Arquivo para dezembro, 2012

CANUDOS RIGOR MORTIS: A VENDETTA DO MENINO-MORTO

Posted in Uncategorized on dezembro 31, 2012 by contosdacratera

                                                                                                                                  400-jagunc3a7os-prisioneiros-flavio-de-barros-canudos-1897-c2a9museu-da-repc3bablica-rio-de-janeiro-brasil1                                                                                                                                                                                                                                           Por Glaucio Fabrizio

Bacamartes, bate-buxas entre outras armas rústicas, repousavam junto à parede de barro vermelho batido. Pareciam adormecidas, como encantamento de uma paz e silencio momentâneos, armas foscas, sem brilho, cobertas da mesma fina poeira que fez o homem bater suas botinas, assustando umas galinhas soltas na capoeira:

– Zezin seu felá da puta, cadê os chifre com a póiva? – Indagou o rude homem de barro para a criança que brincava com uns ossos como se fossem bois e vacas.

– Sei não! – respondeu bruto o menino.

– Os satanás estão pra tudo que é lado, ande logo, vá  buscar o chifre pra móde carregar as arma! – ordenou o homem de barro.

Meio contrariado, o menino remelento, de barriga saliente olhou de baixo pra cima e quase como em slow motion, pode observar a destruição que vinha do céu, era uma semente da temida matadeira* destruindo tudo que tinha sido levantado com muito custo e suor, inclusive o homem de barro. Foi pedaço pra todo lado de vísceras e trapos sujos do cabra que segundos antes, estava de pé.

Coberto de sangue, o menino correu pra dentro do casebre, assustado, procurando a munição em meio ao caos da guerra e barulho de gente morrendo, balas zunindo e medo, muito medo. Encontrou o chifre, buscou os trabuco e com suas pequeninas mãos magras, socou ligeiro a pólvora nas velhas armas remendadas. Armas carregadas, primeiro acomodou um bacamarte, no buraco feito da parede de taipa. O que era medo, agora se transformou em ódio, como um sniper, aguardou o primeiro soldado do satanás que cruzasse sua frente, puxou o gatilho:

 – Buuuuuuuum!!!! – fez o estrondo do trabuco, tremendo o chão e arrombando as costas de um inimigo. Benzeu-se e catou uma bate-bucha já carregada

Lembrou do homem de barro, que apesar da aspereza às vezes o tratava com carinho, sempre trazia uma forquilha nova das caçadas no meio da caatinga pra fazer baladeira. O mesmo homem que o acolheu depois que seus pais foram mortos pelas forças republicanas. Ainda recordava apesar de muito pequeno, os soldados arrancando as roupas da mãe na frente do seu pai e dos irmãos. Estuprada e depois enforcada assim como os outros irmãos maiores. O pai torturado até a morte acusado de acoitar os jagunços de Conselheiro:

– E o menino capitão?O que nois faz dele? – perguntou o soldado.

– É melhor matar tombém, vai crescer e querer vingança! Advertiu outro soldado.

– Vai nada, pode deixar vivo, morre de fome, com a graça de Deus vai virar comida de urubu, economize as bala! Ordenou o capitão.

Deixado vivo pra trás foi acudido pelo Homem de Barro que o levou pra criar em Belo Monte, com ele, aprendeu a atirar como cangaceiro, apesar da idade, era um bom soldado atirador, tinha uma mira certeira infernal, dom de Deus segundo o pai de criação.

Mira esta que se via a cada tiro de dentro dos buracos da parede de taipa. A cada soldado abatido, o menino se benzia. Pelos buracos, o menino também via seus companheiros de guerra sendo mortos rapidamente, os soldados republicanos eram cruéis, mas os crentes de Conselheiro eram kamikazes, se jogavam em cima dos soldados mais corajosos, da infantaria com pedaços de pau, foices e facas enferrujadas.

Não demorou pra sua munição acabar. Lembrou de sua família, lembrou dos sermões inflamados do beato Conselheiro, lembrou de quando ele lhe entregou um escapulário que o protegeria dos soldados fariseus da republica, tirou do pescoço, amarrou na sua pequenina mão esquerda, e na mão direita carregou uma velha peixeira cega, saiu correndo pela porta da frente da casa de taipa, gritando como uma soldado bárbaro, um viking desnutrido da caatinga e como ultimo da resistência sucumbiu com inúmeros tiros de fuzil caindo em frangalhos no chão de terra vermelha, tão vermelha quanto seu sangue fraco.

Um urra foi invocado pelos vencedores do momento, desfilaram sua gloria, mas a guerra só estava começando. Daquela batalha, muito mais da metade dos flagelados foram abatidos, num total 25 mil pessoas sucumbiram naquele genocídio. Os corpos eram empilhados aos montes, para serem jogados em valas e queimados, o pecado adubaria aquela terra ruim pra plantar.

– Orestes, traga esse daí (apontando pro corpo do menino) só falta ele, num vejo a hora de ir simbora desse fim de mundo! – ordenou um superior.

O soldado se ajoelhou junto do corpo, lembrou que aquele foi o derradeiro a morrer, tirou a faca amolada do coldre pra arrancar um escalpo como lembrança. Agarrou os cabelos do cadáver e quando se aprontava pra passar a lamina afiada, os olhos do menino se abriram arregalados. Olhos mezzo azulados como cegos de nascença, mezzo avermelhados, sanguinolentos de ódio e vingança, rápido como um cão raivoso, abocanhou com gosto a mão do soldado, que gritando de dor largou a faca e se pôs de pé tentando livrar sua mão da mandíbula faminta do menino-morto. Com chutes conseguiu se desvencilhar, o sangue jorrava da mão do soldado, aos poucos o resto da infantaria foi entendendo a situação, tentaram abater o cadáver do menino que se punha de pé com tiros, porem sem sucesso, um superior ligeiramente como um samurai veio por trás do menino lhe arrancando a cabeça com seu sabre bélico.

Meio atordoado o superior vendo o cadáver decapitado e o soldado esvaindo em sangue gemendo de dor, quase urinou nas calças quando notou que os mortos da vala também se levantavam, saindo do buraco aos milhares, uns tomado em labaredas de fogo como se tivessem saído do inferno para cobrar suas dividas. Os soldados desesperados descarregavam suas munições nos cadáveres que caiam e se levantavam, mordendo e mastigando quem estivesse pela frente. O superior do sabre cortou enquanto pode cabeças, mas eram muitos em cima dele, como uma enxame de vespas carnívoras. À medida que os soldados eram abatidos pela horda de mortos, estes aumentavam o contingente com mais mortos, mais famintos, do alto, o que se via, eram soldados fardados se misturando com o amarelo-vermelho da morte, o amarelo das covas rasas, o vermelho da vingança.

*canhão alemão da marca Krupp usado pelo exército contra a população sertaneja que vivia no Arraial de Canudos na Bahia.

Anúncios