CRAMUNHÃO ENGARRAFADO

Por Glaucio Fabrizio

Nascido há 59 anos, vindo de um fórceps mal sucedido que me deixou a coluna torta e até hoje me faz gastar sempre mais um lado da sola do sapato, viúvo de duas esposas que me deram os dois únicos filhos que tenho e que não sei por onde andam. Nos anos 70 não pude usar calça boca de sino, porque não me caiam bem, tive cabelo black power, fumei, bebi e cheirei drogas que me fazia imitar personagens de Chico City. Esse sou eu, no auge de minha carreira, respeitado pelo que faço, bem pago pelos serviços prestados. Já trabalhei para muitas pessoas, em vários lugares, já tive várias identidades, tantas que delas não me lembro um terço, mas que com certeza daria um grande rosário de historias. Já vivi em muita parte, tantos lugares que minha memória corroída precisa de uns choques para ser ativada, reanimada, mas ela não está morta por completo.

Meu codinome em São Paulo era Satã, no Pernambuco era Cão, em Minas era Cramunhão. Minha própria identidade ninguém sabe, até mesmo eu já andei esquecendo, tudo porque há 30 anos tive a brilhante idéia de queimar o cartório onde estavam meus registros. Minhas grandes virtudes: ser discreto e nunca sentir saudades. O fruto do meu sucesso foi sempre passar despercebido, discreto, um homem simples no meio de uma multidão. Nasci com o corpo fechado e curado de cobra. Tenho uma vaga lembrança de uma velha bezendeira índia com a cara enrugada e as tetas murchas soltando fumaça de um cachimbo, uma fumaça doce em minha cara, devia ter uns sete, talvez oito anos, minha lembrança mais antiga.

Até pouco tempo me orgulhava de minha competência. Talvez eu seja um psico-sócio-alguma-coisa-terminada-em-pata. Mas se uma coisa me deixava satisfeito em toda essa minha vida corrida, era o fato de ser competente. Nunca fui pego pelas autoridades e sempre obtive êxito, impecável, preciso, infalível. Nasci com um dom para encontrar as pessoas, onde quer que elas estivesse, me bastavam quatro telefonemas e pronto, estava localizada a encomenda.

Anos e mais anos vivendo uma vida com múltiplas identidades, montei famílias, cursei quatro cursos em universidade: bacharel em direito, línguas estrangeiras, gastronomia, comercio exterior. Tudo pago pelo dinheiro do submundo do crime, da jogatina, crime de colarinho branco e até de pais de família, que queriam se ver livre de algum ente mal quisto, vizinho amante da esposa e etc.

Andei cada palmo desse imenso país e fora dele também, procurando encomendas, resolvendo os problemas alheios, me entorpecendo. Foram tantos quartos de hotéis, pousadas, motéis, que depois de décadas, todos pareciam iguais, pareciam registrados em minha retina aquelas mesmas cortinas, banheiros, cheiros, musica de rádios, de crooners de chuveiro. O mesmo nos aviões, ônibus, trens, navios. Poucas coisas guardava como recordação, coisas detalhadas, sutis, porque o resto, o banal, isso me fazia quase como um ser robotizado.

Lembro-me da velha bezendeira índia de tetas murchas baforando sua fumaça doce de cachimbo em minhas narinas. Lembro de uma garota ruiva que menstruou no assento de um ônibus. Estava sentada a minha frente e me olhou com um semblante triste. Depois de um tranco da freada, ela levantou rapidamente e me restou ver a mancha vermelha no assento do ônibus. Lembro em detalhes somente de uma encomenda em todos esses meus anos de profissão. Era um velho cego que tinha algumas bancas de jogo do bicho. Foi morto enquanto dormia, de boca aberta e olhos esbranquiçados também abertos, a impressão que dava é que o velho não tinha pálpebras. Quando lhe parti a carótida, no impulso de sua agonia, nos últimos instantes que se debatia em vida, ele se voltou para mim, e balbuciou algo como:

– Eu vi, eu vi o cão!

Poucas lembranças para um homem já velho, beirando os 60. Às vezes acredito que seja uma preguiça de lembrar que assola os mais velhos, medo de lembrar talvez, no meu caso tenho uma certa convicção que é falta do que lembrar mesmo. Meus grandes feitos era simplesmente atender as encomendas, passar ileso, não ser notado, depois de remunerado, com diversas contas em vários nomes, sempre burlando o sistema, o alimentando com informações, simplesmente informações. Vejo que o sistema é como uma plácida vaca hindu, ruminando o que são jogadas para elas, pasto de informações, números, certidões, carimbos em cartórios e assinaturas que me custavam alguns trocados.

É bem verdade que me sentia cansado de perambular, não me sentia cansado pelo trabalho,nem pelas coisas que podia comprar, consumir, contas a pagar mas o corpo pedia um certo descanso, minha consciência não pesava uma grama e a única coisa que ainda alimentava meu ego, minha competência, se viu rasurada com a última encomenda a qual fui tratado.

Boa quantia em notas graúdas. Um bom maço de notas graúdas, metade da quantia, o resto receberia quando a encomenda estivesse entregue. Meus clientes sempre pediam um recibo, que variava desde os olhos do condenado, genitálias, colhões, dedos, orelhas, até ao sorriso do morto, sim, houvera um cliente que queria o sorriso do pobre diabo, porque ele usava um dente de ouro que dizem as más línguas, fora troféu da morte de um político, pura vingança do coronelismo.

Neste meu ultimo serviço, tive de viajar para um fim de mundo qualquer no rincão desse país sem fronteiras. Quatro telefonemas e pronto, localizada a encomenda. Na verdade foram seis telefonemas naquele dia, um deles para contratar os serviços de acompanhante de uma linda universitária de 18 anos. No anuncio do jornal dizia ter dezoito, na real aparentava ter uns vinte e cinco, era pequenina, estilo mignon, falava um vocabulário semi-analfabeto e teve ate uma certa dificuldade em contar as cédulas novas de seu cachê medíocre. Universidades de merda, diplomando imbecis, assassinos, prostitutas, futuros presidentes da republica.

À noite fui pegar a encomenda em sua home sweet home. Era uma casa sem muros, com cerca de tela de arame velha, enferrujada, a casa não parecia estar habitada. Na entrada não tinha um tapete escrito “bem vindo”, hesitei e resolvi entrar pela porta dos fundos que estava aberta. A geladeira estava ligada, bom sinal, a casa agora me parecia habitada. Vasculhei com cuidado todos os cômodos da casa e não encontrei ninguém, ou nenhum vestígio que seja. Resolvi sentar e esperar no escuro e aproveitar de minha grande capacidade de não ser notado. Horas se passaram e ninguém chegou.

Meu orgulho estava magoado, se ele pudesse cuspir, seria avermelhado, não como catarro de um turbeculoso, mas como saliva de boxeador nocauteado com um soco no estomago. Abri a geladeira para matar a sede e ela estava quase vazia. Alguns vegetais e frutas apodrecidos e garrafas vazias. Definitivamente havia falhado com aquela encomenda, em todos esses anos, pela primeira vez não havia conseguido localizar alguém. Senti a vista turva, ódio que cega, implosão, explosão, programas madrigais de bispos e pastores roubando seus fieis, gargalhadas de um apresentador afeminado mostrando a puta que te pariu com cores da moda, garrafas de champanhe abertas no réveillon e então enfurecido soltei um soco violento contra a parede, derrubando um quadro. Com a queda o quadro me revelou um cofre. Sim, um cofre. A TV da minha mente foi desligada, senti um certo alivio e testei uma combinação qualquer que milagrosamente serviu. Encontrei alguns envelopes pardos, dólares, rupias, yens, pesos bolivianos, e uma pistola automática.

No chão apanhei o quadro caído. Era uma tradicional foto de formatura, onde o recém formado empunha seu diploma nobremente sobre o peito, seu rosto me era familiar. Seria alguma encomenda do passado? Olhando melhor, com a luz da sala acesa, reconheci de fato de quem se tratava. Finalmente me localizaram, perdi meu prestigio, ao mesmo tempo senti um certo alivio, não falhei ao localizar, sim em ser localizado, mesmo que por mim mesmo.

Pensei deveras caminhando de volta até aqui, a esse quarto de hotel. Um dos telefonemas fora para pedir uma garrafa de uísque Black Devil Label. Pensei em suicídio, primeiro com o cano na boca, embaixo do queixo, na orelha, depois na têmpora, nada fazia mais sentido. Agora no final, no derradeiro trago da garrafa resolvi que vou me aposentar, morrer aos poucos. Tem muito aposentado vagando por ai como zumbis, mortos vivos em filas de banco, não deixa de ser suicídio nos dias de hoje para quem não fez carreira, mas eu fiz carreira, fui o melhor no que fiz apesar dos pesares. Maldita índia benzedeira, maldito cego filho da puta, ruiva vadia sangrando feito vaca, mal de Alzheimer de cu é rola.

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2 Respostas to “CRAMUNHÃO ENGARRAFADO”

  1. Valhéria Says:

    Magavilhaaaxxxx!!!

    Queria ter sido amiga do bicho! Ou ao menos ter conhecido elhe!!

    =)

  2. Pohaaa que foda!!!! 🙂

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