APOCALYPSE 19 versículo 2

Por Glaucio Fabrizio

O sol mal raiava e entre o barulho dos galos anunciando mais um dia, e o barulho seco do despertador impecavelmente preciso, despertava também Josué Elias Iscariotes. Filho mais velho de uma família dos primeiros membros da Igreja das Divinas Chamas da Babilônia Perdida, casado, quatro filhos crescidos e bem educados dentro dos preceitos de sua fé. Diariamente despertava Josué, sem parecer ter dormido, não tinha preguiça, muito menos luxuria. Sua dormida acolhedora que começava pontualmente as 21:00 horas , cessava sempre ao som do velho despertador, herança de seu avô. Dobrava cuidadosamente, diariamente, o seu perfumado cobertor de lã acinzentado, tomava um banho pouco demorado mas eficiente, então assim quase como num ritual, era guiado através do cheiro de café até a cozinha, onde lhe aguardava sua esposa, Maria José Elias Iscariotes, companheira de quase trinta e cinco anos de matrimonio.  Dedicada esposa de um homem não menos dedicado.

Porém aquela manhã não poderia ser das mais comuns. Naquele dia, o caro Josué estaria muito próximo de conseguir subir mais um degrau em sua vida organizada e planejada. Estava prestes a ser nomeado o Pastor de sua paróquia. Motivo de orgulho para toda sua família e amigos. Todos os membros daquela igreja já conheciam a dignidade daquele homem e o quanto seria justa sua nomeação para o honroso cargo.

Depois de fazer sua prece, Josué degustava lentamente o seu café da manhã. Enquanto sua esposa passava a ferro cuidadosamente, como uma cirurgiã, o seu terno, terno este que pertencera a seu pai, Abraão Elias Iscariotes.

– Quase posso sentir aqui em meus ombros o peso deste terno – disse serenamente Josué a sua esposa. O que ela respondeu pouco enérgica, mas sem perder a doçura na voz:

– É o peso de seu pai que carregarás em seus ombros.

– Mas não pode ser um fardo – retrucou Josué.

– Nem será, pelo contrário, este peso fará você subir o mais alto degrau junto aos céus – Finalizou com doçura a dedicada esposa.

Terminado aquele ato do ritual matutino em sua casa, Josué carregando sua capanga debaixo do braço e uma sombrinha na mão, seguiu sua caminhada diária de 15 minutos até o trabalho. Não tinha automóvel, desde o dia em que seu filho mais velho fora atropelado na rua, descartava a necessidade de se motorizar, de ser mais um possuidor daquele satanás sobre rodas movido à gasolina. Alguns vizinhos mais maldosos constatavam ser avareza, afinal de contas Josué era dono de uma loja de ferragens, a única do imenso bairro em que moravam, tinha uma clientela respeitada, só vendia a vista e não fazia vales. Seus funcionários eram seus próprios filhos. Responsáveis e dedicados. Nunca houvera uma única oportunidade de terem sua confiança questionada pelo pai. Todos eram casados, com exceção do mais velho, que perdera a esposa vitima de um câncer de colo no útero, este se mantinha viúvo até então, cuidando do único filho, o primeiro neto de Josué, que por sinal chamava-se Josué Elias Iscariotes Neto. Neto este considerado o seu maior xodó.

Como todos os dias, o movimento na loja de ferragens fora tranqüilo. Durante todo o dia, pregos e parafusos foram os itens mais vendidos. Josué constatou falando muito baixo:

– As pessoas estão precisando muito de pregos e parafusos para se prenderem a realidade.

-Pensando alto meu pai? – perguntou um dos filhos.

– Não filho, estou só apertando aqui os parafusos de meu juízo. – Respondeu Josué com um tom de humor nunca visto antes pelos filhos em todos aqueles anos na loja. Mas relevaram, afinal de contas o seu pai estava muito feliz. Logo a noite seria nomeado pastor da paróquia, honraria finalmente os seus antepassados, que tiveram sua tímida participação na fundação da Igreja.

Ao fechar a loja, Josué abraçou fortemente os filhos, um por um. Disse olhando em seus olhos:

– Hoje é um dia muito especial, mas quero que vocês saibam que os momentos mais felizes da minha vida foram quando vocês nasceram!

Os filhos sem palavras seguiram para casa, para vestirem seus ternos, pegarem suas esposas e filhos, e se encontrem a noite, na igreja central da paróquia, onde seria oferecido um jantar aos membros e onde então finalmente seria dada a tão esperada nomeação de pastor ao caro Josué.

Chegada à noite, todos se aglomeravam junto à entrada principal do templo. Esperavam a chegada do grande nome da noite, do protagonista de todo aquele momento pomposo e gratificante. Todos queriam saudar e abençoar o novo pastor, ao entrar e ao sair do templo, era uma tradição da igreja. Já se agrupavam bastantes fieis à entrada, e todos comentavam sobre o passado do digníssimo Josué. Pai de família impecável, trabalhador, honesto e bondoso, embora alguns vizinhos o considerasse um unha-de-fome, vizinhos estes claro, incrédulos, no mínimo cristãos desregrados.

Quando Josué chegou ao local, junto com sua esposa, vestindo seu terno, herança do velho Elias Iscariotes, sentiu uma felicidade assustadora. Todos ali, sorridentes, querendo abraçá-lo, falando todos ao mesmo tempo, uns gritavam Aleluia, outros grunhiam algumas palavras estranhas. As coisas pareciam estar fora de controle, mas não estava. Tudo ocorria na mais perfeita tranqüilidade, típica das reuniões dos membros da Igreja das Divinas Chamas da Babilônia Perdida. Até o momento em que aquela criatura bizarra apareceu entre os fieis.

Devia medir quase 1,80, em cima de um salto plataforma, pernas muito finas, corpo tão delgado quanto um berimbau. Usava uma maquiagem pesada, roupas rasgadas. Era uma mistura de Tina Turner com Elza Soares e uma leve pitada de Madonna, talvez por conta de sua cabeleira loira. Com uma piteira nos dedos, fazendo pose de vedete, charmosamente abriu caminho junto à massa de fieis, acredito que motivado pelo seu cheiro forte de perfume doce e nauseante, em direção a Josué. Todos ficaram estupefatos e em um quase silencio, só cortado pelo barulho do salto do sapato daquela criatura na calçada, e do barulho de suas pulseiras. Parando defronte a Josué falou com uma voz que lembrava a Roberta Close, porem com um tom mais grave:

– Bofe, você ta me devendummm!

– O – o –que?! – gaguejou o pobre Josué.

– Dinheirumm né bixa??? num se faça de doidann!

– Mas, a-acho que a senhora ta me confundindo – já começava a suar o pobre homem.

– Olha aqui, você quis um 21 e eu dei, paguei na boa, 5 minutos sem tirar e você ainda me sujou todannn.

E todos ali estavam atordoados com aquilo tudo que se passava. As pessoas soltavam os seus “oooh!!!” a cada palavra proferida pelo transexual.

– 21? Mas o que é isso? Minha senhora, ou melhor, meu senhor, você está me confundindo – dizia desesperado o pobre Josué.

– Confundindo nadannn! Quero meu dinheirumm agoraannn!

E a confusão estava armada diante do templo. A esposa do caro Josué desmaiara e estava sendo amparada pelos filhos, enquanto todos os demais não perdiam um único instante de toda aquela agonia. O travesti cobrava uma divida com o Josué de 21 reais sobre seus serviços prestados. Do que se tratava o serviço ninguém conseguia entender, não era o simples fato dos 21 reais, aquilo era pouco para Josué, mas toda a sua honra e dignidade estava sendo jogada junto do ralo, com aquelas queixas infundadas, uma vida inteira estava sendo jogada no lixo. Josué nunca havia contratado aquele travesti, provavelmente, em toda sua vida só tenha praticado sexo com sua esposa somente na intenção de procriar, ele jamais saberia do que se tratava aquele tal de 21. Aquele travesti era apenas um charlatão querendo ganhar dinheiro fácil. O golpe era simples: Cobrar uma divida de um desconhecido, aproveitando a sua desmoralização junto a testemunhas como um momento de fragilidade. Poderia escolher qualquer um dali, todos pais de família devotos, com honra a ser manchada, seria uma vitima em potencial.

O fato é que as pessoas estavam todas envergonhadas de toda aquela situação. Todos foram indo embora aos poucos, decepcionados pela conduta daquele que seria em breve o pastor que iria guiá-los até os portais do paraíso. A sua esposa já tinha sido levada pra casa e ele tentava inutilmente mobilizar as pessoas, tentar explicar que aquilo tudo se tratava de um engano. O maior erro do Josué fora pagar os 21 reais para se ver livre do golpista. Toda sua credibilidade se fora naqueles pouco mais de 5 minutos de agonia.

Assim encontrava-se Josué Elias Iscariotes : Estático, quase um monumento de tristeza defronte a entrada do templo, sozinho, com seu terno que agora pesava como se tivesse seus bolsos carregados de bigornas e ogivas nucleares. O maior fardo que ele poderia carregar naquele momento. E esse fardo aumentava quando ele pensava na esposa que agora deveria estar em casa. Como ele iria olhar na cara daquela mulher? tão devota e dedicada. E seus filhos? Que sempre o tiveram como um exemplo a se seguir. Ninguém acreditaria nele. Perdido, tirou o paletó, e largou na lata de lixo mais próxima. Caminhou durante horas pelas ruas em direção ao nada, até que elas estivessem vazias. O pensamento correndo solto, como vagões vazios, sem pensamentos clandestinos ou beatniks embriagados e chapados pegando carona, nada, simplesmente nada. Depois de horas de caminhada, quando o cansaço já começava a abater suas pernas castigadas de tanto peso carregados nos ombros da vergonha , ele é  abordado por um outro travesti na rua :

– E ai meu bem, quer um pouco de diversão? Perguntou o travesti.

Revirando o bolso de sua calça, Josué sacou umas notas amarrotadas e disse em um quase tom fúnebre:

– sim, eu quero um 21!  por favor.

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Uma resposta to “APOCALYPSE 19 versículo 2”

  1. *publicado na revista Papangu

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