Arquivo para agosto, 2010

CORRETOR MARCIANO DE ALMAS parte III

Posted in Uncategorized on agosto 29, 2010 by contosdacratera

No ponto mais nefrálgico da maior metrópole marciana, Severino Johnson caminha ao som dos guetos do seu mini stereo portátil, em meio à fumaça de choques térmicos, gases tóxicos e sinalizações de bares e restaurantes populares. Seu destino é o escritório central do governo, localizado no coração da capital, em um solido e imponente bloco de vidro e concreto. Nas ruas ele se sente um rei, a cada vitrine, pára retocando o seu visual, hora aprumando o colarinho, às vezes o cabelo. Em uma vitrine de uma loja de equipamentos eletrônicos, várias TVs em liquidação ligadas no mesmo canal anunciam noticias vindas de alguma colônia marciana perdida da galáxia em conflitos étnicos ou por comida.

– Idiotas, quando vão aprender a não meterem o bedelho no assunto dos outros? – Comenta Severino, acendendo um cigarro de filtro vermelho.

Um velho cego toca a três mãos um sax tenor, um blues triste que serve de trilha sonora pro comentário de um Severino como sempre inconformado. Jogando uma moeda na lata enferrujada aos pés do cego que em meio a sua tristeza, sorriu agradecendo a compaixão ao ouvir o barulho do metal debatendo no vazio oxidado no recipiente, continuou Severino sua caminhada sem pressa para reunião onde receberia suas últimas instruções até sua próxima estadia infernal na Crater City.

– Mr. Johnson encontra-se no recinto – uma voz abafada de alto falante anuncia a sua chegada.
-ok Creide, faça-o entrar – Respondeu o comissário Lênin tirando um envelope pardo da gaveta o jogando em cima de seu birô.

Cheio de marra, Severino Johnson caminhou lentamente ate a mesa de seu superior, apagou o cigarro na caneca de café do chefe, desabotoou o paletó e sentou-se encarando.
– Eis o omi – disse secamente o Comissário Lênin.
– Quando vocês me mandarão para algum paraíso tropical de alguma lua Venusiana? Perguntou ironicamente Severino.
– No dia que lhe florescer uma vagina sem dentes no lugar do seu falo, ai sim você terá alguma utilidade como puta em Venus – respondeu o Comissário.
– Sendo assim, precisarei de dicas preciosas da sua senhora esposa – rebateu um Severino sorridente.
– Fela da puta, eu rasgo esse bucho de ponta a ponta! – ameaçou o comissário Lênin tirando uma pexeira da gaveta apontando com veemência para Severino.
– Então, quem é o alvo meu querido? – perguntou o corretor apaziguando os ares.
– Peixe grande, membro do senado, os dados estão neste envelope, você parte em dois dias – respondeu o comissário.
– Só isso? Um membro do senado? Na Crater City? – indagou um desacreditado Severino.
– O que você quer que eu diga porra? Quer que faça o que? Cafuné nos seus bagos?! – rebateu as indagações o comissário enquanto sacou da gaveta alguns papeis.

Por alguns instantes em silencio, olhando pro nada, pensando na morte da bezerra, Severino subitamente levantou-se da cadeira e passou a caminhar circulando pelo espaçoso escritório.
– Severino meu querido, veja bem, é um membro do senado, deve ser um velho maconheiro caquético de 500 anos, não há com o que se preocupar – tentou acalmar o comissário.
– fela da puta escroto, você há tempos ta querendo me ver morto! – interrompeu seu silêncio bradando o Severino mais inconformado do que nunca.
– Será seu último trabalho Severino, te aposento e você pode passar o resto de sua vida medíocre em alguma lua tropical de Venus – tentou consolar o chefe com um sorriso malicioso no rosto esverdeado com tons rosados, parecia uma manga rosa amadurecendo.
– maldito desgraçado – bufou Severino.
– Bem, você não tem escolha, todas as informações estão no envelope, passe depois no almoxarifado para pegar seu equipamento, só mais uma coisa, você mesmo vai guiando sua unidade móvel- Completou o comissário enquanto rubricava documentos como se o Severino não estivesse mais no recinto.
– Ultimo trabalho, mereço ir de primeira classe – resmungou o corretor.
– Eu no seu lugar aproveitava esses dois dias de sua vida de merda para relaxar, porra a vida é dura meu caro, principalmente para um estrume da sociedade que é você, agora cai fora que tenho mais o que fazer – findou a conversa o chefe onipotente como um Deus frio cagando para tudo e para todos.

De volta as ruas, Severino logo chegou em sua casa, um pequeno apartamento com mobília desgastada e garrafas abertas vazias por toda parte. Sacou do armário da cozinha uma garrafa lacrada de AZÏA, deflorou o invólucro com os dentes, sentou na mesa da cozinha, abriu o envelope, enquanto lia os documentos e mamava diretamente da garrafa, embebedou-se e caiu prostrado sobre a mesa, onde acordou dois dias depois, pronto para viajar, de cabelos molhados e armado ate os dentes.

*CONTINUA*

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CORRETOR MARCIANO DE ALMAS parte II

Posted in Uncategorized on agosto 21, 2010 by contosdacratera

Afundando na poltrona seu esqueleto cansado, as pontas dos cotovelos gastavam o braço da cadeira, assim como o cotovelo do empoeirado paletó que jazia no canto do quarto, no camiseiro de madeira escura. Sobre o camiseiro também jazia uma antiga maleta toda tatuada de selos, como braços marcados de um velho marujo amante dos mais variados tipos de prostitutas e poetisas chapadas de haxixe em cada porto pelos quais passou. Além de um fossilizado par de botas surradas, um antiqüíssimo calendário de Frei Damião de séculos passados na parede perto da geladeira, a poltrona e um fogareiro, poucas panelas e alguns sacos com sacos dentro de sacos, uma cama de molas e um enorme baú fechado a cadeado embaixo da cama, nada mais decorava aquele vão único com banheiro, onde vivia Seu Matias Bronson, um velho guerrilheiro ativista, sobrevivente do mais cruel e sanguinolento holocausto desde a Quarta Guerra Mundial, a Revolução do Cânhamo.

Com muito esforço, conseguiu se por de pé, derrubando ao chão sua navalha com cabo de marfim de estimação, isso o fez praguejar impropérios inaudíveis de freqüência baixíssima, somente captada por espécies mais evoluídas de pernilongos sanguessugas. Sua coluna arquejava de tal forma que a medalha de São Jorge, sempre descansando no seu peito roncador, às vezes, podia tocar-lhe a barriga, ou o lugar onde provavelmente existiu uma barriga. O radio continuava a sua programação homenageando os grandes astros do passado, após noticiada a morte do Astro Sol.

– Já não se faz música como no meu tempo – pensou alto o velho Matias, enquanto caminhava lentamente arrastando as sandálias de sola, no chão frio de cimento queimado de cor avermelhada.

– É sempre assim, basta morrer um astro famoso para mais astros mortos serem homenageados, malditos necrófagos da arte – resmungou enquanto continuava sua penosa caminhada até a geladeira, onde se encontrava um estoque infindável de ampolas e frascos contendo o famigerado Elixir Canábico 1000. Tal elixir revolucionou a humanidade há quase três séculos, quando se descobriu que o organismo humano só necessitava de um tal nutriente. Este não somente reduzia por completo a formação de radicais livres como tornaram os mais reles mortais em hordas de Matusaléns.

Ao abrir a geladeira, seu Matias esboçou um sorriso quase infantil, com as mãos trêmulas sacou no compartimento de frios uma ampola de EC1000, levou-a ao colo como uma criança, deu-lhe um afago, quebrou a ponta da ampola com um rápido peteleco e sorveu o conteúdo com  muita parcimônia. Suas pupilas rapidamente dilataram, seus olhos ganharam uma coloração vermelha intensa, sentiu um calafrio, e finalmente  conseguiu de maneira incrível sapatear, mesmo que de forma trôpega, por uns breves devaneios de tempo, terminando o movimento fantástico de pernas com um sonoro OW YEAH BABY!

Logo em seguida, o ancião se dirigiu ao antigo calendário de Frei Damião, fitou respeitosamente os olhos da imagem e uma espécie de scanner a laser fez uma varredura nos olhos vermelhos brilhantes do chapado Matias. Eis que aquela parede suja com reles lembranças de pintura se abriu como que por um milagre, revelando um cômodo que mais parecia uma nave intergaláctica, com painéis e um sem fim de leds piscando, poltrona cheia de Joysticks, varias telas mostrando outros velhos chapados como o seu Matias, fazendo uma espécie de videoconferência.

– Fala Matias velho safado – Saldou um dos coroas.

– Falo não! Pois com vosmicê não se fala, se late – e não é que o velho Matias realmente latiu igual a um vira lata morto-vivo.

– Como sempre de mau humor hein meu velho amigo? – retrucou o velho do outro lado do display.

– Alguém aqui precisa ser chato – Replicou um velho usando um boné enfiado na cabeça careca de rala penugem prateada.

– Ora ora, se não é o grande Joe Zapata, o maior descabaçador do velho oeste – saudou um Matias agora sorridente.

– Pura invenção do povo – respondeu um modesto Joe.

– Entonces dude, que passa? – perguntou cheio de malemolência o Matias.

-Trago péssimas noticias meus caros – advertiu o Mr. Zapata, deixando um ambiente pesado, onde em segundos se abriu uma porção de telas com rostos velhos e tensos esperando o grito da rasga-mortalha.

– Um informante marciano da mais alta confiança, me passou coordenadas de extrema importância cartesiana para os membros do senado – assim falou Zapata.

– Esses malditos marcianos nunca serão confiáveis, mas do que finalmente se trata essa noticia bombástica dude? Perguntou Seu Matias.

– Uma de nossas células foi rastreada pelo serviço secreto de marte. Eles finalmente conseguiram nos encontrar – respondeu um melancólico Zapata.

– Desgraçados e incompetentes, foi preciso quase três séculos, malditos aborígenes preguiçosos – resmungou Seu Matias.

– Um corretor de almas estará a caminho nas próximas duas semanas, sinto informar que um de nós será despachado – completou um Zapata em tom fúnebre.

– Eu quero mamãe! – Choramingou um velho de gorro vermelho com uma estrela desenhada e duas letras escritas no centro.

– Sejes homem Ignácio! Arme-se até os dentes, ou melhor, até a dentadura, e lute como homem, não desista, honre sua presença neste senado camarada – bradou um valente Matias.

-Não se preocupes companheiro Ignácio, já temos as coordenadas exatas do alvo dos marcianos, não será você, pelo menos não desta vez – acalmou o líder Zapata.

-Finalmente de quem se trata Joe? – perguntou um velho negro quase sem cabelo, com um único dreadlock que partia do alto de sua cabeça e caia sobre seu nariz.

-As coordenadas batem com a localização do nosso companheiro Matias Bronson – Respondeu com um tom seco e triste o líder do senado acompanhado de vários oohhh’s e filhas das putas dos outros membros.

-Essa situação ficará insustentável, perderemos uma peça importante num ponto estratégico do tabuleiro, não somente um membro bem quisto, afinal de contas quem mais poderia se submeter a viver na Crater City em nome do Senado? – comentou um desiludido senhor caolho com tampão que mais lembrava um famoso pirata que estampava garrafas de rum de baixa qualidade nos tempos áureos da humanidade.

-Sim, será uma perda inestimável para nossa cúpula, mas um dia cedo ou tarde isto viria a acontecer, poderia ser qualquer um de nós – comentou serenamente o líder Zapata.

Enquanto todos falavam e comentavam tal imbróglio, Seu Matias vestiu o seu antigo gorro verde de guerrilheiro, sacou de um compartimento secreto de sua poltrona hi-tec um imponente charuto que parecia estar guardado ali para uma ocasião muito especial e gritou:

– Eu vou comer o “figo” desse fela da puta, e comerei cru, vocês todos estão ai falando como se eu fosse me entregar tão fácil, lutei contra esses malditos verdes bacuraus durante muito tempo, conheço todas as suas manhas, entranhas, com a ponta do meu punhal farei uma festa!!

– Senhores, a reunião está terminada, caro Matias, estaremos enviando em breve instruções finais, sinto muito por tudo, que JAH nos proteja – Transmitiu sua ultima mensagem daquela reunião Joe Zapata.

Cada tela foi se fechando entre lágrimas e últimas palavras de incentivo para seu Matias Bronson, que agora mais calmo ouviu e agradeceu a todos um por um. Terminada a reunião o velho caminhou lentamente em direção a sua cama e com muito esforço conseguiu puxar o velho baú fechado que ali se encontrava. Com a digital do velho polegar carcomido pelo tempo, pressionou o cadeado ate que este se abriu, as chaves deste tempo são bem diferentes das de antigamente. Abrindo o baú se revelou um arsenal de armas pesadas e munições para um verdadeiro batalhão, as cápsulas de grosso calibre refletiam um brilho intenso dourado nos olhos do velho guerrilheiro fazendo seus olhos vermelhos também brilharem. Com isto o velho estalou os dedos da outra mão fazendo que uma chama surgisse de seu polegar possibilitando-lhe acender o charuto, dando umas boas tragadas seu Matias disparou uma cusparada no chão e bradou:

– Maldito seja marciano dos infernos, estarei te esperando com essas belezuras, você não perde por esperar!

*CONTINUA*

CORRETOR MARCIANO DE ALMAS parte I

Posted in Uncategorized on agosto 15, 2010 by contosdacratera

por Glaucio Fabrizio

Seu peito suado com ralos pêlos brancos e uma medalha de São Jorge   roncava junto com a sua respiração. Um zumbido de máquina cansada. Um velho bonde que já correu por trilhos mil na época dos vapores do delta ou como carrancas famintas de maus espíritos. No velho rádio surrado, um blue fazia gemer aquele velho alto falante. Da janela de cortinas de tecidos que lembravam velhas ciganas, podia-se ver além de prédios de fachadas disformes e esverdeadas de musgo. Sentado na poltrona ele aguardava o primeiro e único raio de sol daquela manhã cinza. No canto da poltrona queimava um cigarro de baixa qualidade, uma tenra fumaça azul virgem de ventos devastadores. Da retina do velho homem se espelhava a velha navalha cega descansando em seu colo.

– Interrompemos a nossa programação para uma noticia de ultima hora – groovies de baixo e panelas com uma musica alucinante anuncia-

–   Acaba de morrer o maior astro de nossa galáxia, dias frios virão!

-Grandes merda! – balbuciou sua boca murcha.

-Vi os maiores improvisadores do velho oeste, dedos velozes com palhetas feitas de chifre de boi na ultima madrugada de lua cheia, vi beiços torpes soprando em conjunto com flautins endiabrados. Vi despachos com galinhas pretas, cachaça e pipocas e um realejo ensaguentado no meio da oferenda pagã. Vi homens chorando nas guerras messiânicas, sofrendo por ter matando um santo. Vi crianças com enxame de piolhos. Vi de tudo um pouco. Morre o astro rei, devo ter mais alguns minutos ate uma ultima réstia de sol. Se fosse criança, pegaria o fundo de uma garrafa de refrigerante e tentaria incendiar uma formiga perdida do rebanho. Se fosse um jardineiro gostaria de sentir o ultimo suspiro de um girassol. Se fosse pescador, sentiria o ultimo ardor na pele de mais um dia de trabalho, se fosse uma semente em estado de latência, seria a ultima esperança de brotar, mas não vem a água, falta a ultima chuva. Foda-se o astro e a porra desgraçada desse universo.

Em alguma espelunca perdida da galáxia, a noticia corria tal qual cervos alucinados fugindo de leões famintos:

-Porra, morreu o astro rei! – gritou um veterano etílico desdentado.

-Foi de AIDS ou drogas?  – Perguntou outra mosca de bar levantando a cabeça e desabando logo em seguida no balcão.

Terminando o derradeiro gole de AZÏA, Severino Johnson cuspiu aos pés de um forasteiro mal encarado que parecia enraizado na beira do balcão:

– Preciso voltar a terra- Resmungou Severino.

– O que você tem pra fazer naquele fim de mundo? – perguntou o barman.

– Controle populacional, o governo marciano me paga para liquidar pessoas e manter a população da terra estável, desde que inventaram o elixir canábico 1000, a expectativa de vida daqueles infelizes terráqueos triplicou, virou  uma praga, se reproduzem como coelhos.

– Coelho? Como o Perna-longa? –  perguntou o barman com  um sorriso idiota no rosto.

– Não porra! Como coelhos de verdade, você nunca viu um coelho? – retrucou Severino.

– O único coelho que vi na minha vida foi o perna-longa tatuado na teta do meio de uma prostituta de Venus- respondeu o barman com os olhos marejados brilhantes de nostalgia.

– Com esse salário de merda eles me enviam para qualquer buraco, um homem precisa morrer na Crater City e quem escolhe para executar? Eu, logo eu cara!- resmungou Severino.

– Crater City? – Perguntou o barman.

– Sim cara,  um lugar dos infernos! – respondeu um Severino inconformado.

**CONTINUA**

MUTE

Posted in Uncategorized on agosto 15, 2010 by contosdacratera

por Glaucio Fabrizio

Inicio dos anos 90, tarde cinzenta, musicas barulhentas tocam no stereo de pelo menos boa parte de lares com adolescentes rebeldes em quase todo o mundo ocidental. Entre um café, um cigarro e uma rosquinha, burocratas empaletozados se encaram calados com movimentos assíncronos estonteantes. Enquanto um move a sobrancelha, outro movimenta a boca a ponto de quase falar algo, porem sempre interrompendo com um sobressalto de duvida ou idéia gaguejada que poderia ser útil naquele momento, os demais movimentam os ombros ou pigarreiam antes ou depois de baforar seus cigarros com filtro molhado de saliva e café, diretamente do sólido e imponente quartel general da Inteligência Imperial.

O mais velho parecia ser o líder daquela reunião, distribuiu pastas com carimbo CONFIDENCIAL para cada um dos presentes, onde constavam fotos e anotações, além de um relatório timbrado escrito entre parênteses (PARCIAL). Lambendo o polegar e abrindo o relatório na pagina 38, os demais o seguiram como que brincassem de “siga o líder”.  Tal pagina tinha uma lista de oito pessoas, na qual duas estavam grafadas, mais abaixo no  relatório os classificava como os dois melhores candidatos.

Um dos burocratas apontou o primeiro candidato e abriu as duas mãos, como que pedindo uma explicação para o líder, o mais velho. Esse então lambeu o polegar e abriu o relatório na pagina 15 apontando com a ponta da esferográfica o terceiro parágrafo que dizia:

“Problemático na escola, detento do centro de reabilitação juvenil dos 13 aos 18, fundador do Centro Libertário Imperial (gang de jovens desajustados), atualmente líder da banda de rock Os Sujos e convertido ao islamismo…”

O relatório ainda dizia que o candidato estava sob alvo de investigações de outros departamentos da inteligência por trafico de entorpecentes, armas e prostituição infantil, mas não tinham provas conclusivas sobre o mesmo. Nesse momento os burocratas esboçaram uma coreografia autônoma de seus gestos e cacoetes de forma sincronizada. O líder levantou-se e passou a caminhar com o relatório em punho dentro do recinto, meio que matutando algo que teimava em não sair da sua imaginação fértil. É possível que tenha se levantado para estar acima dos demais, num patamar mais alto, como um Deus, observando suas ovelhas de cima, pastoreando ordens com destreza, sutil como uma jaguatirica. Era um líder muito respeitado, conseguiu dentro de seus mais 40 anos de organização limpar ou sujar a reputação de homens, nações, costumes e ideais sem deixar vestígios.

Continuando o ritual, o líder lambeu o polegar e abriu o relatório na pagina 10 , todos o seguiram. Nesta pagina do relatório falava sobre o outro candidato e tudo que se sabia a seu respeito era sua origem árabe e que atualmente era um sem teto que vivia perambulando pelas ruas de uma metrópole tropical babilônica do terceiro mundo.

Um dos presentes socou a mesa, lambeu o polegar e voltou a abrir o relatório na pagina 38, circulou o trecho em que falava sobre a vida pregressa do primeiro candidato, escreveu um OK e sem dizer uma palavra deu-se por convencido que aquele era realmente o melhor, já tinha o nome sujo naturalmente, era de fato um pato para o sistema devorar. Então o líder, fazendo aqueles barulhos como que palitando os dentes com desdém, o desaprovou sem precisar balançar a cabeça com negação. Nesse momento ele distribuiu mais pastas entre os subalternos com um relatório timbrado também com carimbo CONFIDENCIAL, mas que tinha escrito entre parênteses (FINAL), lambeu o polegar e abriu o relatório na pagina 10 apontando com a ponta da esferográfica um novo parágrafo:

“Perdeu toda a família em bombardeios das tropas Mercenárias… revolucionário fundador da Frente Libertaria Popular que foi completamente dizimada pelas forças inimigas, aliadas ao Império, até a ultima célula terrorista, mas que levou a criação de vários outros grupos extremistas por pura influencia subversiva da FLP. Tido como morto mas, reconhecido perambulando pelas ruas de uma metrópole babilônica tropical de terceiro mundo pela base de inteligência imperial naquele sitio…”

Naquele momento, todos se pegaram surpresos com total maestria na forma como aquele relatório tinha evoluído. O líder, o mais velho com um quase sorriso de superior em seus lábios, entregou envelopes pardos com o carimbo CONFIDENCIAL escrito entre parênteses (EVIDENCIAS). Nos envelopes continha fotos e algumas manchetes de jornais mundialmente conhecidos e adestrados pelo império, onde sempre aparecia um retrato falado e uma foto do terrorista responsável por um atentado no metrô da capital imperial, atentado este que tinha tirado a vida de milhares. O segundo candidato foi o escolhido, o mesmo que hoje era mendigo nas ruas de uma metrópole tropical babilônica de terceiro mundo.  Algumas das manchetes pré fabricadas diziam que o terrorista havia sido localizado e que fora morto ao reagir à voz de prisão por parte da policia internacional imperial. Tudo estava montado e arquitetado pelo Líder, o mais velho: matariam o mendigo, forjariam um atentado onde milhares feneceriam, uma pequena parcela de contribuintes que de fato nada interferiria no sistema financeiro imperial, justificando então a invasão das tropas imperiais no oriente, como represália ao atentado e finalmente poderiam usurpar do ouro negro que jorrava aos borbotões em fontes naquele fim de mundo.

Todos deram por convencidos que aquela sim era uma solução bem arquitetada e o mais velho, o Líder num gesto sacramental sacou do bolso do paletó um Puro Habano e logo em seguida os demais acenderam seus não tão caros charutos. Agora todos sorriam, sempre calados e satisfeitos em seus ternos cinza, onde da janela do escritório se via uma paisagem não menos cinza, com jovens usando roupas velhas e ouvindo uma musica suja e barulhenta em seus walkman.

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