Arquivo para setembro, 2014

CARISMA E HIPNOSE NA TERRA DO DIABO

Posted in Uncategorized on setembro 12, 2014 by contosdacratera

Gonzalo-PeraltaTeolônio era uma pessoa carismática, talvez a mais carismática que já existiu. Quando nasceu, o médico ao invés de bater em seu traseiro fitou embasbacado seus olhinhos azuis abertos, era como se apenas com o olhar, o pequeno conversasse com ele contando suas aventuras intrauterinas. Ainda bebê as babás faziam fila na porta de sua casa querendo cuidar dele. Todos o adoravam e faziam questão de tê-lo por perto.

O rapaz cresceu assistindo televisão, primeiro com os programas infantis, depois com os shows de mágica, principalmente aqueles que envolviam a hipnose. Ficou fascinado desde o dia em que viu um então famoso mágico hipnotizando uma senhora a fazendo pensar ser um lutador de boxe peso pesado, a senhorinha sem luvas o acertou em cheio no queixo o nocauteando ao vivo e em cores no palco do seu show, enquanto ele caia lentamente desacordado a velhinha saltava feito um canguru ensandecido, desde então o mágico ficou com dificuldades para mastigar coisas e dar beijos de língua.

Ao longo da vida, Teolônio desenvolveu suas próprias técnicas de hipnose, era capaz de induzir qualquer criatura, apenas com um olhar sugestivo ou com um tom de voz diferenciado macio e acalentador. Conquistou muitas cabrochas que se sentiam seguras quando se aproxegavam em seu peito ouvindo sua voz de travesseiro, se fosse cantor não sobraria xereca para nenhum outro homem nessa face da terra, assim dizia uma ex-namorada que não quis ter o nome identificado. Nessa época o garoto carismático já sabia desde já que poderia ter ou fazer tudo aquilo que quisesse, mas como tinha um bom coração nunca prejudicou ninguém, até o dia em que resolveu entrar para a política.

Começou como vereador aos 21 anos recém-formado na faculdade de sociologia, na sua primeira campanha no horário reservado a propaganda eleitoral gratuita na tevê, passava 15 segundos que tinha direito, calado, com um sorriso de Monalisa na cara sem dizer nenhuma proposta, resultado: foi eleito batendo dois recordes, primeiro de votos e depois de divórcios, toda a mulherada queria dar pra ele, até alguns homens também.

Na câmara de vereadores causou uma revolução. Suas leis eram sempre aprovadas por unanimidade, conseguiu a façanha de por um projeto de lei, diminuir o salário dos vereadores em 80%, usando o seu forte poder de persuasão, fez com que quase a metade podre da câmara pedisse renuncia e o restante se convertesse aos rincões da honestidade. Quatro anos depois foi eleito deputado estadual e conseguiu outra revolução na assembleia legislativa, nos mesmos moldes de quando estava na câmara, com a diferença que na sua campanha, ao invés do silêncio, ele proferia três palavras: vote em mim!

Porém Teolônio só foi ter uma projeção nacional quando se elegeu deputado federal, causou intrigas e ganhou pela primeira vez na vida inimigos quando mexeu no maior vespeiro venenoso da política, a religião. Além de conseguir diminuir o salário dos deputados, acabou quase por definitivo com os cargos comissionados e aposentou praticamente todos os velhos políticos coronéis que durante anos mandaram e desmandaram mamando nas tetas do estado. A guerra contra sua pessoa começou quando ele induziu dois dos lideres da bancada evangélica a se casarem de papel passado, desistindo da política e se tornando os primeiros pastores de uma igreja exclusiva para gays. Enquanto isso na cúpula do maior partido cristão,  todas as castas reunidas discutiam desesperadamente o que poderiam fazer com o caso:

– Esse homem deve ter parte com o Satã, algo tem que ser feito – comentou um velho pastor.

– Ate o Pastor Zezão (um ex-zagueiro de futebol) se debandou pro lado dos afeminados – disse outro religioso.

– É o fim dos tempos, é o fim dos tempos! – gritava vários tornando um caos a reunião  parecendo um culto.

Apesar da forte campanha comprada contra Teolônio, jornais, revistas e telejornais que o difamavam a torto e a direito,  voltavam atrás se retratando quando o político carismático se pronunciava e tudo era revertido a seu favor, a popularidade logo o levou a ser senador, poderoso Teolônio mirava o maior cargo do executivo, queria realmente mudar o país, de senso de humor apurado no meio do caminho aprontou algumas, como na vez que induziu o mais velho cacique e grande latifundiário no congresso nacional a mudar o discurso  enquanto falava na importância do agronegócio:

– Eu dou a bunda, sempre dei, ai meu Deus, o que estou dizendo? – se perguntou em voz alta o velho enquanto baixava as calças e mostrava a bunda murcha no púlpito causando clamor, o pobre velho depois disso foi internado em um asilo.

Depois de fazer com que outro velho político procurado pela Interpol se entregasse a policia e devolvesse toda a fortuna subtraída dos cofres públicos, estava prestes a aprovar o que poderia ser as suas maiores conquistas: um incremento da lei da ficha limpa em que político pego em contravenções fosse banido da vida publica o impossibilitando ate de ter negócios posteriores com o estado, caso fosse um empresário e por fim a extinção dos partidos políticos envolvidos em corrupção (esse seria o mote da sua campanha para presidente).

Enquanto andava na rua e era parado por seus eleitores numa manhã agradável na capital do país distribuindo abraços e sorrisos, uma senhora ex-senadora da republica aposentada se aproximou com uma bíblia feita de C-4* na mão, abraçou o Teolônio e gritou Antes de explodir junto com o candidato e dezenas de simpatizantes :

– Sangue de Cristo tem poder!

Interrompeu-se ali naquele instante, a mais revolucionaria passagem de um político na historia desse país, apesar disso, suas leis continuam em vigor, varias foram as tentativas de derruba-las, felizmente sem sucesso pois o povo que o elegeu não permitiu. A cada tentativa de veto, o povo ia nas ruas quebrando tudo que se via pela frente, um deputado foi esquartejado e teve suas partes expostas em praça publica no norte do país.

Mesmo depois de morto, Teolônio bateu outro recorde, de mais vezes homenageado com nome de ruas, avenidas, praças, escolas e crianças. São Teolônios e Teolônias espalhados por todo o país, afinal ninguém foi mais carismático do que ele, o maior hipnotizador de todos.

Glaucio Fabrizio

Natal-RN setembro de 2014

*C-4 explosivo plástico de uso militar

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O ULTIMO DA FILA QUE SE FODA

Posted in Uncategorized on setembro 9, 2014 by contosdacratera

fila1

Por Glaucio Fabrizio

O inventor da fila deveria ser amaldiçoado até a décima geração. Na infância, ainda naquela ressaca da ditadura, éramos obrigados a cantar o hino nacional todas às quintas. Saíamos mantendo a formação com a mão direita sobre o ombro do colega de classe à frente, marchando para nossas obrigações cívicas, com chuva ou sol. Parecíamos pequenos fascistas adorando nossos Mussolinis imaginários que só saberíamos ou teríamos ideia de quem fora muito tempo depois nas aulas de historia, já com pentelhos nas genitálias, espinhas na cara e uma tara que parecia nunca se acabar. De fato, era mais divertido do que as aulas de religião, na verdade lições para ensinar alguém a ser cristão. Nunca tive aulas de candomblé ou budismo.

Ainda na escola, na hora do lanche, as filas na cantina eram desrespeitadas, as crianças nascem anarquistas e vão sendo domados pelos pais como animais de estimação ao longo da vida ate se tornarem adultos de coleira ou aliança no dedo. Existia fila para tudo, ate mesmo quando a ninfomaníaca do bairro resolvia liberar geral e se fazia aquela fila de adolescentes ansiosos para terem suas primeiras trepadas, primeiras DSTs. O ultimo da fila sempre se dava mal, pelo cansaço da ninfomaníaca ou simplesmente por já pegar uma carne pisada, mastigada como goma de mascar. O pobre coitado do Ozeas sempre era o ultimo, certa vez ele vomitou em cima da ninfomaníaca, tinha que ser um cabra muito macho para suportar o cheiro de peixe podre que a vagina de Deuzuíte exalava. Ao longo da vida passamos por tantas filas que daríamos muitas voltas ao redor da terra. No dia da formatura, as filas de futuros cidadãos eram enormes, todos esperançosos para sair dali direto para o matadouro de criatividade, a universidade.

No inicio dos anos 90, o país estava numa recessão daquelas. O dinheiro de hoje poderia não valer mais nada alguns poucos meses depois, a inflação era galopante ao passo que o ministro da economia peidava novas medidas ou criavam seus pacotes econômicos enfiados rabo adentro do povo. O então jovem e bonito presidente da republica, junto com sua cúpula resolveu confiscar as economias de suas cadernetas de poupança. O caos tomara conta do país, empresários faliram e se jogavam de prédios como santinhos de político em épocas de eleição, a população desesperada correu para os bancos na esperança de poder sacar o seu tão precioso dinheiro guardado. O povo não se incomoda de ser enrabado, mas tocar em suas economias é como tocar suas almas diretas para o inferno.

Desde cedo as pessoas esperavam do lado de fora o banco abrir, pareciam bois a caminho do abatedouro com suas caras sofridas de quem já sabia que iam virar hambúrguer antevendo más noticias. Filas imensas que davam voltas no quarteirão, como torcedores querendo comprar ingressos para a final do campeonato. Algumas pessoas madrugavam no lugar para garantir lugares, outras madrugavam apenas para poder vender as vagas na fila, há quem diga que uma velhinha mendiga ficou rica nessa época no negocio de vagas nas filas de banco, comprou uns terrenos, fez uns casebres para alugar e hoje pede esmola só por esporte, essa merecia estampar a capa de EMPRESÁRIOS DO ANO.

No lado de dentro, o ar condicionado não dava vencimento com a superlotação. Alias o ar condicionado de banco era o único alento, o único conforto diante do calor desgraçado que fazia do lado de fora, mas nem isso o povo tinha mais direito. Todo tipo de gente estava naquelas filas, homens, mulheres e crianças, idosos, gente preta, gente branca, gente marrom.

– Me desculpe senhora, mas isso é um cheque cruzado! – Disse com a língua meio presa um caixa meio afeminado para uma jovem morena que tinha toda pinta de mulher da vida.

– O que?! Aquele corno me paga! – respondeu a morena que saiu furiosa com aquelas coxas colossais numa ultra mini saia que se ela espirrasse mostrava os fundilhos.

– Paga sim filha, com cheque cruzado – disse baixinho o caixa logo em seguida chamando o próximo.

Um senhor de tapa olho e bigode tingido de acaju, ficava no guichê ao lado do afeminado, parecia se divertir mais com a situação, fazia piada de tudo:

– Como? Você quer sacar toda a sua poupança? Tá mais fácil botar na poupança do colega aqui do lado visse? – dizia o caixa pirata com um sorriso lacônico.

Sem filas preferenciais os idosos desmaiavam, urinavam e cagavam nas roupas, crianças choravam com fome, homens e mulheres se revoltavam. Às vezes lembrava as filas dos campos de concentração, com as pessoas vestidas com seus pijamas listrados esperando um pouco de sopa e um pão duro ou simplesmente numa fila direto para as câmaras de gás. Offices Boys ouviam musica em seus walkmans com envelopes a tira colo, às vezes com quilos e mais quilos de contas a serem pagas que muitas vezes irritava as pessoas.

– Já faz uma meia hora que esse moço tá sendo atendido! – reclamava uma senhora gorda com tetas imensas que fugiam do decote a cada palavra proferida.

À medida que o dia se aproximava da hora do almoço, os caixas iam deixando seus postos, tornando o serviço mais lento e penoso. Quando o ultimo caixa se levantou e colocou a placa de FECHADO em cima do balcão as pessoas alucinaram, um senhor que estava muito nervoso e era o próximo a ser atendido não aguentou e gritou pulando sobre o balcão atacando o caixa com uma chave de fenda ameaçando furar o seu pescoço o fazendo de refém:

– O ultimo da fila que se foda! – Gritou o homem

A policia foi chamada, logo a imprensa também chegou ao local como formigas em cima de um pirulito jogado ao chão, o homem com a chave de fenda foi identificado por Jesus da Silva, um eletricista desempregado que tentava a todo custo retirar as suas únicas economias no banco. Pessoas foram pisoteadas na confusão quando a tropa de choque entrou com bombas de gás e metendo borracha para tudo que é lado. O ultimo da fila era um gringo que não estava entendendo nada do que se passava, estava ali de gaiato esperando uma informação de como chegar à estação de trem mais próxima, se chamava Henry Cinaski, parecia bêbado com um sorriso sacana no rosto.

– Senhor, por favor me entregue a chave de fenda, vamos conversar – advertiu o policial negociador.

– Eu só quero meu dinheiro que juntei a minha vida toda! – foram as ultimas palavras de Jesus, antes de ser abatido na cabeça por um atirador de elite.