CORRETOR MARCIANO DE ALMAS parte II

Afundando na poltrona seu esqueleto cansado, as pontas dos cotovelos gastavam o braço da cadeira, assim como o cotovelo do empoeirado paletó que jazia no canto do quarto, no camiseiro de madeira escura. Sobre o camiseiro também jazia uma antiga maleta toda tatuada de selos, como braços marcados de um velho marujo amante dos mais variados tipos de prostitutas e poetisas chapadas de haxixe em cada porto pelos quais passou. Além de um fossilizado par de botas surradas, um antiqüíssimo calendário de Frei Damião de séculos passados na parede perto da geladeira, a poltrona e um fogareiro, poucas panelas e alguns sacos com sacos dentro de sacos, uma cama de molas e um enorme baú fechado a cadeado embaixo da cama, nada mais decorava aquele vão único com banheiro, onde vivia Seu Matias Bronson, um velho guerrilheiro ativista, sobrevivente do mais cruel e sanguinolento holocausto desde a Quarta Guerra Mundial, a Revolução do Cânhamo.

Com muito esforço, conseguiu se por de pé, derrubando ao chão sua navalha com cabo de marfim de estimação, isso o fez praguejar impropérios inaudíveis de freqüência baixíssima, somente captada por espécies mais evoluídas de pernilongos sanguessugas. Sua coluna arquejava de tal forma que a medalha de São Jorge, sempre descansando no seu peito roncador, às vezes, podia tocar-lhe a barriga, ou o lugar onde provavelmente existiu uma barriga. O radio continuava a sua programação homenageando os grandes astros do passado, após noticiada a morte do Astro Sol.

– Já não se faz música como no meu tempo – pensou alto o velho Matias, enquanto caminhava lentamente arrastando as sandálias de sola, no chão frio de cimento queimado de cor avermelhada.

– É sempre assim, basta morrer um astro famoso para mais astros mortos serem homenageados, malditos necrófagos da arte – resmungou enquanto continuava sua penosa caminhada até a geladeira, onde se encontrava um estoque infindável de ampolas e frascos contendo o famigerado Elixir Canábico 1000. Tal elixir revolucionou a humanidade há quase três séculos, quando se descobriu que o organismo humano só necessitava de um tal nutriente. Este não somente reduzia por completo a formação de radicais livres como tornaram os mais reles mortais em hordas de Matusaléns.

Ao abrir a geladeira, seu Matias esboçou um sorriso quase infantil, com as mãos trêmulas sacou no compartimento de frios uma ampola de EC1000, levou-a ao colo como uma criança, deu-lhe um afago, quebrou a ponta da ampola com um rápido peteleco e sorveu o conteúdo com  muita parcimônia. Suas pupilas rapidamente dilataram, seus olhos ganharam uma coloração vermelha intensa, sentiu um calafrio, e finalmente  conseguiu de maneira incrível sapatear, mesmo que de forma trôpega, por uns breves devaneios de tempo, terminando o movimento fantástico de pernas com um sonoro OW YEAH BABY!

Logo em seguida, o ancião se dirigiu ao antigo calendário de Frei Damião, fitou respeitosamente os olhos da imagem e uma espécie de scanner a laser fez uma varredura nos olhos vermelhos brilhantes do chapado Matias. Eis que aquela parede suja com reles lembranças de pintura se abriu como que por um milagre, revelando um cômodo que mais parecia uma nave intergaláctica, com painéis e um sem fim de leds piscando, poltrona cheia de Joysticks, varias telas mostrando outros velhos chapados como o seu Matias, fazendo uma espécie de videoconferência.

– Fala Matias velho safado – Saldou um dos coroas.

– Falo não! Pois com vosmicê não se fala, se late – e não é que o velho Matias realmente latiu igual a um vira lata morto-vivo.

– Como sempre de mau humor hein meu velho amigo? – retrucou o velho do outro lado do display.

– Alguém aqui precisa ser chato – Replicou um velho usando um boné enfiado na cabeça careca de rala penugem prateada.

– Ora ora, se não é o grande Joe Zapata, o maior descabaçador do velho oeste – saudou um Matias agora sorridente.

– Pura invenção do povo – respondeu um modesto Joe.

– Entonces dude, que passa? – perguntou cheio de malemolência o Matias.

-Trago péssimas noticias meus caros – advertiu o Mr. Zapata, deixando um ambiente pesado, onde em segundos se abriu uma porção de telas com rostos velhos e tensos esperando o grito da rasga-mortalha.

– Um informante marciano da mais alta confiança, me passou coordenadas de extrema importância cartesiana para os membros do senado – assim falou Zapata.

– Esses malditos marcianos nunca serão confiáveis, mas do que finalmente se trata essa noticia bombástica dude? Perguntou Seu Matias.

– Uma de nossas células foi rastreada pelo serviço secreto de marte. Eles finalmente conseguiram nos encontrar – respondeu um melancólico Zapata.

– Desgraçados e incompetentes, foi preciso quase três séculos, malditos aborígenes preguiçosos – resmungou Seu Matias.

– Um corretor de almas estará a caminho nas próximas duas semanas, sinto informar que um de nós será despachado – completou um Zapata em tom fúnebre.

– Eu quero mamãe! – Choramingou um velho de gorro vermelho com uma estrela desenhada e duas letras escritas no centro.

– Sejes homem Ignácio! Arme-se até os dentes, ou melhor, até a dentadura, e lute como homem, não desista, honre sua presença neste senado camarada – bradou um valente Matias.

-Não se preocupes companheiro Ignácio, já temos as coordenadas exatas do alvo dos marcianos, não será você, pelo menos não desta vez – acalmou o líder Zapata.

-Finalmente de quem se trata Joe? – perguntou um velho negro quase sem cabelo, com um único dreadlock que partia do alto de sua cabeça e caia sobre seu nariz.

-As coordenadas batem com a localização do nosso companheiro Matias Bronson – Respondeu com um tom seco e triste o líder do senado acompanhado de vários oohhh’s e filhas das putas dos outros membros.

-Essa situação ficará insustentável, perderemos uma peça importante num ponto estratégico do tabuleiro, não somente um membro bem quisto, afinal de contas quem mais poderia se submeter a viver na Crater City em nome do Senado? – comentou um desiludido senhor caolho com tampão que mais lembrava um famoso pirata que estampava garrafas de rum de baixa qualidade nos tempos áureos da humanidade.

-Sim, será uma perda inestimável para nossa cúpula, mas um dia cedo ou tarde isto viria a acontecer, poderia ser qualquer um de nós – comentou serenamente o líder Zapata.

Enquanto todos falavam e comentavam tal imbróglio, Seu Matias vestiu o seu antigo gorro verde de guerrilheiro, sacou de um compartimento secreto de sua poltrona hi-tec um imponente charuto que parecia estar guardado ali para uma ocasião muito especial e gritou:

– Eu vou comer o “figo” desse fela da puta, e comerei cru, vocês todos estão ai falando como se eu fosse me entregar tão fácil, lutei contra esses malditos verdes bacuraus durante muito tempo, conheço todas as suas manhas, entranhas, com a ponta do meu punhal farei uma festa!!

– Senhores, a reunião está terminada, caro Matias, estaremos enviando em breve instruções finais, sinto muito por tudo, que JAH nos proteja – Transmitiu sua ultima mensagem daquela reunião Joe Zapata.

Cada tela foi se fechando entre lágrimas e últimas palavras de incentivo para seu Matias Bronson, que agora mais calmo ouviu e agradeceu a todos um por um. Terminada a reunião o velho caminhou lentamente em direção a sua cama e com muito esforço conseguiu puxar o velho baú fechado que ali se encontrava. Com a digital do velho polegar carcomido pelo tempo, pressionou o cadeado ate que este se abriu, as chaves deste tempo são bem diferentes das de antigamente. Abrindo o baú se revelou um arsenal de armas pesadas e munições para um verdadeiro batalhão, as cápsulas de grosso calibre refletiam um brilho intenso dourado nos olhos do velho guerrilheiro fazendo seus olhos vermelhos também brilharem. Com isto o velho estalou os dedos da outra mão fazendo que uma chama surgisse de seu polegar possibilitando-lhe acender o charuto, dando umas boas tragadas seu Matias disparou uma cusparada no chão e bradou:

– Maldito seja marciano dos infernos, estarei te esperando com essas belezuras, você não perde por esperar!

*CONTINUA*

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