GATUNO

GATUNOPor Glaucio Fabrizio

 

     O espaço anexo era a serraria da funerária SONO ETERNO. Fabricavam-se ataúdes de todos os tipos, para crianças e adultos, gente alta, gente baixa, gente gorda, gente magra. A qualidade do caixão ia de acordo com o bolso do defunto, ou melhor, da família do defunto. Os mais pobres pagavam por um caixão mezzo de madeira ordinária mezzo de papelão, os mais ricos, pagavam por madeira de boa qualidade, daquelas que se via em moveis nas casas de gente chique, aqueles tipos de gente rica que escravizava (em troca de comida e um quartinho nos fundos) meninas vindas do interior como mucamas modernas, com quem seus filhos tinham suas primeiras relações sexuais e ainda tinham que dedicar horas diárias lustrando os moveis caros com litros de óleo de peroba.

      Lá trabalhavam Zuca, um surdo mudo meio louco que nas horas vagas traficava Loló nas tertúlias do bairro, Ciço um jovem capoeirista maconheiro, um poço de bondade e inocência e por fim Seu Babau, um senhor desdentado beirando os sessenta que adorava mentir contando vantagem, mas ele contava vantagem de qualquer coisa, se alguém dissesse que adorava chupar uma rola, ele era capaz de dizer que chupou tanta rola na juventude que perdeu os dentes. Um mentiroso compulsivo nosense.

       Era uma segunda-feira típica de janeiro, dentro da serraria o calor era infernal, a pouca luz que havia no lugar entrava pelas réstias do velho telhado de amianto furado, pois a molecada do bairro se divertia jogando pedras no telhado só para poder ouvir seu Babau com a boca desdentada gritando: Bando de mangote de fela da puta!

       Pelas réstias se via uma nuvem de pó de madeira suspensa no ar. A pouca luz que entrava, fazia brilhar as testas dos trabalhadores suadas, seu Babau que fumava um pacote de trevo por dia, roncava ao respirar, em seu peito com pêlos brancos, via-se um escapulário de Santa Luzia que mais parecia um barco navegando em mar de ondas agitadas, a caixa torácica faltava explodir a cada inspiração.

– E o fim de semana Ciço? Deu muito o boga? – perguntou seu Babau cortando o silencio da serraria enquanto enrolava um cigarro brejeiro.

– Nada omi, fui preso! – respondeu Ciço meio acanhado.

– Oxe, que presepada foi essa? Perguntou o velho

– Tava vino da casa da nega, e os omi me deram um baculejo e encontraro uma baga, me levaram preso, só me soltaram ontem de noitinha já – Disse Ciço contrariado.

– Veno? Vá fumar essas drogas vá seu merda, só da nisso, por isso que me contento com meu cigarrinho que num ofende nada – advertiu o velho dando uma tossida carregada, onde logo em seguida escarrou uma coisa preta parecida com óleo de motor queimado. Os dois continuaram em silencio ate a hora do almoço.

    Quando a filha mais nova de Babau veio trazer as marmitas, o mudo Zuca ficou de olho na cabrocha, ela era cega de um olho e também tinha uma queda pelo surdo mudo:

– Eu digo logo, se bulir com filha minha, ou casa ou eu capo com uma faca cega! – Disse seu Babau

– Omi o sinhô ta dizendo isso pra mim não né? – rebateu Ciço.

– Tô dizendo pra quem ta de olho nela!

– Masomi, cê acha que ele vai te ouvir?  

– Se num ouvir com a cabeça de cima, vai ouvir com a cabeça debaixo – finalizou o velho bruto já com a cara meio avermelhada de aborrecimento.

Depois de almoçarem, já palitando os dentes, seu Babau disse pra Ciço:

– Eu também já fui preso uma vez…

– Iji, prumode?

– Furto.

– Oxe, num sabia que o sinhô já foi ladrão!

– Num fui eu seu abestalhado, foi Mião!

– Mião? Que Mião? Aquele seu gato que tu disse que era ensinado?

– Ele mesmo!

– Danou-se, como foi essa presepada?

– Rapaz, um dia eu fiz um serviço pra dona Eulália, ela me pagou com uma onça. Quando cheguei em casa, botei a nota em cima da geladeira e fui dar uma obrada, quando voltei, o canto mais limpo do mundo!

         – Oxe, como o sinhô soube que foi o gato?

      – Eu já tava aperreado, quando fui no quintal fumar um cigarro e vi o sem vergonho brincando com a nota, botava no chão, ai se jogava por cima dela, abraçava, parecia que tava namorando a onça, pense num gato macho!

       – Que conversa! Gargalhou em seguida Ciço.

       – Tô dizeno! Ai vi quando ele enterrou a nota embaixo do pé de cajarana. Quando ele saiu fui lá e peguei a nota.

       – E por isso cê foi preso?

       – Não seu bafo de rola! Escute. No outro dia fui lá e vi Mião brincando de novo com a onça, corri pro camiseiro e fui ver se ele tinha achado o lugar onde eu escondo meu dinheiro e o dinheiro tava lá, quando ele terminou de brincar fui lá e peguei o dinheiro.

       – Oxe, num era seu o dinheiro, e de quem era?

       – Ora se eu sei, sei que durante uns cinco mês ele trouxe uma onça todo dia e enterrava embaixo do pé de cajarana, depois de namorar com ela.

       – E como o sinhô foi preso?

       – Omi um dia eu resolvi gastar o dinheiro, fui fazer umas apostas no carteado lá na bodega de dona Aurora, quando apostei a onça, num reparei que tinha uma piroquinha com asas desenhada na nota, um baitola que tava lá jogando reparou logo e partiu pra cima de mim dizendo que eu tinha roubado dele, disse que ele tinha desenhado aquilo na nota e o dinheiro tinha sumido há duas semanas, o cabo Manoel que tava na hora jogando me deu logo voz de prisão e fui preso.

     – Mas rapaz, foi preso pela piroca!

     – E apois, foi horrive!

     – E como você saiu dessa?

     – Rapaz, ate eles acreditarem que tinha sido o gato foi uma novena, convenci o cabo a fazer uma tocaia pro gato lá em casa, e eles viram o gato lá namorando com a onça, quando cavaram embaixo do pé de cajarana, a onça tinha dado cria e encontraram bem mil real em nota de dois.

     – Ai soltaram o sinhô!

     – Foi!

     – E o dinheiro?

     – Levaram dizendo que era um favor que tavam me fazendo, pois aquilo ia virar uma butija e meu isprito ia ficar preso quando eu morresse.

     – Esses pêpa são tudo vivo, mas e o gato?

    -Tive que mandar capar, senão me lascava todin! – finalizou Seu Babau com a cara mais deslavada do mundo.  

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3 Respostas to “GATUNO”

  1. hahahahaha! Adorei esse gato Porreta!!! Nem tem desses aqui em casa!!!

  2. Cara, ta na hora de publicar em papel”! Esse seu Babau parece eu…kkkkkkkk

  3. Esse seu tem muita historia pra contar.
    Boa Gláucio!!!!

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