Arquivo para abril, 2012

O FABULOSO COLECIONADOR DE SORRISOS

Posted in Uncategorized on abril 30, 2012 by contosdacratera

                                                               

                                                                                                                                                                   Por Glaucio Fabrizio

Numa madrugada febril de janeiro, no andar de cima, uma velha cama de molas rangia a deriva num mar de desejos. Um piso abaixo, náufrago solitário se encontrava Jeremias Cobblepot, excêntrico colecionador. Algumas pessoas colecionavam selos, outras discos de vinil, já vi quem colecionasse calcinhas, latas de cervejas de toda parte do mundo, porém o Sr. Cobblepot colecionava sorrisos.

Tudo começou ainda criança, quando levaram Jeremias pela primeira vez ao cinema. A película em cartaz se tratava de uma das mais psicodélicas animações já feitas, baseado na obra de Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas. Diante da gigantesca tela, o menino Jeremias se desmanchava em novas sensações. Divertiu-se com o coelho branco apressado e sempre atrasado, se assustou com o exercito de baralho e sua dama de copas, não menos com o chapeleiro maluco e com a centopeia junkie.

Entretanto o mais marcante lhe ocorreu no instante em que viu o intrigante e enorme sorriso do gato de Alice pairando no ar maliciosamente. Uma nova sensação física que consistia numa espécie de faísca ou energia, que começava na nuca, descendo coluna abaixo como rastro de pólvora ate o cóccix, condensando como no inicio dos tempos, em seguida explodindo num big bang em seus bagos, criando uma mágica ereção. Aquela cena sem duvida marcou para sempre a vida de Jeremias.

Em sua adolescência, deveras tímido, passava horas em seu quarto recortando sorrisos de revistas e catalogando em diários, criando universos imagináveis e seus big bangs. Mais crescido, Jeremias já tinha certeza sobre o seu futuro. Desta forma partiu para capital no intuito de estudar odontologia e se formar cirurgião dentista. Sua Sagrada missão na vida seria: criar e cuidar dos mais belos sorrisos do mundo.

Aluno brilhante se destacava entre os melhores da turma nos primeiros anos da faculdade, teria sido laureado caso sua paixão avassaladora por sorrisos não se tornasse sua principal inimiga em determinado momento. Sucumbiu fisicamente ao se deparar pela primeira vez com sorrisos reais, diferentemente daqueles dos papeis, alem dos já conhecidos big bangs, Jeremias teve espasmos involuntários e incontroláveis ereções animalescas que o levaram a uma poderosa e demorada ejaculação digna de um leão marinho, impossibilitando-o desta forma no manuseio de materiais cirúrgicos e consequentemente acabando com o seu sonho de ser dentista.

Como se não bastasse ser um exímio conhecedor de arcadas dentarias, Jeremias possuía uma memória visual magnífica, logo conseguiu um emprego no Instituto Medico Forense e pôde pelo menos continuar trabalhando em algo que lhe apetecia. Nesta época sua coleção passou a se tornar um problema, uma perigosa e doentia obsessão.  Nos primeiros anos, Cobblepot se dedicou em aprender a técnica arte do embalsamamento. Seus diários com as fotos de sorrisos aos poucos foram sendo substituídas por prateleiras secretas atrás das paredes que abrigavam vidros com sorrisos em conserva. Cobblepot os extraia com maestria primeiramente de cadáveres, com cortes pouco abaixo do nariz ate a mandíbula. Inicialmente trabalhava esculpindo os sorrisos que lhe causava certa frustração, pois geralmente os resultados não eram como esperado, com sorrisos amarelos, falsos, como aqueles que se faz em poses de fotografias de viagem. Os sorrisos tinham de sair de forma mais natural, sua extração deveria ser feita em espécimes vivos. Assim, Jeremias desenvolveu uma espécie de soro narcótico que primeiro causava uma crise de risos e depois numa paralisia facial mantendo o sorriso congelado pronto para extração. Como um predador insaciável, Cobblepot seduziu e atraiu dezenas de mulheres para lugares ermos, onde inoculava o seu soro magnífico e extirpava os seus sorrisos, as deixando morrer ao léu. Os locais escolhidos geralmente eram de difícil acesso, jamais foram encontrados os corpos e nas ruas, cartazes com fotos de mulheres desaparecidas aumentavam e tatuavam os muros, postes e paradas de ônibus de toda a metrópole.

À medida que sua coleção aumentava, também crescia sua obsessão. Sorrisos de negras, loiras, ruivas, orientais, com ou sem aparelhos, com piercings, dente de ouro, lábios grossos ou finos, bocas pequenas, grandes, medias, todas pareciam iguais. Seu olhar metódico doentio não os diferenciava até o dia que no cinema, assim como na primeira vez um sorriso mudara sua vida.

O filme em questão era CONFISSÕES DE UMA MENTE PERIGOSA, a dona do sorriso era a atriz hollywoodiana Julia Roberts. Um enorme,  gigante e reluzente sorriso. Além do já conhecido big bang nos bagos, Jeremias como se tivesse deparado com um sorriso real da época da faculdade, ejaculou, peidou, vomitou e saiu todo cagado e mijado da sala do cinema, tamanho fora o êxtase em ver tal sorriso na tela. Aquele turbilhão de sensações atormentava ainda mais a mente doentia do exótico colecionador. Ele tinha a absoluta certeza, que todos aqueles anos dedicados a sua preciosa coleção bizarra não faria sentido algum caso ele não tivesse somente para ele aquele sorriso.

Enquanto isso, no andar de cima, uma velha cama de molas rangia a deriva, agora numa violenta tempestade de lascívia, no andar de baixo, náufrago e solitário, Jeremias Cobblepot arquitetava o mais ambicioso plano de sua vida: completar sua coleção e extirpar o megalomaníaco sorriso de uma espiã hollywoodiana em um filme alternativo.

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