinais e a viagem se tornou um grande estorvo. Quando alguém atendia o celular dentro do ônibus então era um grande martírio, ouvir conversas torpes quase gritadas por conta do barulho do motor do veiculo, gritarias (conversas) sobre a rapariga do marido de uma, ou sobre o placar do jogo de outro.

O dia costumava ser lento na repartição, os colegas de trabalho já conheciam o seu temperamento, mas não conseguiam evitar conversar entre eles, alias uma coisa que funcionário publico não consegue evitar: falar no trabalho, falam de tudo, desde a vida alheia até a cirurgia de hemorroidas que atrapalha horrores na hora de defecar. O alivio chegava as 17:00 horas quando o naufrago social batia o cartão e saia afrouxando a gravata como se libertando de correntes, todo dia. No fim de semana Bertoldo praticava mergulho e fotografia na Baia dos Afogados. Aqueles minutos embaixo d’agua eram esplendorosos para ele, o silencio, os poucos peixes que sobrevivam à poluição da baía. Apesar do nome nosso mergulhador solitário nunca avistou corpos ou esqueletos de vitimas de afogamento no lugar. Fotografava muita coisa como tampa de privada, botas, placas e latarias de carro, garrafas e latas de refrigerante ou cerveja e todo tipo de coisa que você pode encontrar nos supermercados. Ganhou até um premio com uma belíssima fotografia que foi usada numa campanha dessas ongs ambientais, ele encontrou um carrinho de compras e logo conseguiu enchê-lo com outros lixos encontrados por ali, tipo garrafas de detergente, latas de óleo, engradados de bebida, com as garrafas e tudo mais.  A luz do sol que entrava ganhava cores, talvez pela própria poluição suspensa na agua, parecia uma imagem futurista pós apocalíptica do consumismo mundial. Era também no final de semana que Bertoldo encontrava Alzira, uma massagista surda muda que aliviava a sua tensão com uma massagem cósmica finalizada com uma lenta e intensa gozada tântrica.

Já não frequentava mais bares, comprava uma garrafa de uísque e a derrubava em casa mesmo sozinho, sentado no escuro da sala, em dias de insônia ajudava a dormir, muito embora os pesadelos fossem mais amargos nesses dias. Antes ele fumava um grosso baseado de Skank, mais saudável que o álcool, mas o deixava com uma forte impulsividade para conversar, conversava sozinho, com as paredes, de frente pro espelho, sentia ate vontade de dançar. Definitivamente Bertoldo não gostava de ouvir sua própria voz, desde criança quando se gravou cantando uma musica num velho gravador aos 8 anos de idade. Só o uísque salvava.

Morava no 18º andar, num condômino de classe media baixa, eram  milhares de apartamentos em um enorme amontoado de edifícios, tipo uma floresta de arranhas céus.  A verticalização da cidade era marcante, não existia mais subúrbios como antigamente, todos migraram para apartamentos apertados, de seu Ap Bertoldo não conseguia ver o céu , somente prédios que ficavam tão próximos um dos outros que era possível conversar da janela com o morador de outro edifício. O voyeurismo era comum desde a era dos reality shows.

O prumo da vida de Bertoldo começou a mudar no dia que não se ouviu mais barulho da sua vizinha, pouco tempo depois ficou sabendo que ela havia falecido, estava internada há dias com um enfisema pulmonar brutal que lhe ceifou a vida. Não demorou muito até chegar um novo morador, ficou preocupado no dia que se deparou com um belo piano no corredor, a dona e sua agora vizinha estava no elevador, era uma jovem senhora, devia ter uns 45, cabelos encaracolados e ruivos, tinha olhos castanhos meio esverdeados, sardas no rosto, usava uma roupa confortável, cheirava bem,  olhou profundamente nos olhos de Bertoldo, mas não falou com ele, nem um bom dia deu. Ele gostou dela. Morava sozinha, não recebia visitas e era silenciosa como um gárgula no alto de um prédio. Apesar de não se interessar  pela musica, Bertoldo se emocionava quando Helena (descobriu o nome com o porteiro) tocava diferentes peças clássicas ao piano toda noite.

A musicava soava triste mas trazia uma certa luz ao escuro da sua sala melancólica e quase silenciosa (o vento as vezes assobiava por alguma fresta de janela entreaberta), tipo como as luzes das estrelas ou um pálido luar. Remetia a filmes antigos de fantasmas vitorianos, Já não precisava mais do uísque pra dormir, como sentia um cheiro de cânhamo que vinha do ap de Helena, voltou com o Skank, a musica soava mais aveludada, a vida parecia mais colorida agora para Bertoldo. Chegar em casa depois de um dia duro na repartição agora fazia sentido. A noite em casa enquanto alguns tomam ansiolíticos, outras bebem, outras fodem, outras assistem novela, comem pizza, Bertoldo fuma Skank e escuta musica clássica, na real escuta Chopin tocada por sua silenciosa musa pianista, claro que descobriu isso também com o porteiro, afinal eles sabem tudo.

DROPS AMARGOS SABORES URBANOS

Posted in Uncategorized on julho 28, 2015 by contosdacratera

                                                                                                                                                                             Por Glaucio Fabrizio
Naquela tarde as três horas, parecia uma espécie de limbo entre os poucos que circulavam pela urbe, sem muitos estudantes nem trabalhadores indo ou voltando do trabalho, a condução seguia rumo a Uptown quando um sujeito enorme da cara-suada-e-rosada-do-sol subiu urrando como um leão marinho no cio perguntando se alguém poderia pagar sua passagem, uma jovem senhora com uma sombrinha lhe deu uns trocados. O homem disse ser representante de uma organização que trata de dependentes químicos, saiu distribuindo a cada um dos passageiros sentados um pequeno kit contendo a mais variada espécie de bugigangas como espelhinhos, mini agendas telefônicas, canetinhas, lanterninhas, drops, barras de chocolate, além de um folheto com algum texto bíblico. Depois de citar de cabeça uma passagem do evangelho e contar seu triste testemunho de vida onde perdeu tudo que tinha pro álcool e o crack, saiu recolhendo os kits rapidamente com o corredor praticamente livre. Alguns davam umas moedas e devolviam o produto, outros compravam dois ou somente um. Na ultima poltrona estava um jovem com dreadlocks e camiseta de Bob Marley, este levantou a mão e perguntou:

-Tem algum desses com isqueiro? – perguntou ao mesmo tempo em que estava de olho na barra de chocolate.

O ônibus parou no ponto, o sujeito realmente tinha um kit isqueiro com versículo impresso, desceu da condução para logo em seguida já subir noutro que vinha atrás.
Da mesma condução na qual o sujeito suado subiu, saltou uma bela jovem com um vestido florido justo ao corpo exibindo sua forma atraente até para os pardais que brigavam por um espaço num galho de arvore. O barulho do salto alto na calçada tinha quase uma cadencia de marcha marcial.  Os seios balançavam no decote, esquerda direita, esquerda direita, uns garotos recrutas que serviam o tiro-de-guerra pararam boquiabertos batendo continência. Um artista de rua que fazia malabares deixou as bolas caírem, um guarda de transito esqueceu o oficio enquanto olhava para a bela mulher e deixou de multar alguns barbeiros. Atravessou a faixa de pedestres de forma glamorosa abrindo caminho entre os transeuntes. Alguns otários buzinavam pra ela que seguia seu desfile descomunal pela rua. A chuva que começava a cair não conseguiu interferir na elegância da moça, era como se as gotas d’agua não atingissem sua beleza, caminhando direto para entrada daquele colossal templo de consumo, as portas automáticas abriram fazendo reverencia a sua beleza. Parou para retocar a maquiagem, os cabelos negros brilhavam como cachoeiras de café, estava ali para uma entrevista de emprego muito importante, vinda da capital vizinha sonhava arrumar um bom emprego e continuar a vida naquela cidade que havia adotado para viver. Ao olhar para a vitrine da loja achou sua barriga (chapada) um pouco saliente e ficou preocupada, não podia perder aquele emprego por conta daquele bucho (pura paranoia da morena) sem pensar duas vezes se dirigiu ate a farmácia mais próxima e pediu o laxante mais poderoso que eles possuíam, tomou ali mesmo umas boas goladas do frasco que tinha uma aparência de xarope. O remédio fez efeito muito rápido, o suficiente para não dar tempo da moça chegar ao banheiro, mesmo com a bosta fina escorrendo por suas belas pernas torneadas, a moça seguiu elegante, segurando o choro, toda cagada, mas sem perder a pose.

Ainda no templo de consumo havia um grande supermercado. Por ali rondava um senhor muito magro aparentando 1,90 de altura, de boné enterrado na cabeça quase cobrindo seus olhos e uma barba rala com pelos grisalhos. Parecia tranquilo, sereno enquanto a cidade lá fora cuspia em seus cidadãos como se estivesse entojada, prenhe. Usando um agasalho de time de futebol, o senhor caminhava na seção de eletrodomésticos, apreciava o cheiro dos eletrônicos, passava o dedo meio que avaliando se a limpeza do lugar havia sido desleixada procurando poeira nas prateleiras. Experimentou alguns bonés na seção de vestuário, não encontrou as cuecas samba-canção, gostava da liberdade nos bagos, cuecas apertadas tipo sunga era coisa de afeminado pensava ele, pareciam calcinhas. Nos secos e molhados, adorava ver a grande variedade de grãos multicoloridos, os cheiros, as texturas.  Lembrava-se de sua infância quando ia à feira com a mãe, viajava no tempo e enfiava as mãos na farinha amarela, nas sacas de lentilhas, arroz vermelho, quase como Amelie Poulain. Em êxtase, as câmeras espalhadas por todo o lugar já havia deixado em alerta os seguranças que foram ao seu encontro, quando chegaram lá se depararam com o senhor de calças arreadas com o seu pênis grande e mole enfiado no barril de azeitonas. Os guardas saltaram em cima do idoso imobilizando e jogando a cara do velho contra o chão. Mesmo depois de tomar uns safanões, socos e choques elétricos, o velho mostrava um sorriso tranquilo, apesar da violência que fez sangrar sua boca.
No mesmo instante que o senhor do pênis no barril de azeitonas frescas era dominado e hostilizado por seu ato indecoroso, um livro jazia abandonado num banco de ponto do ônibus no outro lado da rua. Uma senhora aparentando 50 anos, cabelos pretos muito longos e bem penteados, vestido muito abaixo dos joelhos, bíblia embaixo do braço, óculos de armação e lentes grossas que deixava o seus olhos com aspecto de enormes, sentou ao lado do livro que estava esquecido no banco. Atraída pelos desenhos orientais da capa resolveu folheá-lo. Tratava-se de um livro de medicina tradicional chinesa comentada por um medico muito famoso que se apresentava frequentemente na TV. Tinha todo tipo de receita que se pode imaginar sempre com os comentários muito pontuais, fazendo alusão e comparações com o ocidente. No capitulo referente à limpeza intima a senhora ficou muito envergonhada quando leu que a mulher deveria diariamente descascar um pepino e introduzir na vagina em movimentos circulares para controlar a acidez interna e desta forma evitar infecções e mau cheiro. Ficou mesmo horrorizada no tópico que falava na importância vital do esperma para a saúde, indicava o seu uso na pele para mantê-la bem hidratada e nutrida, no comentário o medico ainda afirmava que era comum usar esperma nos batizados na época de Cristo, só depois foi substituído pela agua. Não aguentou e vomitou ali mesmo imaginando um padre se masturbando e gozando na cabeça de algum bebê, ou então imaginando muitos fieis enchendo um balde para um batismo coletivo.

Não muito distante dali, com a noite já se aproximando, no lado de fora do templo de consumo algumas pessoas se amontoavam e se espremiam no abrigo ridículo das paradas, fugindo da chuva agora incessante. Vendedores ambulantes se viravam com guarda-chuvas, o fogareiro aceso ainda deixava suspenso no ar o cheiro de milho verde cozido. Era comum naquele lugar aparecer do nada um travesti magro pedindo moedas, chegava pedindo licença com sua voz anasalada:

-Oi meus amores, vocês já me conhecem daqui né? Estou pedindo esses trocados, pois minha família me renega e ninguém emprega traveco! –disse o travesti que usava uma capa de chuva da hello kitty.

Algumas pessoas davam uns trocados, outros fingiam não ouvir, os mais estúpidos soltavam piadinhas infames, imaginavam que o dinheiro era pra comprar toxico. Ronaldo como se chamava tinha o sonho de fazer a cirurgia de mudança de sexo, desta forma guardava cada centavo que conseguia arrumar na rua, emprego era difícil, as pessoas não confiavam em travestis, no inicio ainda conseguia uns bicos como diarista, mas depois de ser acusado injustamente de roubo, resolveu recorrer a sociedade como pedinte, não se tratava de preguiça, pois caminhar quilômetros diariamente não era digno de preguiçosos, a sociedade o marginalizava não menos que a família. Não se prostituia, mas era muito namorador, a cidade estava cheia de gente solitária que caia nos seus braços magros em busca de carinho, dormia nos fundos de uma oficina no subúrbio, o dono do lugar era seu primo o único da família que ainda lhe era solidário. Chegando ao seu quarto, foi em busca do baú-cofre onde guardava as moedas arrecadadas, ficava malocada num buraco embaixo da cama, depois calmamente se despiu defronte de um velho espelho se olhando enquanto fumava delicadamente como uma gueixa um toco de cigarro, os seios com silicone industrial mal aplicados com formas bizarras, um mamilo infeccionado, escondia o pênis entre as coxas e se imaginava depois da cirurgia, a mulher mais bela da cidade, senão a mais feliz.

BUS DRIVER

Posted in Uncategorized on maio 4, 2015 by contosdacratera

motorista-onibus2

por Glaucio Fabrizio

No inicio se chamava Agenor de Andrada, nome imponente, tipo o próprio, grande e sutil como um mamute. O franzir da testa, tentando enxergar ao longe o tornava mais carrancudo do que era. Sonho de criança realizado adorava a profissão como poucos, mas nos últimos tempos a civilização estava fodendo com seu sonho. Primeiro tentou ser soldado, porem foi reprovado por ter pés muito grandes para correr e dedos muito grossos para gatilhos. Restou-lhe o volante do ônibus.

Como não tinha família, praticamente vivia no ambiente do trabalho, dormia nos alojamentos, muito direito e integro, perdia noites de sono quando cometia algum erro, às vezes coisas simplórias demais para se preocupar, mas que virava uma bola-de-neve-de-consciência na sua cabeça. Não reclamava da vida que levava, embora tenha conseguido pouca coisa no oficio, como umas hemorroidas e pressão alta. Muito cigarro, café, gordura, sódio e remédio pra aguentar a lida, nunca foi de beber. Quarenta anos nessa levada até que as sombras da ultraviolência passassem a rondar e defenestrar o seu sagrado local de trabalho, bem perto da aposentadoria.

A cidade estava perigosa, rebeliões nos presídios, centenas de delinquentes soltos nas ruas, a tv noticiava tudo com imagens em alta definição na hora do almoço pra fazer a digestão. Como nas estórias do velho-oeste selvagem americano, bandidos assaltavam ônibus tal qual nos tempos das diligencias. Circulava uma nova droga chamada Mijo-do-Cão, uma maquina de criar assassinos, vinte vezes mais viciante do que o crack. A droga era inalada e fazia o usuário excretar um suor fétido, como urina e enxofre. Sob efeito o viciado ficava perigoso e hostil, na breve abstinência, se tornava um psicopata capaz de tudo para conseguir outra dose, oito meses de uso era suficiente para causar danos irreversíveis ao cérebro e consequentemente demência.

Há décadas o exercito tentava combater o narcotráfico, bilhões de recursos públicos foram queimados junto com sangue e pólvora. A população pobre ficava na linha entre o exercito e os guerrilheiros do narcotráfico, de quatro em quatro anos bandidos assumiam seus postos no congresso e nada mudava. Agenor via de perto isso acontecer quase que diariamente. Perto de se aposentar não negava fazer os trajetos mais perigosos da cidade, muitos motoristas fugiam, pagava para Agenor fazer a linha em seu lugar. Assim o gigante fazia um pé-de-meia antes de largar a profissão que amava. No inicio pensou em comprar uma van e trabalhar com estudantes, mas seu corpanzil já dava sinais de desgaste, hérnia de disco por vícios posturais. Precisava de descanso. Já tinha decidido utilizar o dinheiro das contas pra comprar um terreno na zona rural, fazer um pequeno rancho, com horta, criar umas poucas galinhas, uma cabra chamada Lady Dy, umas frutíferas dando sombra, igual a um sonho que teve.

No dia que de Jandira subiu pela primeira vez no seu itinerário, foi paixão a primeira vista. Já passava dos 35 anos, corpo delgado, pele vermelha como brasa, o coração do velho motorista sentiu um baque. Vinda do interior a índia trabalhava como massagista em varias saunas espalhadas pela cidade, todas pertenciam ao Grupo dos 13, gang de empresários e políticos que jogavam as cartas na mesa do crime organizado local. Sempre gentil, depois de algumas viagens ofereceu os seus serviços a Agenor o tornando um cliente especial, Jandira trabalhava três dias na semana exatamente nos dias que o motorista tinha folga, então toda semana a índia cuidava de Agenor como um rei. O gigante mal cabia na maca de massagens, as pernas ficavam pra fora. Preferia encontrar a índia de manhã cedo e depois tomavam café juntos.

Os dias seguiam o seu rumo de violência, Agenor chegou a ser assaltado duas vezes na mesma semana, pelo mesmo ladrão viciado em Mijo-do-Cão ou MDC. Era um jovem com pouco mais de vinte anos, baixa estatura, cadavérico, a cara ossuda e os dentes apodrecidos. Olhos esbugalhados que pareciam saltar da cara, geralmente acompanhado de um comparsa muito parecido com ele, não seria uma surpresa se fossem gêmeos. Portando um 38 enferrujado, roubava o dinheiro do caixa enquanto o outro conferia os passageiros com uma faca. A partir de então, quando Agenor via alguém suspeito não parava no ponto, muitos passageiros esbravejavam quando passava o ônibus direto.

A cada semana que passava Agenor ficava mais vidrado na índia Jandira. Não conseguia tirar ela da cabeça, dormindo sonhava com ela, acordado também sonhava desejando a sua pele macia quente e perfumada, as mãos com óleos e cremes massageando seus músculos cansados e tensos, a boca macia beijando a sua, os cabelos pretos de graúna acariciando o seu rosto quando ela se colocava por cima para sentar no seu órgão monstruoso finalizando a sessão com uma gozada. Estava tão apaixonado que nem se lembrava de ter ciúmes dela com outros clientes, tinha sido sem duvida a melhor coisa que acontecera em sua vida.

Naquela manhã cinzenta de maio Jandira faria a sua ultima sessão de massagem com Agenor, era dia de folga, mas um motorista pediu para cobri-lo, Agenor aceitou, mas antes se encontrou com a índia. Por volta das dez da noite viriam a se ver novamente. Já indo pra casa, largando o batente, a moça sentou na cadeira por trás do motorista. Iam conversando sobre a vida, ele sentia uma grande paz de espirito ouvindo a voz de sua amada enquanto trabalhava.

O ônibus estava praticamente vazio, entretido com Jandira, parou no ponto e não percebeu que era o viciado que já havia assaltado ele outras vezes. Desta vez estava sem seu comparsa e muito mais alterado, visivelmente drogado, encostou o 38 enferrujado na têmpora direita de Agenor, rapidamente depois de pegar o dinheiro do caixa, saltou pela roleta e foi direto na índia Jandira, quando a abordou disparou um tiro no peito da amada de Agenor acidentalmente. Furioso o gigante como um raio saltou a roleta dando um chute derrubando o viciado, antes q ele levantasse apontando o 38, Agenor com uma mão segurou no tambor do revolver, sua mão gigante impossibilitou o mecanismo da arma em disparar, por mais que o viciado tentasse puxar o gatilho, não conseguiu, pois ficou emperrado. Com a outra mão o motorista apertou com tanta força e ira que acabou estraçalhando a garganta do viciado, o sangue tomou conta do chão do ônibus.

Agenor como um louco saiu dirigindo o ônibus pela cidade em busca de um hospital, arrastando os poucos carros que ainda circulavam pela cidade, incluindo duas viaturas da policia. Conseguiu chegar num hospital de urgência particular a tempo de salvar a vida da sua amada. Foi preso pela conduta perigosa no volante e homicidio, mas teve sua fiança paga por admiradores das redes sociais que passaram a trata-lo como um herói pelo feito, com sua carteira cassada, o gigante finalmente abandonou o oficio e se arrumou no seu rancho dos sonhos, na zona rural. Jandira voltou pro interior e abriu um salão de beleza. Hoje Agenor é conhecido pela alcunha de Keanu Reeves brasileiro, por conta do filme Velocidade Máxima. Cria porcos e galinhas e há quem diga que terá a sua historia contada no cinema por um tal de Scorsese. Responde em liberdade aguardando seu julgamento.