A PARTIDA DE JASMINE Por Glaucio Fabrizio

O anoitecer naquele dia foi tão belo e triste quanto o mais belo alvorecer dos solitários insones. Os faróis de um hatch nipônico se acenderam no momento exato em que um jovem exibicionista aproveitava da lombada para andar sobre uma roda só em sua motocicleta. Seu rosto jovem exibia estampado um meio sorriso de confiança. Um mecânico que por ali trabalhava duro num velho Volks reprovou sob suas largas monocelhas. Uma senhora com sua netinha se assustou e puxou a menina como se ela fosse um poodle numa coleira, pois a menina usava realmente uma espécie de coleira muito pratica. Tudo isso acontecia numa rua suburbana movimentada da Nova Amsterdam.

Duzentos metros depois sobre uma roda só, o jovem já sentia a confiança dos campeões, dos escolhidos para vencer, dos soberanos, se sentia a sagrada porra de alguma coisa, um deus, quiçá um orixá. Nesse momento, aproveitando o máximo da confiança, o jovem acelerou mais, lembrou-se de seus sonhos recorrentes da infância em que voava a dois palmos do asfalto quente, pegando fogo. O jovem também já se via estampado nas maiores campanhas publicitarias da indústria de energéticos. Viu-se rodeado de mulheres, no meio tinha um travesti, tudo bem sem problemas, uma piscina de uísque e energético e todas as mulheres dentro nuas, menos o travesti, tá ele também poderia entrar, porém vestido, de roupa de borracha, não, de escafandro.  Cinco milionésimos depois enquanto pensava em quem roupa vestir o travesti em seu sonho acordado, o jovem perdeu a noção do campo de visão no momento em a motocicleta atingia uma ladeira de declive mediano, o suficiente para não enxergar dona Jasmine, que atravessava a rua naquele instante. Pobre Jasmine que teve sua têmpora esquerda atingida pela roda dianteira da motocicleta.

As pessoas logo tentaram acudir à atropelada, mas somente viram os últimos espasmos de vida da senhora e nada puderam fazer. Ver a vida se esvair como se fosse a mais dolorosa das diarreias não é nada digesto perto da hora jantar. Era uma jovem senhora respeitada na vizinhança, provavelmente por isso que em menos de dez minutos apareceu um rabecão para levar o corpo. O publico se dispersou, meia hora depois tudo que restava era uma poça de sangue e massa encefálica no asfalto novo. O jovem sonhador, fugiu sem prestar ajuda.

Na outra esquina, a cinquenta metros da colisão, Seu Vieirinha, também conhecido por Seu Virilinha (pois ele tem o habito de passar o dedo na virilha e cheirar) lustrava um copo com uma toalha no balcão de seu bar, quando Jario Cotôcos entrou no recinto pedindo uma lapada dupla de zinebra.

Virilinha, em silencio serviu as zinebras:

– Mais duas!

-Não posso, só depois que você me disser o que te afringe – rebateu o virilha

Os dois ficaram em silencio, se encarando, uns dois minutos, tipo duelando mesmo, quem vai ceder?

-Vai ficar me paquerando Cotôcos? Perguntou Vieirinha.

Jario sorriu e logo em seguida caiu num pranto daqueles de deixar o caboco sem graça mesmo, desbaratinado. Um choro copioso e comovente. Virilhinha pra não se sentir um mal amigo, serviu as zinebras e um filós dormido de tira gosto. E esperou ele engolir tudo, respirar em seguida pra poder continuar.

Jairo era um policial militar aposentado por invalidez, perdera parcialmente três dedos em um acidente, onde um cartucho de 12 explodiu pela culatra de uma velha escopeta do batalhão apelidada de satanás. Toda ocorrência em que alguém estivesse usando satanás, algo errado acontecia, com o Jairo não foi diferente. Os restos de dedo que lhe sobraram explica o apelido. Apesar do corpanzil e da voz grave, era uma pessoa afável. Ouvia futebol no radio (nunca pela tevê pois ele dizia que perdia o encantamento), fumava liamba num cachimbo feito de chifre, colecionava coisas antigas, como álbuns de figurinhas, discos de vinil, gibis, antigas pornografias, era casado com uma grande mulata muito bruta chamada Dolores. Puxando o folego Jairo desabafou:

– Vou contar tudo Virilha – avisou mais calmo o Jairo.

Disse que era uma longa estória, disse também que numa tarde, estava esperando a condução defronte a casa da quitanda, a casa de dona Amélia, mãe de Jasmine, quando ele reparou a mesma (Jasmine) numa atitude estranha na janela de vidro, por trás da cortina olhando para ele. Dona Amélia apareceu e fechou a janela. No outro dia o mesmo aconteceu e assim durante uma semana. Depois disso há uns três meses, voltou a acontecer novamente, desta vez, Dona Amélia veio tira-lo para uma conversa. Disse que sua filha, depois do divorcio, perdeu completamente o interesse nos homens, porem, em determinadas épocas, alterações hormonais castigava Jasmine com um fogo nas entranhas que deixava todos loucos dentro de casa. Onde ela se encostasse era aquele sarrabuio. Dona Amélia veio lhe pedir ajuda, disse que foi comovente ver a senhora que ele conhecia desde pequeno falando aquelas coisas, pedindo que ele desse um trato na filha. Só ele era de confiança pra velha.

– O que? Porra não fode Cotôcos que estória é essa? – rebateu Vieira se servindo também de dois birinights e passando o dedo na virilha pra dar aquela cheiradinha. Era nojento e non sense, ele sempre achava que ninguém percebia ele no ato.

Continuou dizendo que a velha, pediu que ele, nessas épocas de turbulência hormonal da filha, fosse lá pra tirar o seu atraso. Nesse período, a velha arrumava para que não ficasse ninguém em casa, então durante o dia, Jairo podia ficar a vontade com dona Jasmine. No inicio era divertido, diferente de Dolores, bruta, enorme. Depois ele passou a ser canalha e se aproveitar ainda mais da situação, pedia presentes, chantageava. Quando ela foi atropelada, estava indo comprar uma cerveja no bar do Virilha pra ele, o sentimento de culpa massacrava o gigante, parecia um meninão soluçando, quase uivando. Terminou falando que tinha tomado gosto pela dona Jasmine, que ia deixar a nega Dolores, bruta, vivia suada, cada teta pesava uns 5 quilos, dona Jasmine era delicada.

– Homi, vá pra casa e não conte nada pra nega, se ela souber, te mata – aconselhou o Virilha

O gigante Jairo, não conseguia conter o choro, saiu trôpego caminhando pela rua em direção à poça de sangue no asfalto. Um carro passou freando tirando fino quase o atropelando, no toca fitas tocava a musica Cinco Minutos, no meio da rua, ao se aproximar onde sua amada pereceu, se ajoelhando diante da poça, um ônibus que descia a ladeira a mil, não teve tempo de frear. De Jairo não sobrou nem os cotôcos, somente uma bela estória de amor.

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