FILANTROPIA E OUTRAS PERVERSÕES (relato de um náufrago social)

Por Glaucio Fabrizio

Não fazia muito tempo, era uma época que as coisas ainda não pareciam ter saído do controle, ou estavam prestes a sair. Tudo que não queria era atender uma dessas chamadas de telemarketing, seja de promoções diversas, planos de tevê a cabo, banda larga ou associações filantrópicas pedindo donativos. A vagabundagem era um luxo para poucos, todos tinham que se virar nas cercanias, o cheiro que subia das bocas de lobo era como mendigos com seus hálitos de fadas carnívoras.  O sol queimava e dentro dos coletivos lotados, reinava o mormaço, como se os ônibus fossem gigantes latas de carne em conserva.

Completaria 58 anos, na urbe fervia época eleitoral, politicagem em alta. Manifestantes se espalhavam pelas ruas, parecia carnaval, parecia copa do mundo. Minha vida não fazia mais sentido há muito tempo, alcoolismo, tabagismo, filha da putismo, cafeína e gordura trans, overdoses disso tudo, caminhando décadas sobre a linha tênue que divide a sanidade do inferno mental.  Quando os medicamentos não fizeram mais efeito, resolvi fazer algo especial na minha vida, quase como alguém que aceita Jesus, mas com requintes de crueldade. Planejei então assassinar o candidato que tentava reeleição no meu distrito. Era uma candidatura complicada tendo em vista os vários processos que o velho coronel tinha nas costas, mas para ele que conhecia o ventre da maquina estatal como poucos, terminaria como sempre em pizza. O plano era muito simples, me aproximar do velho coronel no dia das eleições, disfarçado de cabo eleitoral de seu partido, esfaqueá-lo na garganta e depois cortar a minha a própria garganta em publico, deixaria um monte de eleitores-de-cabresto órfãos. Sim eu sei, o plano era uma merda, só queria mesmo fazer jus a minha auto morte.

 Acompanhando a sua agenda no dia D, cheguei à sessão minutos antes, fui ate o banheiro para me preparar quando percebi que havia esquecido a faca em casa, a maldita faca, um erro imperdoável que poderia ter colocado tudo a perder. Puto, já estava prestes a desistir quando milagrosamente o velho coronel entra rapidamente no banheiro e fecha a porta. Conversando muito ocupado no celular, não reparou a minha presença. Baixou as calças e começou a urinar no mictório. Porra! não podia deixar aquela oportunidade passar, tive mais sorte ainda em avistar embaixo de uma pia, uma caixa de ferramentas com alguns fios de cobre, me aproximei sorrateiramente por trás do velho coronel e o sufoquei ate a morte, era apenas um idoso indefeso longe de seus jagunços, não teve forças para reagir a meu ataque na crocodilagem. Fui rápido, limpo e silencioso, tive tempo de carrega-lo ate o vaso, sentei e o vesti com a camiseta que usava por baixo, nela tinha escrito: SALVE o P.R.A.P.C!1 

Sai do banheiro tranquilamente sem ser notado, apesar de toda a confusão que havia na sessão eleitoral. Quando cheguei em casa duas horas depois, já estava na tevê em todos os canais a manchete TERRORISMO NO BRASIL, ao vivo, com cenas do capitulo anterior mostrando os feitos canalhas do finado poderoso coronel agora vergonhosamente sentado no trono.  Apesar de terem arrancado a camiseta do corpo, na tentativa de abafar o ato terrorista, fotos já tinham sido feitas por centenas de celulares, tablets e compartilhadas no ciberespaço se tornando virais.

O caos estava tomado, não me senti aliviado com o que fiz, tinha como certo a auto morte como solução, mas precisava ser especial. O telefone tocou, atendi, era uma voz angelical que mexeu com minha libido há muito tempo adormecida pelas agruras da vida. Quando ela falou que se tratava de um grupo que lidava com pessoas idosas abandonadas comecei a ter uma ereção e babar no telefone, tinha entrado em transe e aceitei a proposta dela vir pegar o donativo pessoalmente. No apartamento, tocava alto no stereo  Miles Davis com On the Corner lado B, a porta se abriu e entrou aquela jovem bela e aparentemente delicada moça, minha boca salivou e quando apalpei furtivamente uma de suas firmes tetas, senti um soco seco muito forte, mas tão forte que fez meu rim parecer um colhão.  Meio zonzo ainda tentei agarra-la pelo pescoço, mas a moça era muito mais ágil, bang! Me acertou no estomago  bang! Bang! no queixo, o mundo girou, deu teto preto.

A moça me acordou com um chá. Estava mais calmo, sereno, ela me ajudou a sentar na poltrona, perguntou pelo dinheiro, lhe passei a carteira, ela tirou 20 pratas, me devolveu a carteira, disse que voltava em 30 dias.

Finalmente me veio uma paradisíaca sensação de alivio, parecia que todo o peso do mundo  fora tirado de meus ombros, um fardo pesado e massacrante. Depois disso nunca mais fui o mesmo, não preciso dos remédios desde então, é como se a surra que levei colocasse meus parafusos no lugar. Naquelas eleições mais cinco tradicionais caciques políticos foram assassinados em varias regiões da republica, todos os crimes foram atribuídos ao grupo terrorista P.R.A.P.C1  . Ninguém foi pego.

Posso até ter me conformado com a vida de cidadão comum, pagando meus impostos, com mais dividas, mais dores, até os últimos dias. Pelo menos pude sentir o gostinho bom de foder com tudo sem ser fodido em triplo. Até me tornei um filantropo, todo mês eu dou 20 mangos para o grupo que toma conta dos velhinhos. Sim, todo mês ela vem me visitar, cada vez mais gostosa, mais forte, ágil e sacana, sempre apanho, quase sempre sangro, tal qual como uma menstruação. Já dizia o refrão daquele velho samba do pedinte: POIS É DANDO QUE SE RECEBE.  

Zacarias de la Rocha

Nova Amsterdam, Brazil – novembro de 2014.                

                                             

  1. Sigla do fictício PARTIDO REVOLUCIONARIO ANTI POLITICO CORRUPTO         

TRILHA SONORA INDICADA:

 MILES DAVIS – Miles Runs the voodoo down                        

                                              

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