CROTE SANTO

Por Glaucio Fabrizio

Em um pequeno pedaço de chão do mundo, entre o trópico de capricórnio e o equador, onde o sol teimava em brilhar seus últimos raios por volta das 18 horas com preguiça de espiar o oceano atlântico, viveu dias estranhos o célebre cidadão do Vilarejo do Crote Santo, Venceslau Trindade. Não era bem um cidadão porque não se tratava nem cidade nem vilarejo, pelo menos não para o censo mor da nação dos Brasis.

Crote Santo apesar de estar situada há pouca distância da costa, não podia ser considerado um vilarejo caiçara, porque afinal de contas ninguém por ali pescava. Existia na verdade alguns roçados coletivos, árvores frutíferas e um olho d’água brotando da terra, uma fonte natural. Há poucos metros existia o mar e dessa forma um porto imenso para o mundo, mas eles preguiçosamente preferiram se acomodar ao redor do olho d’água e viver de frutas e alguns legumes plantados. O trecho da costa era muito acidentado com formações rochosas que criava uma barreira dos infernos para o vilarejo, era mais fácil, portanto, viver junto da fonte de água que jorrava sem parar. Vencer a barreira não era algo convidativo para eles.

A população de Crote Santo era formada por renegados da sociedade, homens que perderam suas famílias, mulheres e crianças que vagavam até chegar lá, geralmente mazelados, moribundos envoltos em trapos. Aqueles que sobreviviam continuavam a viver no vilarejo até o último dia de suas vidas como em um purgatório, esperando a redenção de seus pecados e uma entrada para o paraíso. Como eles conseguiam chegar, ninguém sabe. Não existia um líder naquela comunidade, todos viviam suas vidas e ainda ajudavam aqueles novos que apareciam. Poucos sabiam ler, mas a grande maioria era de ignorantes, pessoas rudes, sem modos nem estilo, na visão do sociólogo suíço Ronald Esper.  Trabalhavam poucos meses do ano, tirando da colheita seu sustento e tinham preguiça de caçar. Uns diziam:

– Num tem pra quê  ôme, matar os bixin. Dá um trabalho danado, aff!

Durante anos chegavam levas de maltrapilhos, poucos nasciam, muitos morriam, mas sempre apareciam mais almas atormentadas para terem seu último descanso ate os portais do paraíso. Estes geralmente chegavam calados, cabisbaixos, matavam a sede no olho d’água, comiam algumas goiabas do chão e aos poucos se tornavam moradores. Em alguns meses levantavam uma casinha de taipa, com a ajuda dos vizinhos, às vezes ocupavam as casas fechadas daqueles que já tinham morrido. O mundo parecia em guerra e ali era uma espécie de campo de refugiados, quiçá um quilombo.

O nome do vilarejo havia sido dado pelo morador mais antigo, Seu Dadá, um velho de corpo delgado, carapina branca, sorridente e que sofria de mal do esquecimento, sempre duvidava se já existia no local alguém antes dele. Quando se tocava no assunto, ficava olhando pro nada, desligado do mundo, os olhos ficavam marejados, ensaiava um choro e logo dava uma gargalhada desdentada. Embora as intempéries do tempo tenham castigado a memória do velho Dadá, ele ainda recordava algumas coisas, inclusive como deu nome ao lugar:

Era noite enluarada e quente e deu vontade de subir num pé de cajarana pra mode levar um fresco nos bagos. Quando vi ao longe, em riba da gruta do olho d’água, uma luz que alumiava mais que a lua cheia e o sol emparelhado. Achei até que o mundo tinha ficado de cabeça pra baixo, ou que a lua e as estrela tava no chão e o chão tava no céu. Ai quando tava descendo, escorreguei e cai de cara. Quando acordei, achei que tava morto, porque tinha uma anja me mostrando um pé de crote que brilhava que só. Ela disse que eu cumesse o crote, e eu cumi, sei que adormeci e acordei dois dias depois todo cagado, mas me sentindo muito bem, porque já fazia três dias que eu num obrava direito. Num tinha mamão que desse jeito. Manquei três dias, mas depois fiquei bom, foi o Crote Santo!

Embora ninguém desse muita atenção ao que o velho dizia, todos tinham muito apreço por aquele ancião bem humorado, cheio de energia. Dava pulos cansados, dizendo que só duas coisas paravam no ar: o beija-flor e o próprio Dadá. Também dizia que fora jogador de futebol na juventude e que só não havia feito mais gols que o Rei.

Durante anos as coisas se sucederam como no princípio, ate o dia em que o velho já não dava mais piruetas e passou a ser visto sempre perto da gruta, tomando banho no olho d’água, continuava sorridente, porém era notável que o seu fim estava próximo. No dia de sua morte enquanto ele agonizava, alguns poucos ouviram suas últimas palavras, sempre a respeito do crote:

– O Crote, a Gruta, a água, é tudo santo!

Deram-lhe um gole d’água do olho numa quenga de côco e ele sorriu tranquilo enquanto adormecia lentamente, tal qual um neném no peito da mãe ouvindo uma cantiga de ninar, adormeceu para nunca mais acordar.

As coisas começaram a mudar no vilarejo, algo estranho havia acontecido com a morte do velho. Desde então, não aparecera mais nenhuma alma, nenhum flagelado, mazelado ou que fosse, nada como era antes. Não demorou até o dia em que alguém mais supersticioso tenha atribuído aquilo a algum tipo de catimbó que fora jogado sobre o vilarejo no dia da morte de Seu Dadá. Os poucos que eram cristãos atribuíam ao castigo por não ter ouvido as palavras santas do velho. Durante anos conforme as pessoas iam morrendo, casebres eram deixados para trás e acabaram virando mausoléu de seus antigos moradores, passaram a ser moradores eternos.

Alguns anos depois, em uma noite quente enluarada, como aquela em que Seu Dadá viu o crote brilhante, apareceu aos trancos e barrancos uma figura alta corpulenta ensopada de sangue, todo desfigurado, mais mazelado impossível. Era quase um cadáver sonâmbulo que saiu da cova para caminhar no vale dos vivos, se arrastava com muita dificuldade. Todos ficaram imóveis, feito estátua, observando o homem que chegou, parou e tombou de cara no chão.

Apesar de ensaguentado parecia se vestir com roupas finas, não carregava carteira, apenas um óculos escuros aro tartaruga no bolso do paletó. Via-se logo de cara que seus óculos não teriam utilidade, porque o homem não tinha orelhas, alguém ou algo havia lhes cortado as duas, depois se viu que lhe faltava um dedo da mão direita (o mindinho) e o polegar da mão esquerda. Algumas mulheres mais prestativas tiraram a roupa do homem para limpar suas feridas, notaram que felizmente não faltava mais nada do pobre coitado, pelo menos não nas partes baixas.

Durante sete dias mantiveram o homem de molho no olho d’água, alguns orando, outros rezando, tocando flautas feitas de bambu e tambores feitos de tronco de árvore. No sexto dia homens e mulheres entraram em transe coletivo, todos se amontoavam no olho d’água, nus uns sobre os outros, no meio de um caos frenético, de oração, rezas, tambores e sexo desenfreado. No sétimo dia o homem milagrosamente acordou, tirando o fato que não tinha orelhas e não ouvia nada que as pessoas tentavam falar para ele, apresentava uma aparência melhor do que a brutal sanguinolenta com a qual chegou ao vilarejo. Trouxeram-lhe frutas, água de côco. Esboçava alguns sorrisos de agradecimento, mas não falava uma só palavra, depois notaram que haviam arrancado sua língua também. Mesmo assim todos sentiam simpatia pelo pobre homem surdo-mudo por mutilação.

Como não carregava consigo nenhuma identificação e não falava nem ouvia, deram-lhe o nome de Venceslau Trindade, que era o nome escrito na etiqueta do seu paletó, logo depois esse passou a ser conhecido carinhosamente por Venceslau, o Môco. Estranhamente a comunidade exausta de sete dias de trevas, passou a viver em função do bem estar da última alma atormentada a chegar ao vilarejo. Anos se passaram e o tempo se resumia apenas em dia e noite, chovia pouco e o sol quando brilhava, tornava o céu ainda mais bonito. Todos veneravam o Venceslau, aquele que fora ressuscitado, assim como o judeu mais famoso da historia. Passavam boa parte do tempo sentados diante dele, hora admirando o silêncio e a placidez no seu rosto mutilado, hora dando gargalhadas quando este soltava gases, aquilo soava como que se tivessem ouvido alguma anedota engraçada, mas às vezes também choravam como que tivesse ouvido uma triste ou comovente estória embora nada pudesse ser mais comovente que a figura bizarra que estava prostrada diante de seus olhos. Homens traziam comida, mulheres ofereciam seus corpos e crianças doentes eram trazidas até ele, para serem tocadas pelo cotôco do seu polegar e serem curadas. O homem se tornara um santo vivo, havia sido beatificado pelo povo do vilarejo e nunca precisou de consentimento algum das autoridades máximas eclesiásticas que viviam em palacetes de ouro. O seu maior milagre foi sobreviver ao ódio do homem ganancioso, mesmo tendo seu corpo mutilado, tornou possível a salvação daqueles miseráveis que viviam naquele limbo, finalmente se sentiram prontos a galgar a paz de espírito do paraíso.

A vida e a morte continuaram jorrando, assim como a água que até hoje brota daquela gruta, com crotes frondosos ao seu redor, quase coroando o olho d’água. A fé das pessoas de lá não existe mais, porque tudo que restou da vila foram casebres mausoléus. O último morador do vilarejo, também foi o último a chegar. Ele continuou bebendo da água da fonte, embora não tivesse fé na mesma, simplesmente porque ela o fazia viver. Comia frutas e legumes até o dia em que sucumbiu a aquele pequeno pedaço de chão do mundo, localizado entre o trópico de capricórnio e o equador, onde o sol se punha diariamente às 18 horas, preguiçosamente, assim como foram os moradores de Crote Santo, que nunca quiseram viver do mar.

FIM

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