Arquivo para março, 2012

OSWALD À CABIDELA

Posted in Uncategorized on março 22, 2012 by contosdacratera

Por Glaucio Fabrizio

Quando foi parida numa madrugada abafada de janeiro, Lucinda, sua mãe, jamais imaginou que hábitos estranhos teria sua então recém-nascida filha, Lucíola. Ainda muito jovem, adorava amarrar barbantes nas pontas dos dedos  e exibir suas falangetas roxas de falta de sangue, não demorava e Lucinda sua mãe berrava:

– Menina, deixa de traquinagem, isso ofende!

Na rua, aos 9, descobriu o “sexo”, primeiro ouvindo escondida o que conversava os garotos maiores com suas revistas pornográficas e comentários de  quem tinha comido quem, depois fazendo enxerimento, brincando de casinha, onde apesar dela ser a “filha”, sentava no colo do “pai” que fingia beber cerveja numa garrafa vazia apalpando suas partes intimas. Também brincava de medico, aquele papo de pega no meu que eu pego seu. Demorou pra entender do que se tratava esse tipo de “comer”, com certeza não tinha nada a ver com a sopa de feijão que ela comia nas terças. Nem mesmo com a galinha cabidela dos domingos, que seu avó dizia levantar até o pau do Silvio Santos e que curava todo tipo de milacria . Era considerada uma receita afrodisíaca e medicinal, uma herança de várias gerações da família. Não existiam soluções azuis em capsulas na época. Comentava sempre a mesa depois de tomar umas zinebras:

– As pessoas precisam ter cuidado com o que comem, quando eu tinha 13 anos comi um pedaço de bolo de milho e fui bater uma sola, quase desmaio, aff maria do bolo forte!

– Mas que conversa feia pai! – repreendia Lucinda.

– Sola de sapato vovô? – perguntava docilmente Lucíola.

– Não abestada, sola de bronha! – e o velho cabido bêbado dava uma gargalhada desdentada deixando sua neta sem entender nada.

 Sua confusão aumentou na adolescência, quando Lucia entre outras amigas do colégio, comentavam quem iriam “comer” nas festas do mês junho.

– como assim? Quem comem não são os garotos? Perguntava a inocente Lucíola.

– Claro que não bobinha, come quem engole a linguiça! Respondia sua amiga mais experiente no assunto.

Desde cedo aprendeu a cozinhar com sua mãe, sabia preparar carnes como ninguém, principalmente a galinha à cabidela dos domingos. Quando  se apaixonou pela literatura,  prestou vestibular aos 17 e se mudou para capital, longe de casa e dos cuidados sempre excessivos da mãe protetora, já era quase uma mulher feita e prendada.

Na primeira aula de Historia da Literatura Moderna delirou e sentiu um frenesi entre as pernas ao ler o manifesto antropofágico de Oswald de Andrade. Sentiu sua carne, não como uma reles existência divina, mas como uma carne fresca apimentada e quente, esquentando sua goela e fazendo suar entre os seios e virilhas, como se bebesse de um único gole, uma taça de vinho do porto. Abandonou o livrinho de pensamentos cristãos e toda noite antes de dormir, molhava os lençóis com lascívia ao ler  o manifesto.

Fantasiou durante meses, como seria ter Oswald para si,  o devorando, mastigando suas temporas, seus lábios e cabelos, segurando entre as pernas, uma foto em preto de branco do próprio, arrancada e surrupiada de um livro da biblioteca por ela. Doce Lucíola.

Eis que numa tarde cinzenta de maio, Junio Mcbeth, colega aristocrata da turma de Literatura Africana, a convidou para um ciclo de estudos, em seu apartamento, num sábado à noite. Lucíola aceitou com entusiasmo, pois já vinha notando em sua fisionomia, uma certa aparência com o seu amado Oswald.

Já no apartamento aconchegante Junio lhe ofereceu uma bebida, prontamente recusada por Lucíola, que não tinha vícios, alem da masturbação literária diária antes de dormir. Tomou um suco de laranja com gosto estranho. Minutos depois sentiu um mal estar e logo em seguida não conseguia se mover, nem falar e caiu prostrada no sofá. Apesar de não sentir o seu corpo, Lucíola estava consciente ao ver ser carregada ate o quarto por Junio e jogada em sua cama. Viu quando ele a despiu e se despiu, cuspiu em sua genitália e a penetrou com força.

– vou te comer sua vagabunda! – grunhia com os dentes cerrados junio enquanto penetrava a pobre donzela indefesa. equivocadamente achava que a comia, mas Lucíola sabia quem estava comendo quem.

Completamente entorpecida, não sentiu nem mesmo quando foi penetrada por trás, apenas ouviu o barulho da cama batendo na parede e os gemidos do facínora. Depois de um longo gozo barulhento, Junio procurou alguns trocados para comprar cigarro na bolsa de Luciola  onde encontrou a foto do Oswald e o manifesto antropofágico.

– Isso não é literatura, isso é lixo! – gritou o maldito estuprador limpando o seu penis de sangue e sêmen –  Tome e se limpe sua porca – disse Junio.

– Vou sair para comprar cigarro, o efeito da droga vai passar em meia hora, quando voltar não quero te ver aqui e se contar para alguém, te mato, mas antes mato sua mãe, entendeu sua vadia? – ameaçou Junio  enquanto se vestia.

Ouviu a porta bater ao fechar ficando enclausurada, traumatizada e ensandecida de olhos vidrados. Lentamente foi recuperando os sentidos e a dor que vinha de seu sexo violado. Lucíola sentia dor, mas sentia um ódio mortal sobre aquele que não somente a humilhou,  sentia mais dor pela humilhação sofrida por seu amado Oswald. Ao retornar a seu apartamento, Junio não pode fazer nada ao ser surpreendido com uma facada em sua garganta que de pronto o impediu de gritar, rapidamente foi degolado, teve seu corpo arrastado ate o banheiro, Lucíola colocou sua cabeça na banheira numa sangria, o temperou e comeu como uma galinha cabidela, não sentiu tesão, apenas se deliciou com o  sabor da vingança com coentro e pimenta.

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