Arquivo para junho, 2010

SAL, SUOR & DRINKS GELADOS

Posted in Uncategorized on junho 16, 2010 by contosdacratera

Por Glaucio Fabrizio

Tudo era suor, na verdade tudo o é. O relógio cansado, na peleja dos ponteiros,  no labutar incansável do tempo, deixando suado o vidro do mostrador. Assim como marcas molhadas na camisa embaixo do braço deflagrando a nossa existência, o suor. O mar, em toda sua grandiosidade é responsável pela alcunha  de planeta água, nada mais é do que uma imensa poça de suor da terra que escorre sobre suas sobrancelhas, pelo rosto, em rios: Sim, um rio é um filete de suor que brota dos poros da terra, o mar, a imensa poça de suor do mundo, como num ringue de Boxe, ou como no chão da sala, quando dois corpos se amam freneticamente e se vazam entre poros, sêmem e suor. Aquele operário negro trabalhando num canteiro de obras, picareta na mão, o rosto molhado e brilhante, quase chego a pensar que se trata de Louis Armstrong cantando What a wonderful World, um ambulante vendendo pomadas que de tudo curam, mais lembrava o sacrílego pastor do soul, James Brown, um garçom frenético de churrascaria com a bandeja e o suor escorrendo na testa e nas costas, quase um Jackson e o seu pandeiro . Romarias inteiras de fieis carregando pedras sobre as cabeças,  joelhos arrombados, aloprando-se em nome da fé, pagando com suor seus pecados diários, são apenas cabeceiros estivadores no cais, misturados entre o cheiro forte do perfume das putas, da alfazema salobra e natural que suas axilas exalam, que suas pobres vestes compradas em liquidação pelo exercito da salvação deixam-se marcar como reais.  O sol faz a terra suar, o medo nos faz suar, a ânsia, apenas um aperitivo para nossa pele chorar, ou quem sabe cuspir. Assim observa o andarilho, sandálias presas com pregos,  mochila nas costas, carregando instrumentos musicais, papeis com anotações,  sobras de pensamentos como este, uma poesia escrita numa pagina rasgada de uma revista masculina, sobre um seio que parece uma manga rosa, que é bom chupar apesar de não ter gosto de nada.  Para onde vai aquele homem? Parece caminhar a horas, quem sabe dias. Sempre numa mesma direção, pros lados do mar, será que vai parar num porto? arrear as calças, e urinar na murada com as ondas batendo nas pedras? Talvez esteja fugindo, mas isso todos nós estamos. Talvez ele busque o mormaço entre as coxas de uma dama, do seu cheiro acre, da sua delicia salobra e peculiar. Caminhando pela cidade, com suas ruas arreganhadas , parindo de pernas abertas, trazendo esperança, suor e asfalto. Então vai longe o andarilho suarento,  sugado pela renascença,  de quem nasceu, morreu, e continua nesse ciclo, junto com o que escorre no seu corpo, que alivia quando pára num boteco próximo a praia, toma uma cerveja gelada, e sente-se cool por instantes. Diferente de um manequim de loja com ar condicionado, ou como o rosto maquiado das belas mulheres nos outdoors, sem brilho, sem sal na pele, ele quer continuar caminhando, sob a chuva ou sob o sol, com seu sorriso desdentado de felicidade e com sua vontade de suar e viver.

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APOCALYPSE 19 versículo 2

Posted in Uncategorized on junho 14, 2010 by contosdacratera

Por Glaucio Fabrizio

O sol mal raiava e entre o barulho dos galos anunciando mais um dia, e o barulho seco do despertador impecavelmente preciso, despertava também Josué Elias Iscariotes. Filho mais velho de uma família dos primeiros membros da Igreja das Divinas Chamas da Babilônia Perdida, casado, quatro filhos crescidos e bem educados dentro dos preceitos de sua fé. Diariamente despertava Josué, sem parecer ter dormido, não tinha preguiça, muito menos luxuria. Sua dormida acolhedora que começava pontualmente as 21:00 horas , cessava sempre ao som do velho despertador, herança de seu avô. Dobrava cuidadosamente, diariamente, o seu perfumado cobertor de lã acinzentado, tomava um banho pouco demorado mas eficiente, então assim quase como num ritual, era guiado através do cheiro de café até a cozinha, onde lhe aguardava sua esposa, Maria José Elias Iscariotes, companheira de quase trinta e cinco anos de matrimonio.  Dedicada esposa de um homem não menos dedicado.

Porém aquela manhã não poderia ser das mais comuns. Naquele dia, o caro Josué estaria muito próximo de conseguir subir mais um degrau em sua vida organizada e planejada. Estava prestes a ser nomeado o Pastor de sua paróquia. Motivo de orgulho para toda sua família e amigos. Todos os membros daquela igreja já conheciam a dignidade daquele homem e o quanto seria justa sua nomeação para o honroso cargo.

Depois de fazer sua prece, Josué degustava lentamente o seu café da manhã. Enquanto sua esposa passava a ferro cuidadosamente, como uma cirurgiã, o seu terno, terno este que pertencera a seu pai, Abraão Elias Iscariotes.

– Quase posso sentir aqui em meus ombros o peso deste terno – disse serenamente Josué a sua esposa. O que ela respondeu pouco enérgica, mas sem perder a doçura na voz:

– É o peso de seu pai que carregarás em seus ombros.

– Mas não pode ser um fardo – retrucou Josué.

– Nem será, pelo contrário, este peso fará você subir o mais alto degrau junto aos céus – Finalizou com doçura a dedicada esposa.

Terminado aquele ato do ritual matutino em sua casa, Josué carregando sua capanga debaixo do braço e uma sombrinha na mão, seguiu sua caminhada diária de 15 minutos até o trabalho. Não tinha automóvel, desde o dia em que seu filho mais velho fora atropelado na rua, descartava a necessidade de se motorizar, de ser mais um possuidor daquele satanás sobre rodas movido à gasolina. Alguns vizinhos mais maldosos constatavam ser avareza, afinal de contas Josué era dono de uma loja de ferragens, a única do imenso bairro em que moravam, tinha uma clientela respeitada, só vendia a vista e não fazia vales. Seus funcionários eram seus próprios filhos. Responsáveis e dedicados. Nunca houvera uma única oportunidade de terem sua confiança questionada pelo pai. Todos eram casados, com exceção do mais velho, que perdera a esposa vitima de um câncer de colo no útero, este se mantinha viúvo até então, cuidando do único filho, o primeiro neto de Josué, que por sinal chamava-se Josué Elias Iscariotes Neto. Neto este considerado o seu maior xodó.

Como todos os dias, o movimento na loja de ferragens fora tranqüilo. Durante todo o dia, pregos e parafusos foram os itens mais vendidos. Josué constatou falando muito baixo:

– As pessoas estão precisando muito de pregos e parafusos para se prenderem a realidade.

-Pensando alto meu pai? – perguntou um dos filhos.

– Não filho, estou só apertando aqui os parafusos de meu juízo. – Respondeu Josué com um tom de humor nunca visto antes pelos filhos em todos aqueles anos na loja. Mas relevaram, afinal de contas o seu pai estava muito feliz. Logo a noite seria nomeado pastor da paróquia, honraria finalmente os seus antepassados, que tiveram sua tímida participação na fundação da Igreja.

Ao fechar a loja, Josué abraçou fortemente os filhos, um por um. Disse olhando em seus olhos:

– Hoje é um dia muito especial, mas quero que vocês saibam que os momentos mais felizes da minha vida foram quando vocês nasceram!

Os filhos sem palavras seguiram para casa, para vestirem seus ternos, pegarem suas esposas e filhos, e se encontrem a noite, na igreja central da paróquia, onde seria oferecido um jantar aos membros e onde então finalmente seria dada a tão esperada nomeação de pastor ao caro Josué.

Chegada à noite, todos se aglomeravam junto à entrada principal do templo. Esperavam a chegada do grande nome da noite, do protagonista de todo aquele momento pomposo e gratificante. Todos queriam saudar e abençoar o novo pastor, ao entrar e ao sair do templo, era uma tradição da igreja. Já se agrupavam bastantes fieis à entrada, e todos comentavam sobre o passado do digníssimo Josué. Pai de família impecável, trabalhador, honesto e bondoso, embora alguns vizinhos o considerasse um unha-de-fome, vizinhos estes claro, incrédulos, no mínimo cristãos desregrados.

Quando Josué chegou ao local, junto com sua esposa, vestindo seu terno, herança do velho Elias Iscariotes, sentiu uma felicidade assustadora. Todos ali, sorridentes, querendo abraçá-lo, falando todos ao mesmo tempo, uns gritavam Aleluia, outros grunhiam algumas palavras estranhas. As coisas pareciam estar fora de controle, mas não estava. Tudo ocorria na mais perfeita tranqüilidade, típica das reuniões dos membros da Igreja das Divinas Chamas da Babilônia Perdida. Até o momento em que aquela criatura bizarra apareceu entre os fieis.

Devia medir quase 1,80, em cima de um salto plataforma, pernas muito finas, corpo tão delgado quanto um berimbau. Usava uma maquiagem pesada, roupas rasgadas. Era uma mistura de Tina Turner com Elza Soares e uma leve pitada de Madonna, talvez por conta de sua cabeleira loira. Com uma piteira nos dedos, fazendo pose de vedete, charmosamente abriu caminho junto à massa de fieis, acredito que motivado pelo seu cheiro forte de perfume doce e nauseante, em direção a Josué. Todos ficaram estupefatos e em um quase silencio, só cortado pelo barulho do salto do sapato daquela criatura na calçada, e do barulho de suas pulseiras. Parando defronte a Josué falou com uma voz que lembrava a Roberta Close, porem com um tom mais grave:

– Bofe, você ta me devendummm!

– O – o –que?! – gaguejou o pobre Josué.

– Dinheirumm né bixa??? num se faça de doidann!

– Mas, a-acho que a senhora ta me confundindo – já começava a suar o pobre homem.

– Olha aqui, você quis um 21 e eu dei, paguei na boa, 5 minutos sem tirar e você ainda me sujou todannn.

E todos ali estavam atordoados com aquilo tudo que se passava. As pessoas soltavam os seus “oooh!!!” a cada palavra proferida pelo transexual.

– 21? Mas o que é isso? Minha senhora, ou melhor, meu senhor, você está me confundindo – dizia desesperado o pobre Josué.

– Confundindo nadannn! Quero meu dinheirumm agoraannn!

E a confusão estava armada diante do templo. A esposa do caro Josué desmaiara e estava sendo amparada pelos filhos, enquanto todos os demais não perdiam um único instante de toda aquela agonia. O travesti cobrava uma divida com o Josué de 21 reais sobre seus serviços prestados. Do que se tratava o serviço ninguém conseguia entender, não era o simples fato dos 21 reais, aquilo era pouco para Josué, mas toda a sua honra e dignidade estava sendo jogada junto do ralo, com aquelas queixas infundadas, uma vida inteira estava sendo jogada no lixo. Josué nunca havia contratado aquele travesti, provavelmente, em toda sua vida só tenha praticado sexo com sua esposa somente na intenção de procriar, ele jamais saberia do que se tratava aquele tal de 21. Aquele travesti era apenas um charlatão querendo ganhar dinheiro fácil. O golpe era simples: Cobrar uma divida de um desconhecido, aproveitando a sua desmoralização junto a testemunhas como um momento de fragilidade. Poderia escolher qualquer um dali, todos pais de família devotos, com honra a ser manchada, seria uma vitima em potencial.

O fato é que as pessoas estavam todas envergonhadas de toda aquela situação. Todos foram indo embora aos poucos, decepcionados pela conduta daquele que seria em breve o pastor que iria guiá-los até os portais do paraíso. A sua esposa já tinha sido levada pra casa e ele tentava inutilmente mobilizar as pessoas, tentar explicar que aquilo tudo se tratava de um engano. O maior erro do Josué fora pagar os 21 reais para se ver livre do golpista. Toda sua credibilidade se fora naqueles pouco mais de 5 minutos de agonia.

Assim encontrava-se Josué Elias Iscariotes : Estático, quase um monumento de tristeza defronte a entrada do templo, sozinho, com seu terno que agora pesava como se tivesse seus bolsos carregados de bigornas e ogivas nucleares. O maior fardo que ele poderia carregar naquele momento. E esse fardo aumentava quando ele pensava na esposa que agora deveria estar em casa. Como ele iria olhar na cara daquela mulher? tão devota e dedicada. E seus filhos? Que sempre o tiveram como um exemplo a se seguir. Ninguém acreditaria nele. Perdido, tirou o paletó, e largou na lata de lixo mais próxima. Caminhou durante horas pelas ruas em direção ao nada, até que elas estivessem vazias. O pensamento correndo solto, como vagões vazios, sem pensamentos clandestinos ou beatniks embriagados e chapados pegando carona, nada, simplesmente nada. Depois de horas de caminhada, quando o cansaço já começava a abater suas pernas castigadas de tanto peso carregados nos ombros da vergonha , ele é  abordado por um outro travesti na rua :

– E ai meu bem, quer um pouco de diversão? Perguntou o travesti.

Revirando o bolso de sua calça, Josué sacou umas notas amarrotadas e disse em um quase tom fúnebre:

– sim, eu quero um 21!  por favor.

TIROS DE UMA COLOMBINA EM UM CARNAVAL FORA DE ÉPOCA

Posted in Uncategorized on junho 14, 2010 by contosdacratera

Por Glaucio Fabrizio

Foram duas semanas escolhendo meu look perfeito. Levei minha veste carnavalesca temporão para o mais conceituado estilista da cidade, ele me cobrou caro. Talvez boa parte do meu salário fantasia do jornal, talvez o máximo que meu desejo pudesse pagar naquele momento, ou que no mínimo meu status pudesse comprar com sorrisos e fotografias em minha coluna social diária no jornal. Ficou relativamente ótima, tendo em vista que meu decote ficou bastante obvio para o mais reles dos tarados de plantão, aquela típica figurinha que encontramos encostado na parede da boate, bebendo sua cerveja quente, vestindo roupas estranhas e com um sorriso idiota estampado, tão idiota que não poderia jamais ser usado, na mais idiota das campanhas publicitárias, da marca mais chulé de creme dental. Com certeza todo o meu esforço, como passar fome para manter os centímetros a menos em minha cintura não valesse a pena no olhar mais sacana daquele idiota, nem todas aqueles comprimidos que me deixava estranha, com boca seca e sem tesão.

Já tinha alguns meses que andava ouvindo aquela voz estranha, dizendo que eu estava muito gorda. Meu terapeuta estava viajando com sua esposa para Europa, chiquérrimo, ele me receitava uns medicamentos e eu ficava livre daquela voz, que parecia a voz do Clodovil, só que com efeitos macabros, que lembrava aquele filme de terror, o Exorcista. Agora aquela voz idiota também criticava minhas roupas caríssimas, roupas estas que eu ganhava é claro, e fazia questão de me chamar de prostituta também, aquilo estava me perturbando demais, sem se falar de minha prisão de ventre, que estava me deixando com uma aparência de caco humano, parecia uma cantora de rock, com cara de drogada, mas se vestindo dignamente com certeza. Ultimamente minha garganta andava bastante irritada, vomitar sempre que se come uma pizza gigante sozinha não parece nada agradável, mas a viagem do meu terapeuta estava me deixando fora de si, afinal estava sem meus medicamentos.

Finalmente à noite, ia acontecer a grande festa do ano na cidade, com a banda mais chique de axé da Bahia, um estrondo, e ainda por cima eu iria entrevistar o vocalista da banda, ia ser tudo na vida, melhor ainda se eu “desse” para ele é claro.Tanta preparação e todos estavam alucinados ao som de todos os hits maravilhosos do carnaval, que ninguém cansa de ouvir durante o ano inteiro. Estava perfeita a noite, muita gente bonita, ou querendo ser bonita, porque afinal nem todo mundo nasce linda como eu. Minha roupa tinha ficado perfeita, os gatinhos com seus carros turbinados, com os porta-malas abertos tocando alto o que ia ser ouvido no resto da noite, dava todo o clímax da festa. Uns achando pouco o espaço do carro, apareciam logo com torres imensas de som. Estava tudo nos conformes, cairia na folia, compraria três garrafinhas de caipirinha industrializada, que no outro dia me deixava com gosto de mulambo na boca  e depois iria para o camarote VIP, onde faria algumas fotos com o colunáveis. Teria material para minha coluna diária durante umas quatro semanas com toda certeza. Antes tomei uns comprimidos tarja preta que consegui com o filho gostosão de um farmacêutico conhecido da cidade, para evitar que aquelas vozes nojentas me perturbassem durante aquela noite tudo na vida.

Quase na metade do percurso, comecei a me sentir estranha, um calor insuportável tomou conta de mim, meio tonta retoquei a maquiagem para não perder a estampa, quando avistei os camarotes, uma colega colunista me apareceu com lança perfume, a viagem que tomou conta de mim era estranhíssima, fiquei muito mal, e as vozes que tanto me amedrontava surgiram de repente, agora já não era somente a voz do Clodovil, era a voz também do Ronaldo Ésper, dizendo que eu estava horrível, e soltava gargalhadas macabras, todos estavam olhando para mim e rindo de minha cara, o mundo girava rápido, parecia bolsa de prostituta de beira de estrada, eu não conseguia respirar direito com aquele coro horrível gritando feia, eu quase podia ver nas arquibancadas junto dos camarotes as pessoas fazendo uma HOLA junto com aquela gritaria toda, o que estava acontecendo comigo? Eu não sabia explicar, eu não conseguia sentir nada. Então por um momento fiquei quase surda, só conseguia ver os rostos daquelas pessoas rindo e apontando para mim, com suas caras cheias de purpurina, breguérrimos. Por um momento senti alguém puxando minha blusa, era um garoto vestindo terno e gravata, portando uma maleta, ele insistia para engraxar minha sandália, eu dizia que não queria, e ele insistente me perturbava e me deixava mais tonta, quando abriu a maleta para começar o seu trabalho, notei duas pistolas em sua maleta, brilhavam cintilantes, me abaixei e peguei as pistolas, em um instante, ouvi gritos, senti frio em demasia e desmaiei…

MANCHETE DA CAPA DA GAZETA POPULAR

Tragédia envolvendo colunista social abala sociedade moscovita. Lembrando cenas dos tristes capítulos sobre maníacos sociopatas americanos, essa noite 15 pessoas foram mortas à queima roupa pela colunista social Katiane Patrícia na primeira noite da micareta FESTMOSCOW. Portando pistolas automáticas de uso exclusivo das forças armadas, a colunista efetuou disparos na multidão atingindo fatalmente 15 pessoas e ferindo outras 26, o menor de idade F.C.S, 13 anos foi atingido na cabeça, encontra-se em estado grave na UTI do abatedouro publico. Nas imediações do corredor da folia, a colunista começou os disparos logo após ficar completamente nua, as autoridades competentes suspeita do uso de tóxicos. O absurdo é que ela aparentemente  não tinha motivos para cometer tal loucura segundo amigos e parentes…

CRAMUNHÃO ENGARRAFADO

Posted in Uncategorized on junho 14, 2010 by contosdacratera

Por Glaucio Fabrizio

Nascido há 59 anos, vindo de um fórceps mal sucedido que me deixou a coluna torta e até hoje me faz gastar sempre mais um lado da sola do sapato, viúvo de duas esposas que me deram os dois únicos filhos que tenho e que não sei por onde andam. Nos anos 70 não pude usar calça boca de sino, porque não me caiam bem, tive cabelo black power, fumei, bebi e cheirei drogas que me fazia imitar personagens de Chico City. Esse sou eu, no auge de minha carreira, respeitado pelo que faço, bem pago pelos serviços prestados. Já trabalhei para muitas pessoas, em vários lugares, já tive várias identidades, tantas que delas não me lembro um terço, mas que com certeza daria um grande rosário de historias. Já vivi em muita parte, tantos lugares que minha memória corroída precisa de uns choques para ser ativada, reanimada, mas ela não está morta por completo.

Meu codinome em São Paulo era Satã, no Pernambuco era Cão, em Minas era Cramunhão. Minha própria identidade ninguém sabe, até mesmo eu já andei esquecendo, tudo porque há 30 anos tive a brilhante idéia de queimar o cartório onde estavam meus registros. Minhas grandes virtudes: ser discreto e nunca sentir saudades. O fruto do meu sucesso foi sempre passar despercebido, discreto, um homem simples no meio de uma multidão. Nasci com o corpo fechado e curado de cobra. Tenho uma vaga lembrança de uma velha bezendeira índia com a cara enrugada e as tetas murchas soltando fumaça de um cachimbo, uma fumaça doce em minha cara, devia ter uns sete, talvez oito anos, minha lembrança mais antiga.

Até pouco tempo me orgulhava de minha competência. Talvez eu seja um psico-sócio-alguma-coisa-terminada-em-pata. Mas se uma coisa me deixava satisfeito em toda essa minha vida corrida, era o fato de ser competente. Nunca fui pego pelas autoridades e sempre obtive êxito, impecável, preciso, infalível. Nasci com um dom para encontrar as pessoas, onde quer que elas estivesse, me bastavam quatro telefonemas e pronto, estava localizada a encomenda.

Anos e mais anos vivendo uma vida com múltiplas identidades, montei famílias, cursei quatro cursos em universidade: bacharel em direito, línguas estrangeiras, gastronomia, comercio exterior. Tudo pago pelo dinheiro do submundo do crime, da jogatina, crime de colarinho branco e até de pais de família, que queriam se ver livre de algum ente mal quisto, vizinho amante da esposa e etc.

Andei cada palmo desse imenso país e fora dele também, procurando encomendas, resolvendo os problemas alheios, me entorpecendo. Foram tantos quartos de hotéis, pousadas, motéis, que depois de décadas, todos pareciam iguais, pareciam registrados em minha retina aquelas mesmas cortinas, banheiros, cheiros, musica de rádios, de crooners de chuveiro. O mesmo nos aviões, ônibus, trens, navios. Poucas coisas guardava como recordação, coisas detalhadas, sutis, porque o resto, o banal, isso me fazia quase como um ser robotizado.

Lembro-me da velha bezendeira índia de tetas murchas baforando sua fumaça doce de cachimbo em minhas narinas. Lembro de uma garota ruiva que menstruou no assento de um ônibus. Estava sentada a minha frente e me olhou com um semblante triste. Depois de um tranco da freada, ela levantou rapidamente e me restou ver a mancha vermelha no assento do ônibus. Lembro em detalhes somente de uma encomenda em todos esses meus anos de profissão. Era um velho cego que tinha algumas bancas de jogo do bicho. Foi morto enquanto dormia, de boca aberta e olhos esbranquiçados também abertos, a impressão que dava é que o velho não tinha pálpebras. Quando lhe parti a carótida, no impulso de sua agonia, nos últimos instantes que se debatia em vida, ele se voltou para mim, e balbuciou algo como:

– Eu vi, eu vi o cão!

Poucas lembranças para um homem já velho, beirando os 60. Às vezes acredito que seja uma preguiça de lembrar que assola os mais velhos, medo de lembrar talvez, no meu caso tenho uma certa convicção que é falta do que lembrar mesmo. Meus grandes feitos era simplesmente atender as encomendas, passar ileso, não ser notado, depois de remunerado, com diversas contas em vários nomes, sempre burlando o sistema, o alimentando com informações, simplesmente informações. Vejo que o sistema é como uma plácida vaca hindu, ruminando o que são jogadas para elas, pasto de informações, números, certidões, carimbos em cartórios e assinaturas que me custavam alguns trocados.

É bem verdade que me sentia cansado de perambular, não me sentia cansado pelo trabalho,nem pelas coisas que podia comprar, consumir, contas a pagar mas o corpo pedia um certo descanso, minha consciência não pesava uma grama e a única coisa que ainda alimentava meu ego, minha competência, se viu rasurada com a última encomenda a qual fui tratado.

Boa quantia em notas graúdas. Um bom maço de notas graúdas, metade da quantia, o resto receberia quando a encomenda estivesse entregue. Meus clientes sempre pediam um recibo, que variava desde os olhos do condenado, genitálias, colhões, dedos, orelhas, até ao sorriso do morto, sim, houvera um cliente que queria o sorriso do pobre diabo, porque ele usava um dente de ouro que dizem as más línguas, fora troféu da morte de um político, pura vingança do coronelismo.

Neste meu ultimo serviço, tive de viajar para um fim de mundo qualquer no rincão desse país sem fronteiras. Quatro telefonemas e pronto, localizada a encomenda. Na verdade foram seis telefonemas naquele dia, um deles para contratar os serviços de acompanhante de uma linda universitária de 18 anos. No anuncio do jornal dizia ter dezoito, na real aparentava ter uns vinte e cinco, era pequenina, estilo mignon, falava um vocabulário semi-analfabeto e teve ate uma certa dificuldade em contar as cédulas novas de seu cachê medíocre. Universidades de merda, diplomando imbecis, assassinos, prostitutas, futuros presidentes da republica.

À noite fui pegar a encomenda em sua home sweet home. Era uma casa sem muros, com cerca de tela de arame velha, enferrujada, a casa não parecia estar habitada. Na entrada não tinha um tapete escrito “bem vindo”, hesitei e resolvi entrar pela porta dos fundos que estava aberta. A geladeira estava ligada, bom sinal, a casa agora me parecia habitada. Vasculhei com cuidado todos os cômodos da casa e não encontrei ninguém, ou nenhum vestígio que seja. Resolvi sentar e esperar no escuro e aproveitar de minha grande capacidade de não ser notado. Horas se passaram e ninguém chegou.

Meu orgulho estava magoado, se ele pudesse cuspir, seria avermelhado, não como catarro de um turbeculoso, mas como saliva de boxeador nocauteado com um soco no estomago. Abri a geladeira para matar a sede e ela estava quase vazia. Alguns vegetais e frutas apodrecidos e garrafas vazias. Definitivamente havia falhado com aquela encomenda, em todos esses anos, pela primeira vez não havia conseguido localizar alguém. Senti a vista turva, ódio que cega, implosão, explosão, programas madrigais de bispos e pastores roubando seus fieis, gargalhadas de um apresentador afeminado mostrando a puta que te pariu com cores da moda, garrafas de champanhe abertas no réveillon e então enfurecido soltei um soco violento contra a parede, derrubando um quadro. Com a queda o quadro me revelou um cofre. Sim, um cofre. A TV da minha mente foi desligada, senti um certo alivio e testei uma combinação qualquer que milagrosamente serviu. Encontrei alguns envelopes pardos, dólares, rupias, yens, pesos bolivianos, e uma pistola automática.

No chão apanhei o quadro caído. Era uma tradicional foto de formatura, onde o recém formado empunha seu diploma nobremente sobre o peito, seu rosto me era familiar. Seria alguma encomenda do passado? Olhando melhor, com a luz da sala acesa, reconheci de fato de quem se tratava. Finalmente me localizaram, perdi meu prestigio, ao mesmo tempo senti um certo alivio, não falhei ao localizar, sim em ser localizado, mesmo que por mim mesmo.

Pensei deveras caminhando de volta até aqui, a esse quarto de hotel. Um dos telefonemas fora para pedir uma garrafa de uísque Black Devil Label. Pensei em suicídio, primeiro com o cano na boca, embaixo do queixo, na orelha, depois na têmpora, nada fazia mais sentido. Agora no final, no derradeiro trago da garrafa resolvi que vou me aposentar, morrer aos poucos. Tem muito aposentado vagando por ai como zumbis, mortos vivos em filas de banco, não deixa de ser suicídio nos dias de hoje para quem não fez carreira, mas eu fiz carreira, fui o melhor no que fiz apesar dos pesares. Maldita índia benzedeira, maldito cego filho da puta, ruiva vadia sangrando feito vaca, mal de Alzheimer de cu é rola.