MUTE

por Glaucio Fabrizio

Inicio dos anos 90, tarde cinzenta, musicas barulhentas tocam no stereo de pelo menos boa parte de lares com adolescentes rebeldes em quase todo o mundo ocidental. Entre um café, um cigarro e uma rosquinha, burocratas empaletozados se encaram calados com movimentos assíncronos estonteantes. Enquanto um move a sobrancelha, outro movimenta a boca a ponto de quase falar algo, porem sempre interrompendo com um sobressalto de duvida ou idéia gaguejada que poderia ser útil naquele momento, os demais movimentam os ombros ou pigarreiam antes ou depois de baforar seus cigarros com filtro molhado de saliva e café, diretamente do sólido e imponente quartel general da Inteligência Imperial.

O mais velho parecia ser o líder daquela reunião, distribuiu pastas com carimbo CONFIDENCIAL para cada um dos presentes, onde constavam fotos e anotações, além de um relatório timbrado escrito entre parênteses (PARCIAL). Lambendo o polegar e abrindo o relatório na pagina 38, os demais o seguiram como que brincassem de “siga o líder”.  Tal pagina tinha uma lista de oito pessoas, na qual duas estavam grafadas, mais abaixo no  relatório os classificava como os dois melhores candidatos.

Um dos burocratas apontou o primeiro candidato e abriu as duas mãos, como que pedindo uma explicação para o líder, o mais velho. Esse então lambeu o polegar e abriu o relatório na pagina 15 apontando com a ponta da esferográfica o terceiro parágrafo que dizia:

“Problemático na escola, detento do centro de reabilitação juvenil dos 13 aos 18, fundador do Centro Libertário Imperial (gang de jovens desajustados), atualmente líder da banda de rock Os Sujos e convertido ao islamismo…”

O relatório ainda dizia que o candidato estava sob alvo de investigações de outros departamentos da inteligência por trafico de entorpecentes, armas e prostituição infantil, mas não tinham provas conclusivas sobre o mesmo. Nesse momento os burocratas esboçaram uma coreografia autônoma de seus gestos e cacoetes de forma sincronizada. O líder levantou-se e passou a caminhar com o relatório em punho dentro do recinto, meio que matutando algo que teimava em não sair da sua imaginação fértil. É possível que tenha se levantado para estar acima dos demais, num patamar mais alto, como um Deus, observando suas ovelhas de cima, pastoreando ordens com destreza, sutil como uma jaguatirica. Era um líder muito respeitado, conseguiu dentro de seus mais 40 anos de organização limpar ou sujar a reputação de homens, nações, costumes e ideais sem deixar vestígios.

Continuando o ritual, o líder lambeu o polegar e abriu o relatório na pagina 10 , todos o seguiram. Nesta pagina do relatório falava sobre o outro candidato e tudo que se sabia a seu respeito era sua origem árabe e que atualmente era um sem teto que vivia perambulando pelas ruas de uma metrópole tropical babilônica do terceiro mundo.

Um dos presentes socou a mesa, lambeu o polegar e voltou a abrir o relatório na pagina 38, circulou o trecho em que falava sobre a vida pregressa do primeiro candidato, escreveu um OK e sem dizer uma palavra deu-se por convencido que aquele era realmente o melhor, já tinha o nome sujo naturalmente, era de fato um pato para o sistema devorar. Então o líder, fazendo aqueles barulhos como que palitando os dentes com desdém, o desaprovou sem precisar balançar a cabeça com negação. Nesse momento ele distribuiu mais pastas entre os subalternos com um relatório timbrado também com carimbo CONFIDENCIAL, mas que tinha escrito entre parênteses (FINAL), lambeu o polegar e abriu o relatório na pagina 10 apontando com a ponta da esferográfica um novo parágrafo:

“Perdeu toda a família em bombardeios das tropas Mercenárias… revolucionário fundador da Frente Libertaria Popular que foi completamente dizimada pelas forças inimigas, aliadas ao Império, até a ultima célula terrorista, mas que levou a criação de vários outros grupos extremistas por pura influencia subversiva da FLP. Tido como morto mas, reconhecido perambulando pelas ruas de uma metrópole babilônica tropical de terceiro mundo pela base de inteligência imperial naquele sitio…”

Naquele momento, todos se pegaram surpresos com total maestria na forma como aquele relatório tinha evoluído. O líder, o mais velho com um quase sorriso de superior em seus lábios, entregou envelopes pardos com o carimbo CONFIDENCIAL escrito entre parênteses (EVIDENCIAS). Nos envelopes continha fotos e algumas manchetes de jornais mundialmente conhecidos e adestrados pelo império, onde sempre aparecia um retrato falado e uma foto do terrorista responsável por um atentado no metrô da capital imperial, atentado este que tinha tirado a vida de milhares. O segundo candidato foi o escolhido, o mesmo que hoje era mendigo nas ruas de uma metrópole tropical babilônica de terceiro mundo.  Algumas das manchetes pré fabricadas diziam que o terrorista havia sido localizado e que fora morto ao reagir à voz de prisão por parte da policia internacional imperial. Tudo estava montado e arquitetado pelo Líder, o mais velho: matariam o mendigo, forjariam um atentado onde milhares feneceriam, uma pequena parcela de contribuintes que de fato nada interferiria no sistema financeiro imperial, justificando então a invasão das tropas imperiais no oriente, como represália ao atentado e finalmente poderiam usurpar do ouro negro que jorrava aos borbotões em fontes naquele fim de mundo.

Todos deram por convencidos que aquela sim era uma solução bem arquitetada e o mais velho, o Líder num gesto sacramental sacou do bolso do paletó um Puro Habano e logo em seguida os demais acenderam seus não tão caros charutos. Agora todos sorriam, sempre calados e satisfeitos em seus ternos cinza, onde da janela do escritório se via uma paisagem não menos cinza, com jovens usando roupas velhas e ouvindo uma musica suja e barulhenta em seus walkman.

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