KID FIMOSIS

       capuz-negro                                                                                                                                                        Por Glaucio Fabrizio

      Quando nasceu, seus pais fugindo da guerra só te deram um nome meses depois. Seria Isaque, como seu tio, mas ter um nome judeu naquele tempo poderia lhe trazer grandes problemas. Sara sua bondosa mãe, mudou o nome para Neuza, assim como seu pai passou a se chamar Joaquim. Todos os machos judeus recém-nascidos são circuncidados, mas Sara, ou melhor, Neuza, na sua paranoia natural de épocas de guerra e perseguição, não permitiu o corte do prepúcio de seu filho único, afinal ela não queria correr o risco de alguém identificar a origem judaica de sua cria quando lhe olhassem a piroca sem capote, por mais absurdo que parecesse a ideia.

      Batizado cristão sob a alcunha de Pierre, já em terras distantes, demorou a compreender os seus pais lendo o livro sagrado dos judeus às escondidas enquanto todos dormiam, assim como os sabás eram festejados em qualquer dia da semana, principalmente naqueles dias em que seu pai estava de folga de qualquer um dos trabalhos temporários que arrumasse. O garoto cresceu nesta confusão, sem saber ao certo se era cristão (era obrigado a frequentar o catecismo nas manhãs de domingo) ou judeu. Mas para Pierre, o seu maior sofrimento era sem duvida a fimose. Na adolescência não conseguia controlar suas doloridas ereções (quando lembrava as tetas enormes da sua professora de francês). Ao urinar tinha que ter cuidado redobrado para não sair mijando tudo pela frente, sem falar que frequentemente era acometido por infecções urinarias.

     Certa manhã, Pierre veio todo contente mostrar um artigo no jornal sobre um medico que estava fazendo circuncisões gratuitamente na cidade, a mãe chorou e pediu que enquanto viva, ele mantivesse o couro da rola, pois ela não queria ver o único filho sendo perseguido:

– Mas mãe, a guerra já acabou faz tanto tempo! – choramingava Pierre.

– Não importa, o medico vai saber que você é Jud… – interrompeu a palavra levando a mão à boca dona Neuza.

– Mas mãe, ele é judeu, por isso ta fazendo tudo de grátis! – insistia Pierre.

– Certamente é um espião, ninguém quer ser judeu hoje em dia! – rebatia a mãe

– Mas mãe, nem todo mundo circuncidado tem que ser judeu…

– Meu Deus, você ta querendo me ver morta é isso? – encerrava o assunto a mãe, fingindo que a vista estava escurecendo e que ia desmaiar.

                                                                              ************

     A primeira relação sexual de Pierre foi traumatizante, aos dezessete anos arrumou uma namoradinha muito danada, os namoros no portão, de inocentes não tinha nada e aquelas dores (tanto da fimose como do saco cheio) apesar de horríveis eram muito bem disfarçados pelo garoto, afinal de contas não poderia dar uma de maricas e negar fogo para sua donzela. Donzela esta que certa noite resolveu te presentear, os pais viajaram e a deixaram aos cuidados da velha tia que tomava uns drinks para ver a novela e adormecia ate o outro dia na cadeira de balanço. A garota o levou pro quarto dos pais ficou nua e disse:

– Olhe, tem que ser só por atrás, porque na frente vai ser só depois de casar! – advertiu a moça

     Desta feita, Pierre, teve uma das experiências mais dolorosas de sua vida, o rabinho apertado da sua namorada o fez sangrar e ele sofreu horrores para disfarçar a dor lancinante, muito envergonhado, o rapaz nunca mais apareceu no portão, a donzela logicamente que o odiou para sempre.

Desse dia em diante, ao ouvir seus amigos confessando suas estripulias sexuais, sentia calafrios quando um deles dizia:

– Meu amigo fulaninha é uma delicia, xana apertadinha!

      Nos momentos de secura afetiva aguda, Pierre caia nos braços de Jeniffer(na verdade se chamava Jurema) a puta mais rodada das cercanias, devia ter uns 30 anos de experiência.

– Rapaz, esse dai adora uma folote, vai casar com Jurema vai? – alguém tirando sarro com Pierre.

     Pierre por varias vezes marcou a cirurgia de fimose, mas sempre na hora H pensava na mãe, mesmo que ela não precisasse saber, afinal a velha não ia passar o resto da vida checando a rola do filho, porem sua consciência martelava com a delicadeza de uma marreta juggernaut.

       Já adulto e com muito esforço, Pierre conseguiu entrar em uma escola de medicina, demonstrou habilidade com o bisturi, foi laureado e se tornou um cirurgião. Quando conheceu Lucinha, sua futura esposa, não demorou muito e sua mãe adoeceu, logo em seguida veio a falecer. No leito de morte, ela deu vários conselhos, sobre como respeitar sua futura esposa, aprovou Lucinha, moça de família, deu conselhos sobre não ficar devendo na praça, pediu que a primeira neta tivesse seu nome e finalmente naqueles momentos lúcidos que só temos perto do fim, abriu mão da obsessão e permitiu que o filho fizesse a cirurgia de fimose.

        Certa noite, depois de uma caminhada tranquila, ao chegar em casa Pierre colocou na vitrola In a Sentimental Mood, com Duke e Coltrane, fumou um grosso cigarro de Skunk, tomou uma dose de conhaque, fez assepsia das mãos, sentou sem calças numa poltrona confortável, puxou uma luminária focando o pau com álcool iodado e habilmente fez a sua própria circuncisão retirando o prepúcio que durante toda a sua vida, sufocou sua glande e todos os seus desejos, foi como nascer de novo, seis meses depois casou. Na sua noite de núpcias não ligou ao sentir que Lucinha não era tão apertadinha assim, longe de ser uma Jurema, mas pela primeira vez Pierre amou sem sentir dor.

     Alguns bons anos depois num dia de finados, juntamente com a esposa e a filha pequena nos braços, Pierre levou flores e umas relíquias suas de infância que sua mãe guardava envolto em um lenço: tufos de seu cabelo quando criança, uma coisa parecendo um torresmo velho(seu umbigo)e por fim, o seu prepúcio ressecado envolto numa gaze. Pierre sorriu e sentiu saudades de sua mãe deixando ali em seu túmulo as suas relíquias de recém-nascido. Sua filha se chamou Sara, quando adulta, Sara casou com um palestino da Cisjordânia chamado Alak que apesar da sua origem, era budista.

 

 

 

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