CORRETOR MARCIANO DE ALMAS parte III

No ponto mais nefrálgico da maior metrópole marciana, Severino Johnson caminha ao som dos guetos do seu mini stereo portátil, em meio à fumaça de choques térmicos, gases tóxicos e sinalizações de bares e restaurantes populares. Seu destino é o escritório central do governo, localizado no coração da capital, em um solido e imponente bloco de vidro e concreto. Nas ruas ele se sente um rei, a cada vitrine, pára retocando o seu visual, hora aprumando o colarinho, às vezes o cabelo. Em uma vitrine de uma loja de equipamentos eletrônicos, várias TVs em liquidação ligadas no mesmo canal anunciam noticias vindas de alguma colônia marciana perdida da galáxia em conflitos étnicos ou por comida.

– Idiotas, quando vão aprender a não meterem o bedelho no assunto dos outros? – Comenta Severino, acendendo um cigarro de filtro vermelho.

Um velho cego toca a três mãos um sax tenor, um blues triste que serve de trilha sonora pro comentário de um Severino como sempre inconformado. Jogando uma moeda na lata enferrujada aos pés do cego que em meio a sua tristeza, sorriu agradecendo a compaixão ao ouvir o barulho do metal debatendo no vazio oxidado no recipiente, continuou Severino sua caminhada sem pressa para reunião onde receberia suas últimas instruções até sua próxima estadia infernal na Crater City.

– Mr. Johnson encontra-se no recinto – uma voz abafada de alto falante anuncia a sua chegada.
-ok Creide, faça-o entrar – Respondeu o comissário Lênin tirando um envelope pardo da gaveta o jogando em cima de seu birô.

Cheio de marra, Severino Johnson caminhou lentamente ate a mesa de seu superior, apagou o cigarro na caneca de café do chefe, desabotoou o paletó e sentou-se encarando.
– Eis o omi – disse secamente o Comissário Lênin.
– Quando vocês me mandarão para algum paraíso tropical de alguma lua Venusiana? Perguntou ironicamente Severino.
– No dia que lhe florescer uma vagina sem dentes no lugar do seu falo, ai sim você terá alguma utilidade como puta em Venus – respondeu o Comissário.
– Sendo assim, precisarei de dicas preciosas da sua senhora esposa – rebateu um Severino sorridente.
– Fela da puta, eu rasgo esse bucho de ponta a ponta! – ameaçou o comissário Lênin tirando uma pexeira da gaveta apontando com veemência para Severino.
– Então, quem é o alvo meu querido? – perguntou o corretor apaziguando os ares.
– Peixe grande, membro do senado, os dados estão neste envelope, você parte em dois dias – respondeu o comissário.
– Só isso? Um membro do senado? Na Crater City? – indagou um desacreditado Severino.
– O que você quer que eu diga porra? Quer que faça o que? Cafuné nos seus bagos?! – rebateu as indagações o comissário enquanto sacou da gaveta alguns papeis.

Por alguns instantes em silencio, olhando pro nada, pensando na morte da bezerra, Severino subitamente levantou-se da cadeira e passou a caminhar circulando pelo espaçoso escritório.
– Severino meu querido, veja bem, é um membro do senado, deve ser um velho maconheiro caquético de 500 anos, não há com o que se preocupar – tentou acalmar o comissário.
– fela da puta escroto, você há tempos ta querendo me ver morto! – interrompeu seu silêncio bradando o Severino mais inconformado do que nunca.
– Será seu último trabalho Severino, te aposento e você pode passar o resto de sua vida medíocre em alguma lua tropical de Venus – tentou consolar o chefe com um sorriso malicioso no rosto esverdeado com tons rosados, parecia uma manga rosa amadurecendo.
– maldito desgraçado – bufou Severino.
– Bem, você não tem escolha, todas as informações estão no envelope, passe depois no almoxarifado para pegar seu equipamento, só mais uma coisa, você mesmo vai guiando sua unidade móvel- Completou o comissário enquanto rubricava documentos como se o Severino não estivesse mais no recinto.
– Ultimo trabalho, mereço ir de primeira classe – resmungou o corretor.
– Eu no seu lugar aproveitava esses dois dias de sua vida de merda para relaxar, porra a vida é dura meu caro, principalmente para um estrume da sociedade que é você, agora cai fora que tenho mais o que fazer – findou a conversa o chefe onipotente como um Deus frio cagando para tudo e para todos.

De volta as ruas, Severino logo chegou em sua casa, um pequeno apartamento com mobília desgastada e garrafas abertas vazias por toda parte. Sacou do armário da cozinha uma garrafa lacrada de AZÏA, deflorou o invólucro com os dentes, sentou na mesa da cozinha, abriu o envelope, enquanto lia os documentos e mamava diretamente da garrafa, embebedou-se e caiu prostrado sobre a mesa, onde acordou dois dias depois, pronto para viajar, de cabelos molhados e armado ate os dentes.

*CONTINUA*

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