Arquivo para março, 2011

UMA VOZ SEXY DE AEROPORTO

Posted in Uncategorized on março 3, 2011 by contosdacratera

por Glaucio Fabrizio

Anos 80, o país acabava de sair de uma ditadura militar, toda a sociedade queria gozar de uma liberdade desenfreada. Foder nos anos 80, já não era como foder nos anos 60 e 70, surgia uma doença avassaladora e foder desde então, se tornou algo perigoso, como tentar alcançar o topo do Everest, ou como topar o velocímetro a 120 km em um volks ano 73.

Tudo era exagerado nos anos 80, as roupas, o estilo dos vencedores yuppies cheiradores de pó. Todos queriam esquecer logo as décadas passadas. O Futuro, a modernidade era assustadora, com tenis coloridos e cabelos estranhos.

Nos anos 80, não existia internet nem salas de bate-papo. Na verdade computadores eram artefatos somente visto em filmes de espionagem, ou bibelôs de gente muita rica que adorava trazer brinquedos e quinquilharias do estrangeiro, para expor em suas requintadas mesas de escritório e cristaleiras nas salas de estar. Para as pessoas solitárias, restava um serviço de telefonia muito popular chamado DISQUE-AMIZADE. O sistema era muito simples e democrático, qualquer pessoa podia utilizar do serviço, bastava ter um telefone.

Vigilantes noturnos, empregadas domesticas, gays, homens e mulheres casadas, crianças,  todos disputavam palmo a palmo, espaço naquelas linhas cruzadas, onde de tudo se falava e onde todos eram ricos, bonitos e vencedores, apesar da solidão deprimente e constrangedora. Se bem que quando se estivesse deprimido, existia outro serviço, também muito popular  chamado CVV, onde pessoas voluntárias de bom coração e também desocupadas, doavam horas preciosas de sono, dando conselhos a gente prestes a cometer suicidio.

Em uma madrugada quente, tipica da Crater City, a insonia assolava meu juizo, como moscas no rabo de um cachorro sarnento. Já não dormia por mais de duas horas diárias há uns dois meses, carregava um semblante pesado, olheiras negras como olhos roxos de boxeadores perdededores. A solidão também me acompanhava, como um som desafinado de violino. Minha última mulher me largara, deixando pra trás algum voodoo que me impedia de arrumar outra companheira, deve ter enterrado uma calcinha menstruada em algum lugar da casa. Sem muitas opções, resolvi me aventurar no DISQUE-AMIZADE:

– Alô, alguem na linha? – perguntei.
– Voce tem o pau grande? – Perguntou uma voz meio de homem, meio de mulher, com tom anasalado.
– Não, Porque? –  Respondi.
– Deixa pra la querido! – desligou o telefone.

Tambem desliguei o telefone e me sentei a poltrona. Abri uma garrafa de ÄZIA, mamei direto no gargalo a garrafa pela metade enquanto ouvia um disco de CHOPIN, Noturnos número alguma coisa. Resolvi ligar novamente pro DISQUE-AMIZADE:

-Alô, alguem na linha? – repeti umas três vezes a pergunta e nenhuma resposta, o relógio na cozinha marcava 3:45, poucos estavam acordados.
Uma voz de mulher cansada respondeu:
– Oi, sou alguem, mas não tenho andado na linha ultimamente!
-Mesmo? O que tem feito? montou algum tipo de grupo guerrilheiro terrorista? – perguntei ironicamente.
– Não, isto está fora de moda,  com esse maldito calor não tenho usado calcinhas e por mais que tente, não consigo me livrar desse maldito cheiro de buceta suja! – respondeu a moça, com um tom meio rispido.
– Bem, poderia ser pior, seu cu poderia estar com cheiro de buceta e sua buceta com cheiro de cu! – respondi a altura e a  moça sumiu da linha, provavelmente ofendida.

Retornei a garrafa de ÄZIA e ao piano melancolico de CHOPIN, travei idéias, imaginei personagens, escrevi rascunhos de poemas, comecei uma peça teatral, mas nada fazia sentido e a bebida me fez novamente ligar pro DISQUE-AMIZADE, que aquela altura, ja tinha virado um DISQUE-INIMIGOS:
– Alô, alguem insano, solitário e com Hemorróidas na linha? – Perguntei
– Ola, mas que forma simpática de começar uma conversa! – Respondeu logo em seguida  uma voz de mulher sexy, como aquelas que se ouve nos alto falantes de aeroportos.
– Então minha querida, perdida por aqui neste Disque-Baboseira? –
– Sim, não tenho hemorróidas, mas sinto que a solidão me deixou meio maluca, estou bêbada e quero transar –  Respondeu a voz de aeroporto.
– Ora, transar não seria ruim agora, onde voce está minha querida? – perguntei agora de forma angelical.
– Rua Alameda dos Generais, numero 70, é uma casa branca, tem um cipreste na frente, e na garagem há uma mini van com  um decalque escrito “PROPRIEDADE DE JESUS”, pode vir, pule o muro, não há cachorros, estou te esperando!  – Desligou o telefone.

Mas que diabos, aquela rua ficava há poucas quadras. Lembro que sempre passeava com um vira-lata magro e risonho que tive há algum tempo atrás que se chamava Caetano, passeava por aquela rua, caminhando nas madrugadas, fumando um baseado e ouvindo musica no walkman, sempre na companhia alegre de Caetano. Por alguns minutos me perguntei se valeria a pena ir ao encontro daquela voz sexy de aeroporto, ela poderia ser uma psicopata, ou uma velha feia e suja, mas eu estava precisando de sexo e já não estava no auge de minha beleza fisica, na verdade nunca estive. Pensei pouco, tomei uma ducha rápida, pus uma cueca limpa e fui ao encontro da voz sexy de aeroporto.

No meio do caminho fumei um cigarro e em poucos minutos estava na porta da casa dela. Lá estava a casa branca numero 70, lá estava o cipreste, lá estava a mini-van, o muro era  baixo e foi fácil saltar e ter acesso a entrada da casa daquela voz sexy de aeroporto. Antes de bater a porta, me veio a mente que poderia estar sendo vítima de  um trote, a qualquer momento, as luzes podiam se acender  e algum pastor barrigudo com cara de poucos amigos poderia aparecer à porta, empunhando um trabuco carregado de chumbo e dor. Antes que desse a meia volta, a porta se abriu e pude ver finalmente a silhueta da voz sexy de aeroporto. A luz do poste da rua, a iluminou por um momento e pude ver o seu rosto, algumas rugas, uma mecha loira caida sobre a testa. Vestia um hobby de seda com estampas orientais, parecia uma gueixa ocidental decadente bêbada e no cio. Me convidou para entrar, andava elegante apesar da embreagues, me ofereceu um drink que aceitei polidamente, nos sentamos no sofá da sala:

– Como se chama? perguntei
-Insonia e voce? – respondeu com uma voz que soava mais sexy pessoalmente.
-Como assim Insonia? – retruquei.
-Tive  um pai semi-analfabeto e bêbado, me registrou com esse nome, provavelmente deveria me chamar Sonia , mas me chamo Insonia, ando dura, falida, não quero pagar para mudar meu nome – respondeu elegantemente enquanto abria o hobby e deixava a mostra uma de suas tetas de mulher madura, um pouco flácida, branca como leite, com mamilos rosados enrrugados.
– Nossa, voce está com frio neste calor infernal – Comentei enquanto me inclinava lentamente no seu busto, dando  uma leve bitoca, e passando a lingua no biquinho já enrijecido. A impressão que tenho sobre os seios de uma mulher: É algo fenomenal, não tem gosto de nada, mas é muito bom chupar.

No sofá, arrancamos nossas roupas e transamos por horas, o dia amanhecendo, os galos e passarinhos cantando, o barulho de carros na rua e não ficávamos cansados, transamos no sofá, no banheiro, na cozinha, na mesa de jantar, quase tive a impressão de ouvir pessoas caminhando dentro da casa enquanto transávamos, poderia ser os filhos dela, mas não paramos um minuto sequer. Quando nossos corpos não suportaram tamanho esforço, apagamos suados e exaustos. Dormi por quase 15 horas seguidas  e ao acordar estava sozinho na casa. A voz sexy de aeroporto, deixara um bilhete no criado mudo, pedia gentilmente que saísse pelos fundos e não roubasse nada, porém se estivesse com fome, poderia assaltar sua geladeira. Caminhei pela casa, usando o seu hobby de seda, vi alguns retratos, fotos de um militar, provavelmente um marido morto na guerra, gravuras antigas, aquelas fotografias coloridas a mão, uma arte antiga e pouco imaginada nos dias de hoje. Vi um pouco de tv enquanto comia um frango frio com batatas gratinadas que encontrei na geladeira, uma refeição saborosa.

Me senti muito cansado, saí pela porta do fundos, mas não poderia deixar de surrupiar uma garrafa de um vinho italiano que estava na cristaleira da sala. De volta às ruas, cheguei em casa em poucos minutos, tomei uma ducha fria e desabei novamente na cama. Antes de adormecer pensei num SLOGAN perfeito de algum remédio milagroso para falta de sono: “SE VOCE NÃO CONSEGUE DORMIR HÁ SEMANAS, SÓ HÁ UM REMÉDIO: FUDER A INSONIA!”
****FIM****

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