Arquivo para novembro, 2012

CANUDOS RIGOR MORTIS: Milagres, a vila fantasma

Posted in Uncategorized on novembro 26, 2012 by contosdacratera

Image

 Por Glaucio Fabrizio                                                    

“Dias longos e noites sem fim. Parece que alguém andou mexendo nas engrenagens da terra, la embaixo alterando o curso do tempo. Pode ter sido assim que mataram o último seguidor de Conselheiro em Belo Monte, diz as más línguas que foi um velho, já outro dia  lá na budega, duas beatas fofocavam dizendo ser uma criança o derradeiro a cair. Ninguém sabe ao certo o que se passou por la, mas as coisas andam muito esquistas.

Já foram batedores pra trazer noticias e ate agora nada, nem mesmo a ultima infantaria que foi enviada pra engolir de vez  os flagelados de canudos voltaram. Rumores da morte do Conselheiro já circulam há dias, mas tudo que se vê ao longe é uma enorme língua de fumaça negra cortando o horizonte. Se tudo que dizem for verdade, pelo menos umas vinte mil pessoas sucumbiram, a terra que já era ruim, deve ter morrido de vez com a podridão. Bem que aquela nuvem preta podia ser de urubus ou então um temporal, mas não chove por aqui há meses e ultimamente não se avista pássaros voando nas redondezas.

Estou enfurnado aqui nesse fim de mundo esperando Capitão Laurentino e seu grupo expedicionário. O vilarejo se chama Milagres, uns vinte moradores e muitas casas abandonadas, parte virou retirante pra capital, parte se juntou a Conselheiro, com sua terra prometida onde os rios eram de leite e as pedras de pão. Fui enviado entre várias divisões de infantaria e uma comitiva de especialistas mineradores para estudar a região. A esperança era de que poderia ter ouro por essas bandas, mas  parece que essa maldita terra num serve pra nada, nem mesmo pra enterrar seus mortos, só tem pedra e um sol que cozinha os miolos dentro da muleira. Todos os outros  já se foram,  menos eu, aqui há quase um ano e meio, sozinho e sem noticia do capitão.

Pra vida fazer sentido por aqui (sem cabaré, sem mulheres, sem sexo) só com muita cachaça pra anestesiar a sanidade. A noticia ruim é que com o tempo, a cana te corrói  por dentro, não sobra nada, nem mesmo a alma. Perto de morrer, diz que o cidadão passa a ter visagens, alucinações. O que vi ontem a noite não foi  visagem, gozo de uma saúde de ferro, forte como um jumento, mas isso não significa que a morte esteja distante. Numa carraspana, resolvi caminhar a noitinha pelo silencioso vilarejo. Ao me aproximar dos fundos da igreja, vi o que parecia ser uma das beatas fofoqueiras devorando com selvageria um cachorro, tinha certeza que era a senhora, quando criança me contaram estorias de malossombro sobre lobisomens, mulas-sem-cabeça, mas uma velhinha se portando como um monstro me pareceu muito mais aterrorizador. Ao sentir minha presença, posso jurar que a vi farejando o ar, largou o cachorro e lentamente veio em minha direção. Senti um calafrio que me partiu da nuca, desceu pela minha coluna, passou pelo rêgo e como um gatilho fez minhas pernas correr feito loucas, o pé batia na bunda, corri ate o alojamento e me tranquei. Vi pelas frestas da parede de barro a velha beata cambaleando nos arredores durante toda a noite. Já amanhecendo vi que outros moradores da vila tinham se acometido do mesmo mal da velha beata, ficaram zanzando em frente do alojamento. Tenho comida e água pra pelo menos dois dias, uma pistola e pouca munição.  Tentei traçar um plano de fuga, mas a casa estava cercada. Pela fresta da janela que dava pelos fundos vi umas 15 pessoas comendo o meu cavalo  na baia me deixando sem opções. Era uma fome que parecia não ter fim. Quando terminaram com o cavalo partiram pra cima do alojamento sem cessar. As frágeis paredes de barro da construção aos poucos é vencida pela insistência dos  demônios. Logo se via braços apodrecidos entrando pelos buracos da parede. Urrando  desesperados de fome, muito barulho, muito fedor. Não sei quanto tempo mais as paredes vão suportar. Peço um grande favor a quem possa encontrar esta carta. Na capital, no cabaré de Lurdes Rouca, uma moça chamada Tulipa faz a vida, avisem a ela sobre o meu fim, digam que ela foi a única pessoa que me restou em pensamento nesses últimos meses, descobri que a amo e sempre a amarei, quanto ao Capitão Laurentino, se não tiver sido acometido pelo mal dos demais, que o diabo cuide bem da sua alma .” Assinado  BARTOLOMEU SILVA

 – Tulipa, fez a alegria de quase todo contingente – Disse Tenente Gerôncio, dobrando a carta que acabara de ler, a guardando em seguida no bolso de dentro da pesada casaca de couro.

–  O que diz a carta? Perguntou um dos cabras postado de pé na  porta.

– Coisas ruins, ele esperava pelo capitão – respondeu Gerôncio de cocoras chafurdando com a ponta de uma faca o que restou de Bartolomeu, um amontado de pele, ossos e sangue, onde ele encontrou a carta e uma pistola descarregada.

– Esse lugar tá morto, vâmo se embora daqui – Ordenou o tenente, enquanto  levantava e dava uma cusparada de nojo.

Encontrou no lado de fora o resto do grupo, vasculharam as casas em busca de sobreviventes e mantimentos, mas nada encontraram naquela vila fantasma. Os rastros desordenados apontavam para todos os lados. De pronto rumaram pra onde apontava a fumaça em Belo Monte, um grupo de oitos cabras bem armados, com suas armas rusticas pesadas potentes.  Não demoraram a sumir no horizonte, entre aquela poeira  do sertão avermelhada que subia como rastro, as vezes como chumbo, as vezes como sangue.

fonte da Imagem: http://cearaemfotos.blogspot.com.br

         

Anúncios

CANUDOS RIGOR MORTIS: Morta-Viva Severina

Posted in Uncategorized on novembro 14, 2012 by contosdacratera

Image

                                                                                                                  Por Glaucio Fabrizio

Raimunda era analfabeta, não sabia muita coisa, não sabia sua idade, não sabia contar dinheiro, não sabia quem era Chopin, muito menos que existia um país chamado Polonia. Sem sobrenome era nascida Raimunda de Malaquias, seu pai ou  Raimunda de Zulmira, sua mãe.

Enterrou dois de seus filhos recentemente, primeiro Joaquim picado por uma jararaca daquelas que quando não mata, aleija e depois Josué que morreu de caganeira aguda. Restou a caçula de 17 anos, Severina que se encontrava moribunda queimando em febre, apodrecendo numa rede suja, rede esta que provavelmente seria seu proprio ataúde. Assim como os irmãos, teria uma cova rasa com um cruzeiro tosco feito de marmeleiro, infelizmente isso era uma das poucas coisas que realmente Raimunda sabia nessa vida.

Há quatro dias e quatro noites, seu marido Sebastião partira pras bandas de Belo Monte em busca de comida e medicamentos. Desde então, Raimunda se entocaiava nas veredas com uma velha bate-bucha enferrujada ate o talo de polvora e chumbo. Indo de fojo em fojo na esperança de encontrar um preá ou peba que por ventura pudesse ter caido na armadilha. Pedia a Deus pela caça pra poder interar com a pouca farinha e rapadura que ainda restava nos alforges, mas nada tinha, nenhum passarinho, nenhum calango qualquer.

Logo que cessaram as bombas e clarões que se via a noite ao longo do horizonte, rumo ao imenso povado de Conselheiro em Belo Monte, as coisas mudaram naquele pedaço de chão do sertão. Não que antes fosse facil viver ali, porem nos ultimos quinze dias tudo piorou. Sem os filhos, com uma filha a beira da morte, sem caça, sem comida, sem chuva, sem o marido, ela fazia o que podia. Fervia há dias o mesmo corredor de boi com a agua barrenta que restava nos potes, pra poder dá um gostinho no ralo pirão mechido, mais fraco que caldo de bila. A sua vida so era doce quando chupava, desdentada, um naco de rapadura batida.

O calor no sertão era intenso, seja de dia, seja de noite, mas nem sempre foi assim. Ate pouco tempo, a agua que ficava na quartinha a noite pegando sereno, amanhecia fresquinha, assim como a agua do pote, da cacimba. Agora o calor parecia evaporar toda a agua que existia, inclusive o juizo da pobre sertaneja. A caatinga parecia estar mais morta do que nunca.  Durante o dia não se escutava o canto dos passarinhos porque todos tinham sumido. Não tinha canario velame, não tinha galo de campina, nem rolinha, nem o colorido do concriz pra enfeitar a mata branca e seca. Tudo cheirava a morte, tudo cheirava a Severina, miuda sem tetas, nem parecia que era mulher feita, apenas um farrapo humano.

Naquela que parecia ser a ultima madrugada de sua filha, Raimunda rezava aos ceus velando seu sono com compressas e mandingas tentando lhe diminuir a febre. Severina delirava, gemia, gritava, chorava, o escambau e Raimunda:

– Me acuda Jesus de Nazaré, cadê tião com os remedio?

De repente Severina fitou nos olhos da mãe, parecia acalmar, cessar a dor, aquele rosto roto como trapo aos poucos foi lembrando a criança que um dia foi. No ultimo suspiro arregalou os olhos em direção ao nada, meio que pensando na morte da bezerra  e assim partiu. Raimunda calmamente cobriu o rosto do cadaver. Levantou-se em busca da pá pra cavar a cova e enterrar sua filha, quando  se deparou com os cadaveres de seus filhos Joaquim e Josué caminhando tropegamente vindo em direção a porta aberta.

– Sangue de Cristo tem poder!!! É o inferno na terra?! – gritou Raimunda correndo pra tentar fechar a porta a tempo, mas não conseguiu, alcançou a bate-bucha e atirou certeiramente na cara de Joaquim com estrago suficiente para derruba-lo, rapidamente sacou do cabo da arma polvora e chumbo, quando estava socando pro proximo tiro, Josué lhe alcançou mordendo o pescoço arrancando um imenso naco de cangote. Ali Raimunda foi abatida, logo Joaquim se pos novamente de pé e tambem veio em sua direção lhe comendo pela barriga. De sua retina se viu por ultimo o reflexo da Morta-Viva Severina posta de pé cambaleando, os olhos quase azulados, vindo em sua direção  lhe comendo pelos olhos. Quando o gas da lamparina acabou não restava nada de Raimunda. Os mortos acordaram famintos em toda a parte do sertão,  era o fim do fastio, era o inicio do fim. A parte que te cabe neste latifundio chamado fome.

TRILHA SONORA INDICADA PRA LEITURA : MESSER CHUPS – ZOMBIE SHOPPING