CORRETOR MARCIANO DE ALMAS parte final

Deslizando a duas vezes a velocidade da luz em sua cápsula de transporte individual, Severino Johnson avistou em questão de minutos o horizonte da marrom atmosfera terrestre. Apesar do pouco tempo de viagem, esta não deixava de ser uma dolorosa travessia, que alterava sentidos, hormônios, genitália. A pressão era tamanha, que os bagos sofriam edemas que duravam semanas, a dor era ludibriada com analgésicos fortes contidas no seu traje espacial, a menor sensação de dor, automaticamente sua pele era bombardeada com dosagens precisas de morfina. Porem a pior parte da viagem ainda estava por vir ao pousar na superfície do planeta, principalmente por se tratar do perímetro letal da Crater City, povoada por seres canibais de toda espécie. Severino teria menos de 2 minutos para se desvencilhar da cápsula que se desintegraria há dois metros do pouso, engatilhar seu arsenal de fuzis e granadas marcianas, e já cair em solo atirando para todo lado com sangue nos olhos e uma fúria lacerante.

O sistema de voz da cápsula começa sua contagem regressiva:

– Alerta! 30 segundos para a desova – avisa a voz metálica.

-Desova! Eles deviam mudar isso, a gente já começa a missão fudido – reclama consigo mesmo o corretor conectando a saída de áudio do traje, seu mini stereo portátil onde tocava um alucinante Surf Music espacial de Venus.

– Alerta! Ejeção da Cápsula efetivada – Anuncia sua ultima mensagem a maquina, com sua voz feminina e robótica, friamente sexy.

Com a abertura da cápsula, há dois metros do solo, Severino já começa disparando rajadas nas criaturas que o ataca antes mesmo de pôr os pés em terra firme. O mau cheiro aumentava a cada tiro destroçador de crânios, afinal de contas, tais criaturas um dia já foram humanos e nada pode exalar tanta fedentina como um ser humano com suas glândulas arcaicas e apodrecidas.

Numa tentativa frustrada de controle populacional, usando armas biológicas, a base central atendeu aos apelos do governo e da opinião publica, contrários ao envio de tropas marcianas nas perigosas missões, começando os bombardeios com cargas alternadas de vírus e calor, nos 7 continentes da terra . A priori, a função do singelo vírus, seria de investir uma autofagia celular, levando o individuo infectado a uma morte degenerativa em 7 dias.  O Vírus, batizado depois de BIG SHIT, não surtiu o efeito desejado, pois apesar do grande numero de cadáveres contabilizados , estes passaram a ser um grande problema para o Departamento de Defesa. Tais criaturas não somente continuaram caminhando e ocupando as ruas, mesmo na condição de mortos, como também sentiam fome. Comiam de tudo que tivesse cérebro, embora  cérebros frescos de humanos fosse a iguaria mais apreciada. Os poucos centros que sobreviveram a tal investida conseguiram isolar-se em zonas seguras, formando ilhas cercadas de zumbis por todos os lados. Para obter o controle das zonas seguras, as autoridades marcianas foram obrigadas a triplicar os recursos bélicos para a sua tomada e controle.

Poucos mais de quinze minutos travando batalha com as criaturas vorazes foram necessários para que o corretor conseguisse finalmente atingir a fronteira segura da Crater City. Avistando a gigantesca cúpula vítrea, Severino finalmente conseguiu respirar aliviado. Chegando a fronteira fortemente monitorada pelas tropas marcianas, o corretor foi resgatado por um veiculo que mais lembrava uma gigante bolacha preta com propulsores movidos a metano, o grande motivo de discórdia entre terráqueos e marcianos. O gás passou a ser um problema de âmbitos galácticos, com a superpopulação humana em meados do século 41. Ironicamente, a flatulência planetária que afetou diretamente a ordem da galáxia, alterando completamente o ciclo geológico e climático de todo o sistema solar, passou a ser visto como a principal fonte de energia que não só mantinha o funcionamento das maquinas na terra, como em toda as outras empreitadas espaciais do império marciano, mesmo que este fosse estritamente proibido pelo protocolo de Kôkôto há quase dois séculos. Com muita astúcia, o famigerado líder da época, Henry Asslinger, teve a brilhante de idéia de forçar um controle populacional na terra, obtendo desta forma, a estocagem do gás e mantendo a ordem no sistema solar, provendo um meio barato de energia, para todo o império. Desde a medida tomada pelo antigo líder, terráqueos e marcianos travam disputas pelo controle e poder do planeta, que um dia já foi azul.

– Porra, como sempre bem recepcionado por essas bestas infernais – reclama para variar o duro Severino ao ser monitorado e desinfetado pela equipe de controle.

– Me disseram que esta será sua ultima missão – comenta o infectologista.

– É o que dizem – responde Severino enquanto acende um cigarro de filtro vermelho.

– Isso ainda vai te matar – Aconselha o medico.

–  Não, o que vai me matar fede e peida desgraçadamente para que se possa acender a porra de uma lâmpada num quartinho de empregada em um condomínio de luxo em marte – rebate encarando um Severino como sempre mal humorado.

Uma lâmpada verde se acende e uma vermelha se apaga:

– DESINFECTADO! – avisa uma voz de alto falante.

Logo em seguida uma escotilha se abre dando passagem para o corretor, que antes joga o cigarro no chão o apagando com suas pesadas botas de soldado, o que gerou um certo olhar de desaprovação do responsável pela desinfecção.

Um pequeno sujeito trajando um jaleco azul e óculos enormes se aproxima de Severino, telepaticamente dá as ultimas instruções e o avisa em alto e bom pensamento:

– O teleportador está pronto, em 10 segundos você estará ao encontro do alvo, aconselho ter muito cuidado!

– Vá tomar no cu! – responde em pensamento Severino com uma antiga insolência terráquea.

– Tomar o que? É uma espécie de nova bebida? – indaga o desavisado operador de teletransporte.

– Deixa pra lá – rebate o Severino com um sorriso malicioso.

Subindo em uma espécie de plataforma com luzes que mais lembrava os pisos de discotecas primitivas terráqueas, o corretor aguardou enquanto o pequeno sujeito girava uma manivela numa velocidade estonteante. Em questão de segundos uma luz púrpura contornou a plataforma como uma cortina de banheiro de motel vagabundo, fazendo o corretor desaparecer e em um piscar de olhos o transportou para um sinistro corredor de hotel não menos barato, com papel de parede descascando e algumas lâmpadas mal acesas nos lustres adornados em cobre, diante da porta do quarto de numero 237.

A porta se encontrava semi-aberta e tudo que podia se enxergar era uma luz fraca que escapava pela fresta. Empurrando-a com a ponta do fuzil com muito cuidado, Severino avistou uma geladeira aberta e um quarto aparentemente vazio com uma poltrona virada para a janela. Ao aproximar da geladeira o corretor avistou varias ampolas e frascos vazios, constatou que se tratava do famigerado EC1000.

Ouvindo um barulho de dedos estalando, o corretor se virou para a poltrona, observando a luz de uma chama que se acendeu por trás dela e uma fumaça azulada que subia em direção ao teto serpenteando no ar. Curioso, Severino caminhou lentamente em direção a poltrona. Há pouco mais de 3 metros foi surpreendido onde ficou parado como que paralisado no seu ultimo passo, por um giro de 180 graus da poltrona, revelando o velho Matias Bronson, sentado de pernas cruzadas, vestindo um colete verde-oliva cheio de medalhas, insígnias, granadas e cintos cheio de balas, que cruzavam seu peito murcho. Uma escopeta de três canos que mais parecia uma bazuca descansava sobre o braço da poltrona apontando para o corretor, o velho usava um capacete folgado em sua cabeça chata. Sorrindo como uma criança com um par olhos vermelhos sanguinolentos, Seu Matias puxou um trago com muita força de seu cigarro derby blue, apertando o filtro com seus lábios corroídos pelo tempo, flexionando seus pulmões que quase pareceram saltar de sua caixa torácica inchando o peito.

Paralisado em seu ultimo passo, Severino fitou a arma do velho Matias enquanto o velho Matias fitava o seu fuzil. O marciano sorriu e no momento de puxar seu gatilho e jogar uma saraivada de projeteis flamejantes contra o alvo da missão, o breve silencio causado pela situação foi cortado pelo barulho que se sucedeu :

Enquanto Seu Matias soltou a fumaça do cigarro, disparou um tiro certeiro no peito do corretor, fazendo a poltrona ser jogada contra a parede, quebrando o vidro da janela. A força do impacto foi tanta, a ponto de quase  jogar ambos para fora do apartamento.

As paredes e o chão logo ficaram tomadas pelo sangue verde fosforescente do marciano que iluminava quase que sobriamente o lugar.  Enquanto agonizava e cuspia sangue pela boca, inutilmente tentava respirar deitado ao chão o destruído Severino. Seu Matias Bronson caminhou lentamente em sua direção e ficou observando o marciano deitado que morria lentamente as suas vistas.  Em seguida jogou o capacete junto a cabeça do agonizante corretor, este com muito esforço e de forma tremula se virou e  conseguiu ler a frase BORN TO KILL escrito na lateral do capacete do velho guerrilheiro.

Apoiando-se na escopeta, quase como uma bengala, Seu Matias conseguiu se ajoelhar diante do marciano. Rapidamente sacou do bolso do colete a sua navalha de estimação com cabo de marfim, abrindo o traje do moribundo usando a sua ponta. Em meio ao sangue verde que jorrava como fonte, rasgou ainda mais a ferida com uma incisão onde em seguida enfiou a sua mão magra como um legista sedento por cadáveres. Severino Johnson não sentia dor, mas serenamente em seus últimos momentos de vida, observou o velho Matias lhe sacar do peito o seu fígado que brilhava verde como uma esmeralda gelatinosa, sorrindo como uma criança faminta que acabou de fazer arte. Na retina do corretor marciano de almas, refletia a ultima imagem: uma cena distorcida do velho Matias Bronson devorando o fígado marciano, como numa lente grande angular.FIM

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Uma resposta to “CORRETOR MARCIANO DE ALMAS parte final”

  1. Beto Guedes Says:

    Pô Glaucião, fazia tempos que eu ensaiava pra ler as 4 partes, e agora posso te dizer: valeu a pena.
    Várias risadas, suspense, propaganda canábica e sangue.
    O seu próprio estilo.
    Adorei.

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