Arquivo para novembro, 2010

RELATO DE UMA ORELHA DECEPADA

Posted in Uncategorized on novembro 14, 2010 by contosdacratera

por Glaucio Fabrizio

Durante muito tempo fiz parte de um complexo sistema auditivo, por quase 35 anos  tive um par stereofonico e fomos cumplices em tudo. Ouvimos estorias sórdidas, palavras sujas, belas melodias, orações pagãs e músicas de qualidade duvidosa. Linguas femininas por mim passaram, assim como contonetes, unhas do dedo mindinho, headphones. Quando muito jovem uma mosca em mim se alojou. Em 3 dias ouvi zumbidos, causei febre e dores à cabeça onde estive presente. Um belo dia a mosca foi expelida mumificada, sêca, um prato não diria indigesto,mas sem sabor para a mais sedenta das aranhas, me senti desta feita um taxidermista.

Na adolescência em que vivi, sofri perfurações em minha porção menos cartilaginosa, não tão radical como alguns aborigenes com beiços esfolados tal qual pratos para lhe servir mandioca e peixe. Já adulto, agulhas silenciosas me perfuraram durante meses em alguma espécie de ritual masoquista medicinal oriental, nunca entendi bem o porque, talvez para controlar a ansiedade. Eram Loucos tempos, bons tempos e alguns bem maus.

Minha parceira sentia inveja daquelas que estavam na cabeça de padres paroquianos, elas de tudo podiam ouvir, pecados e penitências alheias. Penso que as pessoas mentem nos confessionários, ou para se sentirem melhores ou piores. Elas só precisam da misericórdia de algum deus, mesmo que não tenham cometido nenhum pecado. Fodam-se os pecadores, o mundo seria muito melhor se o pecado não fosse inventado para adestrá-los. Preferia estar na cabeça de uma manicure ou então de um psicólogo, esses sim têm boas estorias sacanas para se ouvir.

Ouvi infinitos gritos de gol, uivos de cães na madrugada, gemidos de prazer que ate hoje reverberam em mim, como o mar na concha que um dia ja foi morada de algum molusco. Estórias tristes, como aquela do mendigo que um dia fora muito rico e que agora dormia entre excrementos e comida apodrecidas e os mais psicodélicos contos de fadas, loucas estórias. Certa vez ouvi um uirapuru numa gravação e achei muito belo, reza a lenda que se voce ouvir um uirapuru na floresta voce vira uma arvore ou uma pedra, mentira, acabei de inventar essa lenda.

Poucas juras de amor ouvi em minha vida, embora um pastor da vizinhança sempre gritava que um tal de Jesus me amava, sob qualquer circunstancia, mas nunca ouvi tais palavras diretamente dele, uns diziam que podia se falar com Deus, talvez somente falar, porque ouvir ninguem ouvia, a menos que estivesse entorpecido de alguma substancia alucinogena. Uma garota certa vez falou que me amava, não ouviu uma única palavra em retorno, então tudo que soou foi um choro quase infantil e um barulho de porta batendo.

Cada dia ruim em que vivi, fazia sentido quando no seu final, deitava sobre um confortavel travesseiro e só despertava no dia seguinte, ao som de galos cantando ou barulhos de prédios em construção. A minha vida não era das piores, mas minha sorte mudou no dia em que passei a frequentar lugares que não deveria estar, ouvir coisas que nunca deveria ter ouvido, nomes que jamais poderia ter conhecimento.

Noites atrás, ouvi tiros, gritos, barulho de porta-malas sendo fechado e um choro triste desesperado. Durante horas ouvi socos e pontapés, gritos de suplica do tipo:
– Por favor, não me matem, eu tenho filhos pequenos!
– Voce vai morrer lentamente seu filha da puta! – uma voz abafada, rouca e desconhecida.

Uma musica típica dos anos 70 tocava baixinho num radio de pilha. Entre socos e pontapés, pude ouvir uma arma sendo engatilhada no outro da lado da cabeça, próximo a minha parceira stereofonica. Um tiro sêco e alto foi disparado, subitamente ouvi um zumbido, como a mosca de décadas atras. Ao cessar o zumbido passei a ouvir monofonicamente, havia perdido meu par. Um Barulho de fita adesiva sendo tirada da bobina foi seguido de passos em minha direção. Agora não ouvia o que saia de mim, apenas urros desesperados que só aumentou com o barulho de lâmina sacada da bainha.

Ouvi passos ensaiados ao sabor de uma felicidade cantarolada se aproximar e aumentar automaticamente os urros de desespero. Em seguida um barulho de lamina cortando carne(não era uma lamina silenciosa de sushimen) se misturava com mais urros de desespero e gargalhadas sádicas. Por fim tiros, barulho de serrotes, porta-malas fechando e abrindo, pneus cantando no asfalto e agora cá estou, ouvindo esse assovio sinistro do vento e pássaros cantando ao meu redor. Larvas me devoram lentamente e a terra  vai tremer, ao ouvir pela primeira vez através de mim, como um homem, as dores e os dissabores da vida. FIM

 

PS:  Inspirado nos filmes BLUE VELVET de David Lynch e RESERVOIR DOGS de Tarantino.

 

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