TIROS DE UMA COLOMBINA EM UM CARNAVAL FORA DE ÉPOCA

Por Glaucio Fabrizio

Foram duas semanas escolhendo meu look perfeito. Levei minha veste carnavalesca temporão para o mais conceituado estilista da cidade, ele me cobrou caro. Talvez boa parte do meu salário fantasia do jornal, talvez o máximo que meu desejo pudesse pagar naquele momento, ou que no mínimo meu status pudesse comprar com sorrisos e fotografias em minha coluna social diária no jornal. Ficou relativamente ótima, tendo em vista que meu decote ficou bastante obvio para o mais reles dos tarados de plantão, aquela típica figurinha que encontramos encostado na parede da boate, bebendo sua cerveja quente, vestindo roupas estranhas e com um sorriso idiota estampado, tão idiota que não poderia jamais ser usado na mais idiota das campanhas publicitárias da marca mais chulé de creme dental. Com certeza todo o meu esforço, como passar fome para manter os centímetros a menos em minha cintura não valesse a pena no olhar mais sacana daquele idiota, nem todas aqueles comprimidos que me deixava estranha, com boca seca e sem tesão.

Já tinha alguns meses que andava ouvindo aquela voz estranha, dizendo que eu estava muito gorda. Meu terapeuta estava viajando com sua esposa para Europa, chiquérrimo, ele me receitava uns medicamentos e eu ficava livre daquela voz, que parecia a voz do Clodovil, só que com efeitos macabros, que lembrava aquele filme de terror, o Exorcista. Agora aquela voz idiota também criticava minhas roupas caríssimas, roupas estas que eu ganhava de presente é claro, a voz fazia questão de me chamar de prostituta também, aquilo estava me perturbando demais, sem se falar de minha prisão de ventre, que estava me deixando com uma aparência de caco humano, parecia uma cantora de rock, com cara de drogada, mas se vestindo dignamente com certeza. Ultimamente minha garganta andava bastante irritada, vomitar sempre que se come uma pizza gigante sozinha não parece nada agradável, mas a viagem do meu terapeuta estava me deixando fora de si, afinal estava sem meus medicamentos.

Finalmente à noite, ia acontecer a grande festa do ano na cidade, com a banda mais badalada de axé da Bahia, um estrondo e ainda por cima eu iria entrevistar o vocalista da banda, ia ser tudo na vida, melhor ainda se eu “desse” para ele é claro.Tanta preparação e todos estavam alucinados ao som de todos os hits maravilhosos do carnaval, que ninguém cansa de ouvir durante o ano inteiro. Estava perfeita a noite, muita gente bonita, ou querendo ser bonita, porque afinal nem todo mundo nasce linda como eu. Minha roupa tinha ficado perfeita, os gatinhos com seus carros turbinados, com os porta-malas abertos tocando alto o que ia ser ouvido no resto da noite dava todo o clímax da festa. Uns achando pouco o espaço do carro, apareciam logo com torres imensas de som. Estava tudo nos conformes, cairia na folia, compraria três garrafinhas de caipirinha industrializada, que no outro dia me deixava com gosto de mulambo na boca  e depois iria para o camarote VIP, onde faria algumas fotos com o colunáveis. Teria material para minha coluna diária durante umas quatro semanas com toda certeza. Antes tomei uns comprimidos tarja preta que consegui com o filho gostosão de um farmacêutico conhecido da cidade, para evitar que aquelas vozes nojentas me perturbassem durante aquela noite tudo na vida.

Quase na metade do percurso, comecei a me sentir estranha, um calor insuportável tomou conta de mim, meio tonta retoquei a maquiagem para não perder a estampa, quando avistei os camarotes, uma colega colunista me apareceu com lança perfume, a viagem que tomou conta de mim era estranhíssima, fiquei muito mal, e as vozes que tanto me amedrontava surgiram de repente, agora já não era somente a voz do Clodovil, era a voz também do Ronaldo Ésper, dizendo que eu estava horrível, e soltava gargalhadas macabras, todos estavam olhando para mim e rindo de minha cara, o mundo girava rápido, parecia bolsa de prostituta de beira de estrada, eu não conseguia respirar direito com aquele coro horrível gritando feia, eu quase podia ver nas arquibancadas junto dos camarotes as pessoas fazendo uma HOLA junto com aquela gritaria toda, o que estava acontecendo comigo? Eu não sabia explicar, eu não conseguia sentir nada. Então por um momento fiquei quase surda, só conseguia ver os rostos daquelas pessoas rindo e apontando para mim, com suas caras cheias de purpurina, breguérrimos. Por um momento senti alguém puxando minha blusa, era um garoto vestindo terno e gravata, portando uma maleta, ele insistia para engraxar minha sandália, eu dizia que não queria, e ele insistente me perturbava e me deixava mais tonta, quando abriu a maleta para começar o seu trabalho, notei duas pistolas em sua maleta, brilhavam cintilantes, me abaixei e peguei as pistolas, em um instante, ouvi gritos, senti frio em demasia e desmaiei…

MANCHETE DA CAPA DA GAZETA POPULAR

Tragédia envolvendo colunista social abala sociedade moscovita. Lembrando cenas dos tristes capítulos sobre maníacos sociopatas americanos, essa noite 15 pessoas foram mortas à queima roupa pela colunista social Katiane Patrícia na primeira noite da micareta FESTMOSCOW. Portando pistolas automáticas de uso exclusivo das forças armadas, a colunista efetuou disparos na multidão atingindo fatalmente 15 pessoas e ferindo outras 26, o menor de idade F.C.S, 13 anos foi atingido na cabeça, encontra-se em estado grave na UTI do abatedouro publico. Nas imediações do corredor da folia, a colunista começou os disparos logo após ficar completamente nua, as autoridades competentes suspeita do uso de tóxicos. O absurdo é que ela aparentemente  não tinha motivos para cometer tal loucura segundo amigos e parentes…

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Uma resposta to “TIROS DE UMA COLOMBINA EM UM CARNAVAL FORA DE ÉPOCA”

  1. *publicado na revista Papangu

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