Arquivo para setembro, 2011

LINHA FANTASMA

Posted in Uncategorized on setembro 16, 2011 by contosdacratera

Por Glaucio Fabrizio

Madrugada chuvosa de agosto, ruas vazias, sem bares, sem cães vadios, sem zumbis. A estação também vazia parecia assoviar ao vento uma canção de ninar, entre bancos retorcidos e cartazes de cartomantes, espero exausto por uma condução.
Em um breve intervalo de sono, acordo com o barulho da barca que chega. Sem faróis acesos, sem letreiros de destino, com a porta dianteira aberta. O barqueiro me estendeu suas mãos esqueléticas aguardando pelas moedas da travessia. Perguntei-lhe:
– Passa pela Passarela dos Ciprestes?
– Na ida não, na volta talvez! – respondeu o barqueiro com voz de demônio insone.
Sem escolhas, o talvez me pareceu razoável e embarquei na condução.
– Esse é o horário regular desta linha? Pergunto ao barqueiro.
– Essa linha não existe, é uma Linha Fantasma!
A barca cortava a cidade a toda velocidade, como que desprezando as ondas, os buracos, os cruzamentos. Os semáforos estavam todos abertos, não havia trens, não havia carros. A condução apesar de vazia parecia estar carregada de passageiros, juro que podia ainda sentir o calor no assento onde ocupava, ou então os cabelos perfumados e sedosos de uma loira colegial acariciando minhas mãos no encosto da poltrona. Não podia vê-los, mas podia senti-los. Quase ouvi uma senhora desdentada, com uma criança no colo pedindo dinheiro e adultos se fazendo de criança vestidos de palhaço também pedindo donativos.
Apesar da alta velocidade da barca, a paisagem da cidade que se via pela janela passeava lentamente. Suntuosas vitrines apagadas, letreiros incompletos de neon, escritórios vazios com luzes acesas, provavelmente com seus fantasmas de gola pólo escrevinhando coisas. Nas calçadas, papelões amontoavam sobre mendigos, lembrando covas rasas de retirantes sertanejos, só lhes faltava uma cruz tosca com fitas bentas. Nas esquinas vazias, fantasmas de prostitutas, cegos pedintes, agiotas, estudantes, cafetões, pastoradores de carro, enfim, de milhares de pessoas que se esbarravam já se desculpando uns aos outros.
As fachadas de prédios centenários saltavam vivas do concreto vistas pela janela da barca, a natureza morta, era viva, mas os vivos estavam todos mortos nessa paisagem, até as árvores pareciam mumificadas. No balançar barulhento da embarcação, apenas se via no escuro, as luzes alaranjadas do painel da barca e se ouvia o tilintar do maxilar esquelético do barqueiro. Por onde passava só se via o concreto armado quase respirando vida, prédios, arenas. A barca subia por colinas com habitações, mas tudo aparentava nada mais nada menos que uma verdadeira cidade fantasma.
Bruscamente, o que se via agora na janela era um mausoléu em forma de bosques, resquícios de mata, que na noite sem lua e chuvosa, era apenas um imenso ponto borrado na escuridão. Subindo colinas, descendo ladeiras, em questão de minutos, a barca agora estava adentrando em uma paisagem completamente diferente, formada por uma enorme cadeia de edificações irregulares, ruas esburacadas e empoeiradas, árido e pós-apocalíptico como em um purgatório. Chegando neste ponto o barqueiro avisou:
– Metade da travessia!

Animo-me e tento puxar conversa, mas o barqueiro é silencioso, de difícil comunicação.
– Porra meu relógio parou!
– O tempo é irrelevante! Disparou o barqueiro.
– Mas ele deixa marcas! Complementei.
– O que deixa marcas é noda de caju, sangue de menstruação, bosta na cueca! Responde ríspido depois de cinco minutos o barqueiro rompendo seu silêncio.
– Porra, mas o tempo é muito importante cara, já imaginou se a gente não tivesse hora pra defecar, pra comer, pra dormir, pra foder? Tentei criar o embate.
– Pura pretensão, o homem só faz merda e ainda se gaba!
– É a Ciência cara, é a porra da ciência! – retruquei.
– Não seja ridículo, o tempo é uma péssima criação do homem, assim como Deus. Se o homem fosse mais esperto, teria feito os segundos mais longos, tornando dessa forma mais longo o tempo, mesmo que isso seja um tremendo engodo.
– Nisso você tem razão! Como estava sem argumentação, concordei pra finalizar a conversa.
Depois de uma longa jornada, a barca finalmente parou na Passarela dos Ciprestes, agradeci ao barqueiro e saltei na parada. Antes que me virasse para avistá-la pela ultima vez, ela havia sumido com os primeiros raios de sol que surgia no horizonte. Minutos caminhando até chegar e ser recepcionado pelo porteiro do meu prédio, que quase vivo e sorridente, com os olhos ainda inchados de dormir, disse:
– Seu time perdeu de Seis!!
Acendi um cigarro já imaginando como seria esse dia que começava. Olhei pro meu relógio e vi que funcionava, marcava 05h50min. Será que o tempo esteve parado durante a travessia? Talvez o barqueiro tivesse razão, é provável que o tempo seja realmente irrelevante, pelo menos quando se está a bordo da Linha Fantasma.

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