CORRETOR MARCIANO DE ALMAS parte I

por Glaucio Fabrizio

Seu peito suado com ralos pêlos brancos e uma medalha de São Jorge   roncava junto com a sua respiração. Um zumbido de máquina cansada. Um velho bonde que já correu por trilhos mil na época dos vapores do delta ou como carrancas famintas de maus espíritos. No velho rádio surrado, um blue fazia gemer aquele velho alto falante. Da janela de cortinas de tecidos que lembravam velhas ciganas, podia-se ver além de prédios de fachadas disformes e esverdeadas de musgo. Sentado na poltrona ele aguardava o primeiro e único raio de sol daquela manhã cinza. No canto da poltrona queimava um cigarro de baixa qualidade, uma tenra fumaça azul virgem de ventos devastadores. Da retina do velho homem se espelhava a velha navalha cega descansando em seu colo.

– Interrompemos a nossa programação para uma noticia de ultima hora – groovies de baixo e panelas com uma musica alucinante anuncia-

–   Acaba de morrer o maior astro de nossa galáxia, dias frios virão!

-Grandes merda! – balbuciou sua boca murcha.

-Vi os maiores improvisadores do velho oeste, dedos velozes com palhetas feitas de chifre de boi na ultima madrugada de lua cheia, vi beiços torpes soprando em conjunto com flautins endiabrados. Vi despachos com galinhas pretas, cachaça e pipocas e um realejo ensaguentado no meio da oferenda pagã. Vi homens chorando nas guerras messiânicas, sofrendo por ter matando um santo. Vi crianças com enxame de piolhos. Vi de tudo um pouco. Morre o astro rei, devo ter mais alguns minutos ate uma ultima réstia de sol. Se fosse criança, pegaria o fundo de uma garrafa de refrigerante e tentaria incendiar uma formiga perdida do rebanho. Se fosse um jardineiro gostaria de sentir o ultimo suspiro de um girassol. Se fosse pescador, sentiria o ultimo ardor na pele de mais um dia de trabalho, se fosse uma semente em estado de latência, seria a ultima esperança de brotar, mas não vem a água, falta a ultima chuva. Foda-se o astro e a porra desgraçada desse universo.

Em alguma espelunca perdida da galáxia, a noticia corria tal qual cervos alucinados fugindo de leões famintos:

-Porra, morreu o astro rei! – gritou um veterano etílico desdentado.

-Foi de AIDS ou drogas?  – Perguntou outra mosca de bar levantando a cabeça e desabando logo em seguida no balcão.

Terminando o derradeiro gole de AZÏA, Severino Johnson cuspiu aos pés de um forasteiro mal encarado que parecia enraizado na beira do balcão:

– Preciso voltar a terra- Resmungou Severino.

– O que você tem pra fazer naquele fim de mundo? – perguntou o barman.

– Controle populacional, o governo marciano me paga para liquidar pessoas e manter a população da terra estável, desde que inventaram o elixir canábico 1000, a expectativa de vida daqueles infelizes terráqueos triplicou, virou  uma praga, se reproduzem como coelhos.

– Coelho? Como o Perna-longa? –  perguntou o barman com  um sorriso idiota no rosto.

– Não porra! Como coelhos de verdade, você nunca viu um coelho? – retrucou Severino.

– O único coelho que vi na minha vida foi o perna-longa tatuado na teta do meio de uma prostituta de Venus- respondeu o barman com os olhos marejados brilhantes de nostalgia.

– Com esse salário de merda eles me enviam para qualquer buraco, um homem precisa morrer na Crater City e quem escolhe para executar? Eu, logo eu cara!- resmungou Severino.

– Crater City? – Perguntou o barman.

– Sim cara,  um lugar dos infernos! – respondeu um Severino inconformado.

**CONTINUA**

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