SAL, SUOR & DRINKS GELADOS

Por Glaucio Fabrizio

Tudo era suor, na verdade tudo o é. O relógio cansado, na peleja dos ponteiros,  no labutar incansável do tempo, deixando suado o vidro do mostrador. Assim como marcas molhadas na camisa embaixo do braço deflagrando a nossa existência, o suor. O mar, em toda sua grandiosidade é responsável pela alcunha  de planeta água, nada mais é do que uma imensa poça de suor da terra que escorre sobre suas sobrancelhas, pelo rosto, em rios: Sim, um rio é um filete de suor que brota dos poros da terra, o mar, a imensa poça de suor do mundo, como num ringue de Boxe, ou como no chão da sala, quando dois corpos se amam freneticamente e se vazam entre poros, sêmem e suor. Aquele operário negro trabalhando num canteiro de obras, picareta na mão, o rosto molhado e brilhante, quase chego a pensar que se trata de Louis Armstrong cantando What a wonderful World, um ambulante vendendo pomadas que de tudo curam, mais lembrava o sacrílego pastor do soul, James Brown, um garçom frenético de churrascaria com a bandeja e o suor escorrendo na testa e nas costas, quase um Jackson e o seu pandeiro . Romarias inteiras de fieis carregando pedras sobre as cabeças,  joelhos arrombados, aloprando-se em nome da fé, pagando com suor seus pecados diários, são apenas cabeceiros estivadores no cais, misturados entre o cheiro forte do perfume das putas, da alfazema salobra e natural que suas axilas exalam, que suas pobres vestes compradas em liquidação pelo exercito da salvação deixam-se marcar como reais.  O sol faz a terra suar, o medo nos faz suar, a ânsia, apenas um aperitivo para nossa pele chorar, ou quem sabe cuspir. Assim observa o andarilho, sandálias presas com pregos,  mochila nas costas, carregando instrumentos musicais, papeis com anotações,  sobras de pensamentos como este, uma poesia escrita numa pagina rasgada de uma revista masculina, sobre um seio que parece uma manga rosa, que é bom chupar apesar de não ter gosto de nada.  Para onde vai aquele homem? Parece caminhar a horas, quem sabe dias. Sempre numa mesma direção, pros lados do mar, será que vai parar num porto? arrear as calças, e urinar na murada com as ondas batendo nas pedras? Talvez esteja fugindo, mas isso todos nós estamos. Talvez ele busque o mormaço entre as coxas de uma dama, do seu cheiro acre, da sua delicia salobra e peculiar. Caminhando pela cidade, com suas ruas arreganhadas , parindo de pernas abertas, trazendo esperança, suor e asfalto. Então vai longe o andarilho suarento,  sugado pela renascença,  de quem nasceu, morreu, e continua nesse ciclo, junto com o que escorre no seu corpo, que alivia quando pára num boteco próximo a praia, toma uma cerveja gelada, e sente-se cool por instantes. Diferente de um manequim de loja com ar condicionado, ou como o rosto maquiado das belas mulheres nos outdoors, sem brilho, sem sal na pele, ele quer continuar caminhando, sob a chuva ou sob o sol, com seu sorriso desdentado de felicidade e com sua vontade de suar e viver.

Anúncios

3 Respostas to “SAL, SUOR & DRINKS GELADOS”

  1. OBS: o texto acima não se trata de um conto, apenas um mero devaneio literário numa madrugada de insonia.

  2. Esse é um de meus preferidos…a analogia do mar com uma poça de suor…a terra viva.

  3. A melhor coisa sobre o suor que já li até hoje.
    Ei, seus textos são massa! Voltarei sempre.

    Abraço.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: