Arquivo para setembro, 2013

A PARTIDA DE JASMINE Por Glaucio Fabrizio

Posted in Uncategorized on setembro 28, 2013 by contosdacratera

O anoitecer naquele dia foi tão belo e triste quanto o mais belo alvorecer dos solitários insones. Os faróis de um hatch nipônico se acenderam no momento exato em que um jovem exibicionista aproveitava da lombada para andar sobre uma roda só em sua motocicleta. Seu rosto jovem exibia estampado um meio sorriso de confiança. Um mecânico que por ali trabalhava duro num velho Volks reprovou sob suas largas monocelhas. Uma senhora com sua netinha se assustou e puxou a menina como se ela fosse um poodle numa coleira, pois a menina usava realmente uma espécie de coleira muito pratica. Tudo isso acontecia numa rua suburbana movimentada da Nova Amsterdam.

Duzentos metros depois sobre uma roda só, o jovem já sentia a confiança dos campeões, dos escolhidos para vencer, dos soberanos, se sentia a sagrada porra de alguma coisa, um deus, quiçá um orixá. Nesse momento, aproveitando o máximo da confiança, o jovem acelerou mais, lembrou-se de seus sonhos recorrentes da infância em que voava a dois palmos do asfalto quente, pegando fogo. O jovem também já se via estampado nas maiores campanhas publicitarias da indústria de energéticos. Viu-se rodeado de mulheres, no meio tinha um travesti, tudo bem sem problemas, uma piscina de uísque e energético e todas as mulheres dentro nuas, menos o travesti, tá ele também poderia entrar, porém vestido, de roupa de borracha, não, de escafandro.  Cinco milionésimos depois enquanto pensava em quem roupa vestir o travesti em seu sonho acordado, o jovem perdeu a noção do campo de visão no momento em a motocicleta atingia uma ladeira de declive mediano, o suficiente para não enxergar dona Jasmine, que atravessava a rua naquele instante. Pobre Jasmine que teve sua têmpora esquerda atingida pela roda dianteira da motocicleta.

As pessoas logo tentaram acudir à atropelada, mas somente viram os últimos espasmos de vida da senhora e nada puderam fazer. Ver a vida se esvair como se fosse a mais dolorosa das diarreias não é nada digesto perto da hora jantar. Era uma jovem senhora respeitada na vizinhança, provavelmente por isso que em menos de dez minutos apareceu um rabecão para levar o corpo. O publico se dispersou, meia hora depois tudo que restava era uma poça de sangue e massa encefálica no asfalto novo. O jovem sonhador, fugiu sem prestar ajuda.

Na outra esquina, a cinquenta metros da colisão, Seu Vieirinha, também conhecido por Seu Virilinha (pois ele tem o habito de passar o dedo na virilha e cheirar) lustrava um copo com uma toalha no balcão de seu bar, quando Jario Cotôcos entrou no recinto pedindo uma lapada dupla de zinebra.

Virilinha, em silencio serviu as zinebras:

– Mais duas!

-Não posso, só depois que você me disser o que te afringe – rebateu o virilha

Os dois ficaram em silencio, se encarando, uns dois minutos, tipo duelando mesmo, quem vai ceder?

-Vai ficar me paquerando Cotôcos? Perguntou Vieirinha.

Jario sorriu e logo em seguida caiu num pranto daqueles de deixar o caboco sem graça mesmo, desbaratinado. Um choro copioso e comovente. Virilhinha pra não se sentir um mal amigo, serviu as zinebras e um filós dormido de tira gosto. E esperou ele engolir tudo, respirar em seguida pra poder continuar.

Jairo era um policial militar aposentado por invalidez, perdera parcialmente três dedos em um acidente, onde um cartucho de 12 explodiu pela culatra de uma velha escopeta do batalhão apelidada de satanás. Toda ocorrência em que alguém estivesse usando satanás, algo errado acontecia, com o Jairo não foi diferente. Os restos de dedo que lhe sobraram explica o apelido. Apesar do corpanzil e da voz grave, era uma pessoa afável. Ouvia futebol no radio (nunca pela tevê pois ele dizia que perdia o encantamento), fumava liamba num cachimbo feito de chifre, colecionava coisas antigas, como álbuns de figurinhas, discos de vinil, gibis, antigas pornografias, era casado com uma grande mulata muito bruta chamada Dolores. Puxando o folego Jairo desabafou:

– Vou contar tudo Virilha – avisou mais calmo o Jairo.

Disse que era uma longa estória, disse também que numa tarde, estava esperando a condução defronte a casa da quitanda, a casa de dona Amélia, mãe de Jasmine, quando ele reparou a mesma (Jasmine) numa atitude estranha na janela de vidro, por trás da cortina olhando para ele. Dona Amélia apareceu e fechou a janela. No outro dia o mesmo aconteceu e assim durante uma semana. Depois disso há uns três meses, voltou a acontecer novamente, desta vez, Dona Amélia veio tira-lo para uma conversa. Disse que sua filha, depois do divorcio, perdeu completamente o interesse nos homens, porem, em determinadas épocas, alterações hormonais castigava Jasmine com um fogo nas entranhas que deixava todos loucos dentro de casa. Onde ela se encostasse era aquele sarrabuio. Dona Amélia veio lhe pedir ajuda, disse que foi comovente ver a senhora que ele conhecia desde pequeno falando aquelas coisas, pedindo que ele desse um trato na filha. Só ele era de confiança pra velha.

– O que? Porra não fode Cotôcos que estória é essa? – rebateu Vieira se servindo também de dois birinights e passando o dedo na virilha pra dar aquela cheiradinha. Era nojento e non sense, ele sempre achava que ninguém percebia ele no ato.

Continuou dizendo que a velha, pediu que ele, nessas épocas de turbulência hormonal da filha, fosse lá pra tirar o seu atraso. Nesse período, a velha arrumava para que não ficasse ninguém em casa, então durante o dia, Jairo podia ficar a vontade com dona Jasmine. No inicio era divertido, diferente de Dolores, bruta, enorme. Depois ele passou a ser canalha e se aproveitar ainda mais da situação, pedia presentes, chantageava. Quando ela foi atropelada, estava indo comprar uma cerveja no bar do Virilha pra ele, o sentimento de culpa massacrava o gigante, parecia um meninão soluçando, quase uivando. Terminou falando que tinha tomado gosto pela dona Jasmine, que ia deixar a nega Dolores, bruta, vivia suada, cada teta pesava uns 5 quilos, dona Jasmine era delicada.

– Homi, vá pra casa e não conte nada pra nega, se ela souber, te mata – aconselhou o Virilha

O gigante Jairo, não conseguia conter o choro, saiu trôpego caminhando pela rua em direção à poça de sangue no asfalto. Um carro passou freando tirando fino quase o atropelando, no toca fitas tocava a musica Cinco Minutos, no meio da rua, ao se aproximar onde sua amada pereceu, se ajoelhando diante da poça, um ônibus que descia a ladeira a mil, não teve tempo de frear. De Jairo não sobrou nem os cotôcos, somente uma bela estória de amor.

Anúncios

FILANTROPIA E OUTRAS PERVERSÕES (relato de um náufrago social)

Posted in Uncategorized on setembro 28, 2013 by contosdacratera

Por Glaucio Fabrizio

Não fazia muito tempo, era uma época que as coisas ainda não pareciam ter saído do controle, ou estavam prestes a sair. Tudo que não queria era atender uma dessas chamadas de telemarketing, seja de promoções diversas, planos de tevê a cabo, banda larga ou associações filantrópicas pedindo donativos. A vagabundagem era um luxo para poucos, todos tinham que se virar nas cercanias, o cheiro que subia das bocas de lobo era como mendigos com seus hálitos de fadas carnívoras.  O sol queimava e dentro dos coletivos lotados, reinava o mormaço, como se os ônibus fossem gigantes latas de carne em conserva.

Completaria 58 anos, na urbe fervia época eleitoral, politicagem em alta. Manifestantes se espalhavam pelas ruas, parecia carnaval, parecia copa do mundo. Minha vida não fazia mais sentido há muito tempo, alcoolismo, tabagismo, filha da putismo, cafeína e gordura trans, overdoses disso tudo, caminhando décadas sobre a linha tênue que divide a sanidade do inferno mental.  Quando os medicamentos não fizeram mais efeito, resolvi fazer algo especial na minha vida, quase como alguém que aceita Jesus, mas com requintes de crueldade. Planejei então assassinar o candidato que tentava reeleição no meu distrito. Era uma candidatura complicada tendo em vista os vários processos que o velho coronel tinha nas costas, mas para ele que conhecia o ventre da maquina estatal como poucos, terminaria como sempre em pizza. O plano era muito simples, me aproximar do velho coronel no dia das eleições, disfarçado de cabo eleitoral de seu partido, esfaqueá-lo na garganta e depois cortar a minha a própria garganta em publico, deixaria um monte de eleitores-de-cabresto órfãos. Sim eu sei, o plano era uma merda, só queria mesmo fazer jus a minha auto morte.

 Acompanhando a sua agenda no dia D, cheguei à sessão minutos antes, fui ate o banheiro para me preparar quando percebi que havia esquecido a faca em casa, a maldita faca, um erro imperdoável que poderia ter colocado tudo a perder. Puto, já estava prestes a desistir quando milagrosamente o velho coronel entra rapidamente no banheiro e fecha a porta. Conversando muito ocupado no celular, não reparou a minha presença. Baixou as calças e começou a urinar no mictório. Porra! não podia deixar aquela oportunidade passar, tive mais sorte ainda em avistar embaixo de uma pia, uma caixa de ferramentas com alguns fios de cobre, me aproximei sorrateiramente por trás do velho coronel e o sufoquei ate a morte, era apenas um idoso indefeso longe de seus jagunços, não teve forças para reagir a meu ataque na crocodilagem. Fui rápido, limpo e silencioso, tive tempo de carrega-lo ate o vaso, sentei e o vesti com a camiseta que usava por baixo, nela tinha escrito: SALVE o P.R.A.P.C!1 

Sai do banheiro tranquilamente sem ser notado, apesar de toda a confusão que havia na sessão eleitoral. Quando cheguei em casa duas horas depois, já estava na tevê em todos os canais a manchete TERRORISMO NO BRASIL, ao vivo, com cenas do capitulo anterior mostrando os feitos canalhas do finado poderoso coronel agora vergonhosamente sentado no trono.  Apesar de terem arrancado a camiseta do corpo, na tentativa de abafar o ato terrorista, fotos já tinham sido feitas por centenas de celulares, tablets e compartilhadas no ciberespaço se tornando virais.

O caos estava tomado, não me senti aliviado com o que fiz, tinha como certo a auto morte como solução, mas precisava ser especial. O telefone tocou, atendi, era uma voz angelical que mexeu com minha libido há muito tempo adormecida pelas agruras da vida. Quando ela falou que se tratava de um grupo que lidava com pessoas idosas abandonadas comecei a ter uma ereção e babar no telefone, tinha entrado em transe e aceitei a proposta dela vir pegar o donativo pessoalmente. No apartamento, tocava alto no stereo  Miles Davis com On the Corner lado B, a porta se abriu e entrou aquela jovem bela e aparentemente delicada moça, minha boca salivou e quando apalpei furtivamente uma de suas firmes tetas, senti um soco seco muito forte, mas tão forte que fez meu rim parecer um colhão.  Meio zonzo ainda tentei agarra-la pelo pescoço, mas a moça era muito mais ágil, bang! Me acertou no estomago  bang! Bang! no queixo, o mundo girou, deu teto preto.

A moça me acordou com um chá. Estava mais calmo, sereno, ela me ajudou a sentar na poltrona, perguntou pelo dinheiro, lhe passei a carteira, ela tirou 20 pratas, me devolveu a carteira, disse que voltava em 30 dias.

Finalmente me veio uma paradisíaca sensação de alivio, parecia que todo o peso do mundo  fora tirado de meus ombros, um fardo pesado e massacrante. Depois disso nunca mais fui o mesmo, não preciso dos remédios desde então, é como se a surra que levei colocasse meus parafusos no lugar. Naquelas eleições mais cinco tradicionais caciques políticos foram assassinados em varias regiões da republica, todos os crimes foram atribuídos ao grupo terrorista P.R.A.P.C1  . Ninguém foi pego.

Posso até ter me conformado com a vida de cidadão comum, pagando meus impostos, com mais dividas, mais dores, até os últimos dias. Pelo menos pude sentir o gostinho bom de foder com tudo sem ser fodido em triplo. Até me tornei um filantropo, todo mês eu dou 20 mangos para o grupo que toma conta dos velhinhos. Sim, todo mês ela vem me visitar, cada vez mais gostosa, mais forte, ágil e sacana, sempre apanho, quase sempre sangro, tal qual como uma menstruação. Já dizia o refrão daquele velho samba do pedinte: POIS É DANDO QUE SE RECEBE.  

Zacarias de la Rocha

Nova Amsterdam, Brazil – novembro de 2014.                

                                             

  1. Sigla do fictício PARTIDO REVOLUCIONARIO ANTI POLITICO CORRUPTO         

TRILHA SONORA INDICADA:

 MILES DAVIS – Miles Runs the voodoo down