CANUDOS RIGOR MORTIS: Milagres, a vila fantasma

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 Por Glaucio Fabrizio                                                    

“Dias longos e noites sem fim. Parece que alguém andou mexendo nas engrenagens da terra, la embaixo alterando o curso do tempo. Pode ter sido assim que mataram o último seguidor de Conselheiro em Belo Monte, diz as más línguas que foi um velho, já outro dia  lá na budega, duas beatas fofocavam dizendo ser uma criança o derradeiro a cair. Ninguém sabe ao certo o que se passou por la, mas as coisas andam muito esquistas.

Já foram batedores pra trazer noticias e ate agora nada, nem mesmo a ultima infantaria que foi enviada pra engolir de vez  os flagelados de canudos voltaram. Rumores da morte do Conselheiro já circulam há dias, mas tudo que se vê ao longe é uma enorme língua de fumaça negra cortando o horizonte. Se tudo que dizem for verdade, pelo menos umas vinte mil pessoas sucumbiram, a terra que já era ruim, deve ter morrido de vez com a podridão. Bem que aquela nuvem preta podia ser de urubus ou então um temporal, mas não chove por aqui há meses e ultimamente não se avista pássaros voando nas redondezas.

Estou enfurnado aqui nesse fim de mundo esperando Capitão Laurentino e seu grupo expedicionário. O vilarejo se chama Milagres, uns vinte moradores e muitas casas abandonadas, parte virou retirante pra capital, parte se juntou a Conselheiro, com sua terra prometida onde os rios eram de leite e as pedras de pão. Fui enviado entre várias divisões de infantaria e uma comitiva de especialistas mineradores para estudar a região. A esperança era de que poderia ter ouro por essas bandas, mas  parece que essa maldita terra num serve pra nada, nem mesmo pra enterrar seus mortos, só tem pedra e um sol que cozinha os miolos dentro da muleira. Todos os outros  já se foram,  menos eu, aqui há quase um ano e meio, sozinho e sem noticia do capitão.

Pra vida fazer sentido por aqui (sem cabaré, sem mulheres, sem sexo) só com muita cachaça pra anestesiar a sanidade. A noticia ruim é que com o tempo, a cana te corrói  por dentro, não sobra nada, nem mesmo a alma. Perto de morrer, diz que o cidadão passa a ter visagens, alucinações. O que vi ontem a noite não foi  visagem, gozo de uma saúde de ferro, forte como um jumento, mas isso não significa que a morte esteja distante. Numa carraspana, resolvi caminhar a noitinha pelo silencioso vilarejo. Ao me aproximar dos fundos da igreja, vi o que parecia ser uma das beatas fofoqueiras devorando com selvageria um cachorro, tinha certeza que era a senhora, quando criança me contaram estorias de malossombro sobre lobisomens, mulas-sem-cabeça, mas uma velhinha se portando como um monstro me pareceu muito mais aterrorizador. Ao sentir minha presença, posso jurar que a vi farejando o ar, largou o cachorro e lentamente veio em minha direção. Senti um calafrio que me partiu da nuca, desceu pela minha coluna, passou pelo rêgo e como um gatilho fez minhas pernas correr feito loucas, o pé batia na bunda, corri ate o alojamento e me tranquei. Vi pelas frestas da parede de barro a velha beata cambaleando nos arredores durante toda a noite. Já amanhecendo vi que outros moradores da vila tinham se acometido do mesmo mal da velha beata, ficaram zanzando em frente do alojamento. Tenho comida e água pra pelo menos dois dias, uma pistola e pouca munição.  Tentei traçar um plano de fuga, mas a casa estava cercada. Pela fresta da janela que dava pelos fundos vi umas 15 pessoas comendo o meu cavalo  na baia me deixando sem opções. Era uma fome que parecia não ter fim. Quando terminaram com o cavalo partiram pra cima do alojamento sem cessar. As frágeis paredes de barro da construção aos poucos é vencida pela insistência dos  demônios. Logo se via braços apodrecidos entrando pelos buracos da parede. Urrando  desesperados de fome, muito barulho, muito fedor. Não sei quanto tempo mais as paredes vão suportar. Peço um grande favor a quem possa encontrar esta carta. Na capital, no cabaré de Lurdes Rouca, uma moça chamada Tulipa faz a vida, avisem a ela sobre o meu fim, digam que ela foi a única pessoa que me restou em pensamento nesses últimos meses, descobri que a amo e sempre a amarei, quanto ao Capitão Laurentino, se não tiver sido acometido pelo mal dos demais, que o diabo cuide bem da sua alma .” Assinado  BARTOLOMEU SILVA

 – Tulipa, fez a alegria de quase todo contingente – Disse Tenente Gerôncio, dobrando a carta que acabara de ler, a guardando em seguida no bolso de dentro da pesada casaca de couro.

–  O que diz a carta? Perguntou um dos cabras postado de pé na  porta.

– Coisas ruins, ele esperava pelo capitão – respondeu Gerôncio de cocoras chafurdando com a ponta de uma faca o que restou de Bartolomeu, um amontado de pele, ossos e sangue, onde ele encontrou a carta e uma pistola descarregada.

– Esse lugar tá morto, vâmo se embora daqui – Ordenou o tenente, enquanto  levantava e dava uma cusparada de nojo.

Encontrou no lado de fora o resto do grupo, vasculharam as casas em busca de sobreviventes e mantimentos, mas nada encontraram naquela vila fantasma. Os rastros desordenados apontavam para todos os lados. De pronto rumaram pra onde apontava a fumaça em Belo Monte, um grupo de oitos cabras bem armados, com suas armas rusticas pesadas potentes.  Não demoraram a sumir no horizonte, entre aquela poeira  do sertão avermelhada que subia como rastro, as vezes como chumbo, as vezes como sangue.

fonte da Imagem: http://cearaemfotos.blogspot.com.br

         

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