Arquivo para março, 2014

CANUDOS RIGOR MORTIS : A FILHA DO COVEIRO

Posted in Uncategorized on março 6, 2014 by contosdacratera

 

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por Glaucio Fabrizio

Quando os mortos levantaram famintos por todo o sertão, devorando tudo vivo que encontravam pela frente, ninguém poderia imaginar que uma menina franzina como Darkinha poderia ter sobrevivido naquele inferno. Nasceu ali mesmo, no cemitério de Vale dos Preás , filha de Izaque Coveiro  e Cida de da Guia, tinha um velho vira-lata preto chamado Capiroto e dormia na rede ao lado de seu avô Genésio. Quando jovem, seu avô fora o melhor ferreiro da região, fabricou facas afiadas, facões, peixeiras, machados. Antes de adoecer senil, ensinou alguma coisa pra Darkinha que sabia como poucos afiar as tesouras da sua mãe. Toda noite antes de dormir, limpava cuidadosamente as melhores facas que se avô fez em sua juventude, verdadeiras obras de arte guardadas no velho baú da família.

Magra e esguia, pele branca, olhos pretos assim como seus cabelos longos de graúna. Introvertida, não tinha amigos, raramente saia. Ajudava a mãe em casa e nos afazeres do cemitério, limpava o mato, aguava as plantas, quando sobrava um tempo, deitava a sombra na laje fria do tumulo do Coronel Tetéu, um tirano que durante muito tempo governou a região no cabresto e na chibata. Às vezes cochilava e sonhava afrontando o vilão com o facão rabo-de-galo mais bonito que seu avô já fez, parecia uma espada samurai. O coronel vinha em sua direção num imenso garanhão branco, Darkinha cortava as patas dianteiras do bicho com seu facão samurai, derrubando assim o Coronel Tetéu. No chão indefeso ele chorava por clemência, mas Darkinha não perdoava e cravava o aço no coração do velho.

Às vezes parava e pensava observando o seu pai sepultando pessoas todos os dias:

– Quando chegar a hora dele, quem diacho vai enterrar ele?

Sempre que morria um musico, um repentista, um embolador de coco ou um violeiro, aparecia um velho cego tocador de rabeca rasgando uma melodia tristonha que confortava o espírito gótico matuto da sertaneja Darkinha. A maioria dos sepultamentos era de pessoas pobres mortas pela fome e a seca, carregados em suas sujas redes-ataúde.  Sete palmos pra baixo, nem todos tinham esse direito no cemitério nessa época, ainda mais com tantos sepultamentos. Covas rasas surgiam por todos os lados, seu pai não tava dando conta sozinho.  Esperava ainda pela vinda de um ajudante prometido pelo governante que nunca vinha.

Nas noites quentes de lua cheia, Izaque Coveiro depois dos trabalhos, tomava umas zinebras Gato Preto, ficava de fogo e ia se banhar no tanque, lá nos fundos da casa. Cida de da guia, geralmente arrumava um pretexto para ir ver o marido nessas horas e ia toda faceira encontrá-lo, ele a puxava pra dentro com roupa e tudo e ficava um bom tempo fazendo enxerimento sob o luar e as estrelas.

Naquela noite quente abafada, enquanto seus pais aproveitavam o tanque nos fundos da casa, a melodia triste da rabeca do velho cego, ainda entoava na mente de Darkinha, ela sentia um arrepio na espinha, uma palpitação no peito, mas se sentia bem, meditando sem saber, a ponto de quase atingir o nirvana, quando um grito desesperado de sua mãe, rasgou o silencio da noite e adentrou pela janela, Darkinha bravamente logo correu ate o baú e pegou o facão rabo-de-galo de sua avô, quando chegou junto à porta dos fundos, não podia acreditar no que via:

Os mortos saiam das covas rasas por todos os lados, os seus pais eram devorados dentro do tanque por uma dezena de defuntos. Rapidamente  Darkinha fechou as portas e janelas, os morta-fome aos montes se juntavam forçando as paredes da frágil casa do coveiro. Grunhindo baixinho, Capiroto se escondia amedrontado embaixo da mesa.

Correndo ate o baú, Darkinha apanhou mais algumas facas, um velho bisaco de caça, uma garrucha enferrujada e um chifre com pólvora e chumbo.  Capiroto se enroscou em suas pernas, quando se lembrou do velho avô prostrado na rede, a porta foi derrubada e uma horda de mortas-fome entrou casebre adentro indo direto no velho Genésio que serviu de isca os distraindo enquanto Darkinha com Capiroto ao colo, escapava pela janela. Lembrou da mula que puxava a carroça de seu pai, ficava solta num pequeno cercado, onde tinha um barraco com ferramentas. Sorrateiramente pelas sombras chegou até o cercado, celou a mula, amarrou dois alforges onde colocou o bisaco e o Capiroto, montou e saiu em disparada derrubando os mortas-fomes que encontrava pela frente, por sorte os famintos já tinham derrubado o portão do cemitério, facilitando a sua fuga.

A primeira coisa que viu ao sair, foi a torre da igreja, tocou direto pra lá, a cidade parecia adormecida, os morta-fome ainda não tinha chegado, já na igreja, encontrou a porta principal aberta, entrou com mula e tudo e achou o padre, bêbado, dormindo no primeiro banco perto da entrada. O barulho dos cascos da mula dentro da igreja o despertou:

– Mas que sacrilégio é esse na casa do Senhor?! –

Darkinha desmontou da mula, fechou a porta da igreja e disse com a voz aperreada:

– Tá todo mundo morto seu padre, mas tão com fome, eles comeram mãe, pai e meu avô, eu fugi de lá pra num ser cumida também!

– Minha filha, você endoideceu de vez? ouxe eu te conheço, é a filha do coveiro Izaque! Disse o padre ainda meio de porre.

– Não seu padre, os mortos levantou das cova rasa e cumeram pai e mãe no tanque, entraram com a mulestia em casa e cumeram meu vô.

Enquanto tentava se explicar, se ouviu um tiro e logo em seguida, mais tiros e gritos, a cidade parecia estar sendo atacada por cangaceiros. Não demorou muito e logo bateram a porta da igreja, o padre espiou pela fresta e viu que era um jagunço do Coronel Titico, o deixou entrar:

– É o bando de Antonio Silvino? Perguntou o padre.

– Não seu padi, não é cangaceiro não, o senhor não vai acreditar, mas me encontrei  com o finado Malaquias agora a pouco andando perto do cabaré de Luzia.

-Votz, ta tudo mundo doido! – disse o padre se benzendo.

-Juro pela alma de minha finada filha, ele me mordeu aqui ó – disse o jagunço mostrando a ferida no antebraço.

– Vi ainda os finado Gildo, Golinha, Timbu, Cara de Gia, tudo cumendo as puta do cabaré – concluiu o jangunço enquanto sentava pálido num banco da igreja.

– Omi, respeite a casa de Deus, deixe de dizer safadeza aqui  !– repreendeu o padre enquanto buscava álcool e bandagens pra fazer um curativo no jagunço, alias, alem de padre, ele também fazia as vezes de medico na região.

– Não seu padre, não era cumendo de safadeza não, era cumendo mesmo, ingual Malaquias querendo me cumer.

– E o que você fez? – perguntou o padre.

– Quando ele abocanhou meu braço, eu furei ele de faca no bucho varias veiz, mas so largou  quando enfiei a faca entre as vista – respondeu o jagunço com a voz fraca deitando no banco.

Deixando o jagunço repousando, o padre e Darkinha subiram ate a torre da igreja para ver o que estava acontecendo na cidade. La do alto eles puderam ver o inferno na terra. Casas pegando fogo, mortos cambaleando pelas ruas, dessa vez o padre acreditou na estória, pois viu uma senhora que tinha dado a extrema unção uma semana atrás.

Desceram ate a sacristia, onde o padre desentocou uma garrafa de cana, deus umas talagadas no gargalo e foi ver como estava o jagunço. A pele estava morna, mas o jagunço estava morto de olhos arregalados.

– Acho que foi febre, das grande, morreu faz pouco tempo – disse o padre.

-Teve uma menina que morreu depois de levar uma mordida de uma raposa, teve uma febre grande e morreu – disse o padre enquanto fechava os olhos do jagunço.

Enquanto rezava ajoelhado  cabisbaixo pelo morto , Capiroto começou a latir no alforge quando o  padre levantou a cabeça para repreender o cachorro, na crocodilagem o jagunço morto lhe mordeu  no pescoço, o sangue jorrou da carótida. Darkinha com uma pequena faca saltou entre os bancos furando o morta-fome entre as vistas. O padre agonizou e pereceu. Não demorou para acordar e também tentou devorar Darkinha, mas ela o decapitou com o seu rabo-de-galo.  Tirou o Capiroto do alforje nos braços e sentou chorando baixinho no banco da igreja. Adormeceu e só acordou com o cachorro lambendo seu rosto já de dia.  Desamarrou a mula e a levou pra beber a água benta que ficava numa bacia lustrosa, na entrada da igreja. Na cozinha da sacristia, encontrou comida e mais água num pote. Quando subiu já ao meio dia na torre para averiguar a situação, viu os morta-fome indo em direção ao norte, pras bandas de Canudos, esvaziando praticamente as ruas, deixando pra trás uma cidade fantasma.

Saindo da igreja, na sua mula, viu de perto um morta-fome que devorava uma pessoa pelo bucho, quando viu a rabeca ao lado do morto, entendeu que se tratava do cego rabequeiro que freqüentava os funerais dos artistas. Desceu da mula, acertou o morta-fome com facão na cabeça, tirou o facão com dificuldade com a ajuda dos pés, pegou a rabeca e o arco, colocou no outro alforje, montou a mula e partiu em direção ao sul, do lado contrario para onde iam os mortos, certa de que para viver ali em diante jamais deveria ser mordida.

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