Arquivo para novembro, 2011

AMOR SOB SILVOS DE BALA

Posted in Uncategorized on novembro 20, 2011 by contosdacratera

Por Glaucio Fabrizio

Queda na bolsa, stress, hipertensão, hemorróidas, gonorréia, café e cigarros em excesso, álcool, drogas ilícitas ou não, são motivos aparentes e inquestionáveis que podem causar insônia e conseqüentemente, loucura para qualquer homem, mas não era isso que fazia Adam Capersky ficar acordado durante semanas. Além da insônia, Adam não conseguia se alimentar direito, não tinha ânimo para atividades cotidianas desde que fora reformado e voltara do Front.

Esforçava-se apenas para levantar até a geladeira e catar alguma garrafa cheia, quando só restavam as vazias, telefonava e um garoto negro do armazém da esquina as trazia, às vezes trazia comida também. Já havia se passado seis meses desde o seu retorno, Capersky talvez tenha saído umas duas vezes de seu apartamento. No inicio, uma vez por semana alguém do serviço social lhe visitava, depois de três meses, não voltaram mais. Esporadicamente, um vizinho junkie, amigo de infância, aparecia com jornais, com noticias e chapações. Passava minutos falando sobre musica, sobre cinema, sobre sexo, sobre a loucura do mundo pós moderno, mas falava sozinho, como que se dirigisse a palavra a uma parede. Capersky não conversava:

– Caralho Dam, você precisa comer uma buceta urgentemente! – Exclamou o amigo Junkie.

– Tu fica ai, sentadão nessa poltrona, olhando pro nada, enchendo o cu de cana, porra mermão, assim tu vai enlouquecer cara, vai por mim, procura o telefone de uma puta nos classificados e mande ver, estou cansando de vir aqui e sempre te encontrar aqui com essa cara de bunda –

O que seu amigo Junkie não sabia, ou fingia não saber, é que a loucura já havia dominado Adam. Em dois anos de serviços prestados, ver amigos morrendo embaixo do seu nariz era algo do cotidiano, assim como peidar e assoviar. Capersky fora treinado para matar, fuzileiro de primeira linha, só não se tornara da elite por não ter sangue azul. Montava rifles a mesma velocidade que degolava um inimigo usando apenas uma caneta esferográfica.

Quando o corpo não suportava o cansaço de semanas, Capersky adormecia sentado na poltrona. Um sono curto suficiente para ter sempre o mesmo sonho: Uma bela paisagem, campos verdes sumindo de vista no horizonte marcado por uma colina, borboletas multicoloridas, extasiado, Adam fechava os olhos, jogava a mochila e o fuzil no chão, tirava as botas, sentia a relva úmida entre os dedos dos pés, e corria pelo campo ao som de BACH, como nos tempos de criança apostava consigo mesmo quem chegaria primeiro ao topo da colina. Quando chegava ao topo, o que via abaixo era uma paisagem formada de fogo, sangue e corpos em frangalhos. Nuvens negras de urubus, e um zumbido infernal de moscas varejeiras que nesse momento, o fazia acordar. Mesmo depois de acordado, aquele zumbido continuava atormentando, diminuía um pouco quando tomava uns tragos e se embebedava.

Certa noite, ao abrir uma garrafa de cerveja, o zumbido cessou em um ouvido. Na verdade, seu ouvido parara de funcionar. Depois de muito tempo, algo como ficar surdo tirou Capersky do serio, era só o que lhe faltava, alem de louco, surdo de um ouvido. Monofônico e pensativo, idéias invadiram sua mente naquele instante. Procurou uma caneta esferográfica para escrever uma carta de suicida, mas antes parou para pensar e tentou se lembrar a origem dos zumbidos que aparentemente era a origem de toda a sua loucura. É bem verdade que teve medo de lembrar, antes de dá cabo de sua própria vida, vestiu seu uniforme de gala e bebeu o suficiente para desmaiar meio que em coma alcoólico e ter um sonho diferente e revelador:

A terra tremia a cada explosão fora daquela barraca de campanha, iluminando o corpo nu de uma jovem ninfeta de longa cabeleira preta e lisa, assim como seus pêlos pubianos. Deitada sobre o saco de dormir abrindo as pernas ela o chamava sensualmente com o dedo indicador. Capersky abriu o zíper e a penetrou a seco, os gritos da jovem se confundia com as explosões lá fora, quase ao atingir o orgasmo, um morteiro acertou a barraca, jogando Capersky e a jovem garota metros de distância. Atordoado, com o pau fora da calça, Carpersky tinha em seus braços o tronco sem as pernas e sem um braço da jovem meretriz de caserna, um cadáver fresco, que parecia estar morto há horas pela aparência mutilada. Antes de acordar, Capersky quase pôde jurar que o cadáver da moça sussurrava algo, mas o zumbido era alto demais para compreender alguém gritando, imagine, sussurrando.

Ao acordar, ao invés de abrir mais uma garrafa, Capersky fitou durante horas a capa de uma revista masculina onde uma bela loira exibia seios colossais que desafiavam as leis da gravidade. Levou muito tempo ate se levantar e observar da janela os carros, que apesar de bombas e massacres estourando mundo afora, continuam buzinando e poluindo nas ruas da Crater City. Alguns homens acreditam que carros além de abrir portas, abrem pernas, abre um leque de possibilidades.

Sobre a mesa, jazia um jornal aberto nos classificados, com vários anuncios marcados de caneta vermelha com elipses imperfeitas na sessão de relax e acompanhantes, um anuncio lhe chamou a atenção:

SEXO ESPECIAL com mulheres mutiladas, albinas, anões e hermafroditas. Para pessoas especiais. 84 9999 0999 – tratar com Mefistoles.

Depois de um longo tempo adormecido em seu trauma, Adam Capersky ansioso  sentiu fome de viver, sentiu fome de amar. Acordou do sono dos injustos, para o mundo dos insanos conscientes, assim como os poetas fanfarrões e musicos fracassados de um só sucesso.

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