Arquivo para agosto, 2014

KID FIMOSIS

Posted in Uncategorized on agosto 29, 2014 by contosdacratera

       capuz-negro                                                                                                                                                        Por Glaucio Fabrizio

      Quando nasceu, seus pais fugindo da guerra só te deram um nome meses depois. Seria Isaque, como seu tio, mas ter um nome judeu naquele tempo poderia lhe trazer grandes problemas. Sara sua bondosa mãe, mudou o nome para Neuza, assim como seu pai passou a se chamar Joaquim. Todos os machos judeus recém-nascidos são circuncidados, mas Sara, ou melhor, Neuza, na sua paranoia natural de épocas de guerra e perseguição, não permitiu o corte do prepúcio de seu filho único, afinal ela não queria correr o risco de alguém identificar a origem judaica de sua cria quando lhe olhassem a piroca sem capote, por mais absurdo que parecesse a ideia.

      Batizado cristão sob a alcunha de Pierre, já em terras distantes, demorou a compreender os seus pais lendo o livro sagrado dos judeus às escondidas enquanto todos dormiam, assim como os sabás eram festejados em qualquer dia da semana, principalmente naqueles dias em que seu pai estava de folga de qualquer um dos trabalhos temporários que arrumasse. O garoto cresceu nesta confusão, sem saber ao certo se era cristão (era obrigado a frequentar o catecismo nas manhãs de domingo) ou judeu. Mas para Pierre, o seu maior sofrimento era sem duvida a fimose. Na adolescência não conseguia controlar suas doloridas ereções (quando lembrava as tetas enormes da sua professora de francês). Ao urinar tinha que ter cuidado redobrado para não sair mijando tudo pela frente, sem falar que frequentemente era acometido por infecções urinarias.

     Certa manhã, Pierre veio todo contente mostrar um artigo no jornal sobre um medico que estava fazendo circuncisões gratuitamente na cidade, a mãe chorou e pediu que enquanto viva, ele mantivesse o couro da rola, pois ela não queria ver o único filho sendo perseguido:

– Mas mãe, a guerra já acabou faz tanto tempo! – choramingava Pierre.

– Não importa, o medico vai saber que você é Jud… – interrompeu a palavra levando a mão à boca dona Neuza.

– Mas mãe, ele é judeu, por isso ta fazendo tudo de grátis! – insistia Pierre.

– Certamente é um espião, ninguém quer ser judeu hoje em dia! – rebatia a mãe

– Mas mãe, nem todo mundo circuncidado tem que ser judeu…

– Meu Deus, você ta querendo me ver morta é isso? – encerrava o assunto a mãe, fingindo que a vista estava escurecendo e que ia desmaiar.

                                                                              ************

     A primeira relação sexual de Pierre foi traumatizante, aos dezessete anos arrumou uma namoradinha muito danada, os namoros no portão, de inocentes não tinha nada e aquelas dores (tanto da fimose como do saco cheio) apesar de horríveis eram muito bem disfarçados pelo garoto, afinal de contas não poderia dar uma de maricas e negar fogo para sua donzela. Donzela esta que certa noite resolveu te presentear, os pais viajaram e a deixaram aos cuidados da velha tia que tomava uns drinks para ver a novela e adormecia ate o outro dia na cadeira de balanço. A garota o levou pro quarto dos pais ficou nua e disse:

– Olhe, tem que ser só por atrás, porque na frente vai ser só depois de casar! – advertiu a moça

     Desta feita, Pierre, teve uma das experiências mais dolorosas de sua vida, o rabinho apertado da sua namorada o fez sangrar e ele sofreu horrores para disfarçar a dor lancinante, muito envergonhado, o rapaz nunca mais apareceu no portão, a donzela logicamente que o odiou para sempre.

Desse dia em diante, ao ouvir seus amigos confessando suas estripulias sexuais, sentia calafrios quando um deles dizia:

– Meu amigo fulaninha é uma delicia, xana apertadinha!

      Nos momentos de secura afetiva aguda, Pierre caia nos braços de Jeniffer(na verdade se chamava Jurema) a puta mais rodada das cercanias, devia ter uns 30 anos de experiência.

– Rapaz, esse dai adora uma folote, vai casar com Jurema vai? – alguém tirando sarro com Pierre.

     Pierre por varias vezes marcou a cirurgia de fimose, mas sempre na hora H pensava na mãe, mesmo que ela não precisasse saber, afinal a velha não ia passar o resto da vida checando a rola do filho, porem sua consciência martelava com a delicadeza de uma marreta juggernaut.

       Já adulto e com muito esforço, Pierre conseguiu entrar em uma escola de medicina, demonstrou habilidade com o bisturi, foi laureado e se tornou um cirurgião. Quando conheceu Lucinha, sua futura esposa, não demorou muito e sua mãe adoeceu, logo em seguida veio a falecer. No leito de morte, ela deu vários conselhos, sobre como respeitar sua futura esposa, aprovou Lucinha, moça de família, deu conselhos sobre não ficar devendo na praça, pediu que a primeira neta tivesse seu nome e finalmente naqueles momentos lúcidos que só temos perto do fim, abriu mão da obsessão e permitiu que o filho fizesse a cirurgia de fimose.

        Certa noite, depois de uma caminhada tranquila, ao chegar em casa Pierre colocou na vitrola In a Sentimental Mood, com Duke e Coltrane, fumou um grosso cigarro de Skunk, tomou uma dose de conhaque, fez assepsia das mãos, sentou sem calças numa poltrona confortável, puxou uma luminária focando o pau com álcool iodado e habilmente fez a sua própria circuncisão retirando o prepúcio que durante toda a sua vida, sufocou sua glande e todos os seus desejos, foi como nascer de novo, seis meses depois casou. Na sua noite de núpcias não ligou ao sentir que Lucinha não era tão apertadinha assim, longe de ser uma Jurema, mas pela primeira vez Pierre amou sem sentir dor.

     Alguns bons anos depois num dia de finados, juntamente com a esposa e a filha pequena nos braços, Pierre levou flores e umas relíquias suas de infância que sua mãe guardava envolto em um lenço: tufos de seu cabelo quando criança, uma coisa parecendo um torresmo velho(seu umbigo)e por fim, o seu prepúcio ressecado envolto numa gaze. Pierre sorriu e sentiu saudades de sua mãe deixando ali em seu túmulo as suas relíquias de recém-nascido. Sua filha se chamou Sara, quando adulta, Sara casou com um palestino da Cisjordânia chamado Alak que apesar da sua origem, era budista.

 

 

 

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GATUNO

Posted in Uncategorized on agosto 1, 2014 by contosdacratera

GATUNOPor Glaucio Fabrizio

 

     O espaço anexo era a serraria da funerária SONO ETERNO. Fabricavam-se ataúdes de todos os tipos, para crianças e adultos, gente alta, gente baixa, gente gorda, gente magra. A qualidade do caixão ia de acordo com o bolso do defunto, ou melhor, da família do defunto. Os mais pobres pagavam por um caixão mezzo de madeira ordinária mezzo de papelão, os mais ricos, pagavam por madeira de boa qualidade, daquelas que se via em moveis nas casas de gente chique, aqueles tipos de gente rica que escravizava (em troca de comida e um quartinho nos fundos) meninas vindas do interior como mucamas modernas, com quem seus filhos tinham suas primeiras relações sexuais e ainda tinham que dedicar horas diárias lustrando os moveis caros com litros de óleo de peroba.

      Lá trabalhavam Zuca, um surdo mudo meio louco que nas horas vagas traficava Loló nas tertúlias do bairro, Ciço um jovem capoeirista maconheiro, um poço de bondade e inocência e por fim Seu Babau, um senhor desdentado beirando os sessenta que adorava mentir contando vantagem, mas ele contava vantagem de qualquer coisa, se alguém dissesse que adorava chupar uma rola, ele era capaz de dizer que chupou tanta rola na juventude que perdeu os dentes. Um mentiroso compulsivo nosense.

       Era uma segunda-feira típica de janeiro, dentro da serraria o calor era infernal, a pouca luz que havia no lugar entrava pelas réstias do velho telhado de amianto furado, pois a molecada do bairro se divertia jogando pedras no telhado só para poder ouvir seu Babau com a boca desdentada gritando: Bando de mangote de fela da puta!

       Pelas réstias se via uma nuvem de pó de madeira suspensa no ar. A pouca luz que entrava, fazia brilhar as testas dos trabalhadores suadas, seu Babau que fumava um pacote de trevo por dia, roncava ao respirar, em seu peito com pêlos brancos, via-se um escapulário de Santa Luzia que mais parecia um barco navegando em mar de ondas agitadas, a caixa torácica faltava explodir a cada inspiração.

– E o fim de semana Ciço? Deu muito o boga? – perguntou seu Babau cortando o silencio da serraria enquanto enrolava um cigarro brejeiro.

– Nada omi, fui preso! – respondeu Ciço meio acanhado.

– Oxe, que presepada foi essa? Perguntou o velho

– Tava vino da casa da nega, e os omi me deram um baculejo e encontraro uma baga, me levaram preso, só me soltaram ontem de noitinha já – Disse Ciço contrariado.

– Veno? Vá fumar essas drogas vá seu merda, só da nisso, por isso que me contento com meu cigarrinho que num ofende nada – advertiu o velho dando uma tossida carregada, onde logo em seguida escarrou uma coisa preta parecida com óleo de motor queimado. Os dois continuaram em silencio ate a hora do almoço.

    Quando a filha mais nova de Babau veio trazer as marmitas, o mudo Zuca ficou de olho na cabrocha, ela era cega de um olho e também tinha uma queda pelo surdo mudo:

– Eu digo logo, se bulir com filha minha, ou casa ou eu capo com uma faca cega! – Disse seu Babau

– Omi o sinhô ta dizendo isso pra mim não né? – rebateu Ciço.

– Tô dizendo pra quem ta de olho nela!

– Masomi, cê acha que ele vai te ouvir?  

– Se num ouvir com a cabeça de cima, vai ouvir com a cabeça debaixo – finalizou o velho bruto já com a cara meio avermelhada de aborrecimento.

Depois de almoçarem, já palitando os dentes, seu Babau disse pra Ciço:

– Eu também já fui preso uma vez…

– Iji, prumode?

– Furto.

– Oxe, num sabia que o sinhô já foi ladrão!

– Num fui eu seu abestalhado, foi Mião!

– Mião? Que Mião? Aquele seu gato que tu disse que era ensinado?

– Ele mesmo!

– Danou-se, como foi essa presepada?

– Rapaz, um dia eu fiz um serviço pra dona Eulália, ela me pagou com uma onça. Quando cheguei em casa, botei a nota em cima da geladeira e fui dar uma obrada, quando voltei, o canto mais limpo do mundo!

         – Oxe, como o sinhô soube que foi o gato?

      – Eu já tava aperreado, quando fui no quintal fumar um cigarro e vi o sem vergonho brincando com a nota, botava no chão, ai se jogava por cima dela, abraçava, parecia que tava namorando a onça, pense num gato macho!

       – Que conversa! Gargalhou em seguida Ciço.

       – Tô dizeno! Ai vi quando ele enterrou a nota embaixo do pé de cajarana. Quando ele saiu fui lá e peguei a nota.

       – E por isso cê foi preso?

       – Não seu bafo de rola! Escute. No outro dia fui lá e vi Mião brincando de novo com a onça, corri pro camiseiro e fui ver se ele tinha achado o lugar onde eu escondo meu dinheiro e o dinheiro tava lá, quando ele terminou de brincar fui lá e peguei o dinheiro.

       – Oxe, num era seu o dinheiro, e de quem era?

       – Ora se eu sei, sei que durante uns cinco mês ele trouxe uma onça todo dia e enterrava embaixo do pé de cajarana, depois de namorar com ela.

       – E como o sinhô foi preso?

       – Omi um dia eu resolvi gastar o dinheiro, fui fazer umas apostas no carteado lá na bodega de dona Aurora, quando apostei a onça, num reparei que tinha uma piroquinha com asas desenhada na nota, um baitola que tava lá jogando reparou logo e partiu pra cima de mim dizendo que eu tinha roubado dele, disse que ele tinha desenhado aquilo na nota e o dinheiro tinha sumido há duas semanas, o cabo Manoel que tava na hora jogando me deu logo voz de prisão e fui preso.

     – Mas rapaz, foi preso pela piroca!

     – E apois, foi horrive!

     – E como você saiu dessa?

     – Rapaz, ate eles acreditarem que tinha sido o gato foi uma novena, convenci o cabo a fazer uma tocaia pro gato lá em casa, e eles viram o gato lá namorando com a onça, quando cavaram embaixo do pé de cajarana, a onça tinha dado cria e encontraram bem mil real em nota de dois.

     – Ai soltaram o sinhô!

     – Foi!

     – E o dinheiro?

     – Levaram dizendo que era um favor que tavam me fazendo, pois aquilo ia virar uma butija e meu isprito ia ficar preso quando eu morresse.

     – Esses pêpa são tudo vivo, mas e o gato?

    -Tive que mandar capar, senão me lascava todin! – finalizou Seu Babau com a cara mais deslavada do mundo.