CANUDOS RIGOR MORTIS: Morta-Viva Severina

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                                                                                                                  Por Glaucio Fabrizio

Raimunda era analfabeta, não sabia muita coisa, não sabia sua idade, não sabia contar dinheiro, não sabia quem era Chopin, muito menos que existia um país chamado Polonia. Sem sobrenome era nascida Raimunda de Malaquias, seu pai ou  Raimunda de Zulmira, sua mãe.

Enterrou dois de seus filhos recentemente, primeiro Joaquim picado por uma jararaca daquelas que quando não mata, aleija e depois Josué que morreu de caganeira aguda. Restou a caçula de 17 anos, Severina que se encontrava moribunda queimando em febre, apodrecendo numa rede suja, rede esta que provavelmente seria seu proprio ataúde. Assim como os irmãos, teria uma cova rasa com um cruzeiro tosco feito de marmeleiro, infelizmente isso era uma das poucas coisas que realmente Raimunda sabia nessa vida.

Há quatro dias e quatro noites, seu marido Sebastião partira pras bandas de Belo Monte em busca de comida e medicamentos. Desde então, Raimunda se entocaiava nas veredas com uma velha bate-bucha enferrujada ate o talo de polvora e chumbo. Indo de fojo em fojo na esperança de encontrar um preá ou peba que por ventura pudesse ter caido na armadilha. Pedia a Deus pela caça pra poder interar com a pouca farinha e rapadura que ainda restava nos alforges, mas nada tinha, nenhum passarinho, nenhum calango qualquer.

Logo que cessaram as bombas e clarões que se via a noite ao longo do horizonte, rumo ao imenso povado de Conselheiro em Belo Monte, as coisas mudaram naquele pedaço de chão do sertão. Não que antes fosse facil viver ali, porem nos ultimos quinze dias tudo piorou. Sem os filhos, com uma filha a beira da morte, sem caça, sem comida, sem chuva, sem o marido, ela fazia o que podia. Fervia há dias o mesmo corredor de boi com a agua barrenta que restava nos potes, pra poder dá um gostinho no ralo pirão mechido, mais fraco que caldo de bila. A sua vida so era doce quando chupava, desdentada, um naco de rapadura batida.

O calor no sertão era intenso, seja de dia, seja de noite, mas nem sempre foi assim. Ate pouco tempo, a agua que ficava na quartinha a noite pegando sereno, amanhecia fresquinha, assim como a agua do pote, da cacimba. Agora o calor parecia evaporar toda a agua que existia, inclusive o juizo da pobre sertaneja. A caatinga parecia estar mais morta do que nunca.  Durante o dia não se escutava o canto dos passarinhos porque todos tinham sumido. Não tinha canario velame, não tinha galo de campina, nem rolinha, nem o colorido do concriz pra enfeitar a mata branca e seca. Tudo cheirava a morte, tudo cheirava a Severina, miuda sem tetas, nem parecia que era mulher feita, apenas um farrapo humano.

Naquela que parecia ser a ultima madrugada de sua filha, Raimunda rezava aos ceus velando seu sono com compressas e mandingas tentando lhe diminuir a febre. Severina delirava, gemia, gritava, chorava, o escambau e Raimunda:

– Me acuda Jesus de Nazaré, cadê tião com os remedio?

De repente Severina fitou nos olhos da mãe, parecia acalmar, cessar a dor, aquele rosto roto como trapo aos poucos foi lembrando a criança que um dia foi. No ultimo suspiro arregalou os olhos em direção ao nada, meio que pensando na morte da bezerra  e assim partiu. Raimunda calmamente cobriu o rosto do cadaver. Levantou-se em busca da pá pra cavar a cova e enterrar sua filha, quando  se deparou com os cadaveres de seus filhos Joaquim e Josué caminhando tropegamente vindo em direção a porta aberta.

– Sangue de Cristo tem poder!!! É o inferno na terra?! – gritou Raimunda correndo pra tentar fechar a porta a tempo, mas não conseguiu, alcançou a bate-bucha e atirou certeiramente na cara de Joaquim com estrago suficiente para derruba-lo, rapidamente sacou do cabo da arma polvora e chumbo, quando estava socando pro proximo tiro, Josué lhe alcançou mordendo o pescoço arrancando um imenso naco de cangote. Ali Raimunda foi abatida, logo Joaquim se pos novamente de pé e tambem veio em sua direção lhe comendo pela barriga. De sua retina se viu por ultimo o reflexo da Morta-Viva Severina posta de pé cambaleando, os olhos quase azulados, vindo em sua direção  lhe comendo pelos olhos. Quando o gas da lamparina acabou não restava nada de Raimunda. Os mortos acordaram famintos em toda a parte do sertão,  era o fim do fastio, era o inicio do fim. A parte que te cabe neste latifundio chamado fome.

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