O ULTIMO DA FILA QUE SE FODA

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Por Glaucio Fabrizio

O inventor da fila deveria ser amaldiçoado até a décima geração. Na infância, ainda naquela ressaca da ditadura, éramos obrigados a cantar o hino nacional todas às quintas. Saíamos mantendo a formação com a mão direita sobre o ombro do colega de classe à frente, marchando para nossas obrigações cívicas, com chuva ou sol. Parecíamos pequenos fascistas adorando nossos Mussolinis imaginários que só saberíamos ou teríamos ideia de quem fora muito tempo depois nas aulas de historia, já com pentelhos nas genitálias, espinhas na cara e uma tara que parecia nunca se acabar. De fato, era mais divertido do que as aulas de religião, na verdade lições para ensinar alguém a ser cristão. Nunca tive aulas de candomblé ou budismo.

Ainda na escola, na hora do lanche, as filas na cantina eram desrespeitadas, as crianças nascem anarquistas e vão sendo domados pelos pais como animais de estimação ao longo da vida ate se tornarem adultos de coleira ou aliança no dedo. Existia fila para tudo, ate mesmo quando a ninfomaníaca do bairro resolvia liberar geral e se fazia aquela fila de adolescentes ansiosos para terem suas primeiras trepadas, primeiras DSTs. O ultimo da fila sempre se dava mal, pelo cansaço da ninfomaníaca ou simplesmente por já pegar uma carne pisada, mastigada como goma de mascar. O pobre coitado do Ozeas sempre era o ultimo, certa vez ele vomitou em cima da ninfomaníaca, tinha que ser um cabra muito macho para suportar o cheiro de peixe podre que a vagina de Deuzuíte exalava. Ao longo da vida passamos por tantas filas que daríamos muitas voltas ao redor da terra. No dia da formatura, as filas de futuros cidadãos eram enormes, todos esperançosos para sair dali direto para o matadouro de criatividade, a universidade.

No inicio dos anos 90, o país estava numa recessão daquelas. O dinheiro de hoje poderia não valer mais nada alguns poucos meses depois, a inflação era galopante ao passo que o ministro da economia peidava novas medidas ou criavam seus pacotes econômicos enfiados rabo adentro do povo. O então jovem e bonito presidente da republica, junto com sua cúpula resolveu confiscar as economias de suas cadernetas de poupança. O caos tomara conta do país, empresários faliram e se jogavam de prédios como santinhos de político em épocas de eleição, a população desesperada correu para os bancos na esperança de poder sacar o seu tão precioso dinheiro guardado. O povo não se incomoda de ser enrabado, mas tocar em suas economias é como tocar suas almas diretas para o inferno.

Desde cedo as pessoas esperavam do lado de fora o banco abrir, pareciam bois a caminho do abatedouro com suas caras sofridas de quem já sabia que iam virar hambúrguer antevendo más noticias. Filas imensas que davam voltas no quarteirão, como torcedores querendo comprar ingressos para a final do campeonato. Algumas pessoas madrugavam no lugar para garantir lugares, outras madrugavam apenas para poder vender as vagas na fila, há quem diga que uma velhinha mendiga ficou rica nessa época no negocio de vagas nas filas de banco, comprou uns terrenos, fez uns casebres para alugar e hoje pede esmola só por esporte, essa merecia estampar a capa de EMPRESÁRIOS DO ANO.

No lado de dentro, o ar condicionado não dava vencimento com a superlotação. Alias o ar condicionado de banco era o único alento, o único conforto diante do calor desgraçado que fazia do lado de fora, mas nem isso o povo tinha mais direito. Todo tipo de gente estava naquelas filas, homens, mulheres e crianças, idosos, gente preta, gente branca, gente marrom.

– Me desculpe senhora, mas isso é um cheque cruzado! – Disse com a língua meio presa um caixa meio afeminado para uma jovem morena que tinha toda pinta de mulher da vida.

– O que?! Aquele corno me paga! – respondeu a morena que saiu furiosa com aquelas coxas colossais numa ultra mini saia que se ela espirrasse mostrava os fundilhos.

– Paga sim filha, com cheque cruzado – disse baixinho o caixa logo em seguida chamando o próximo.

Um senhor de tapa olho e bigode tingido de acaju, ficava no guichê ao lado do afeminado, parecia se divertir mais com a situação, fazia piada de tudo:

– Como? Você quer sacar toda a sua poupança? Tá mais fácil botar na poupança do colega aqui do lado visse? – dizia o caixa pirata com um sorriso lacônico.

Sem filas preferenciais os idosos desmaiavam, urinavam e cagavam nas roupas, crianças choravam com fome, homens e mulheres se revoltavam. Às vezes lembrava as filas dos campos de concentração, com as pessoas vestidas com seus pijamas listrados esperando um pouco de sopa e um pão duro ou simplesmente numa fila direto para as câmaras de gás. Offices Boys ouviam musica em seus walkmans com envelopes a tira colo, às vezes com quilos e mais quilos de contas a serem pagas que muitas vezes irritava as pessoas.

– Já faz uma meia hora que esse moço tá sendo atendido! – reclamava uma senhora gorda com tetas imensas que fugiam do decote a cada palavra proferida.

À medida que o dia se aproximava da hora do almoço, os caixas iam deixando seus postos, tornando o serviço mais lento e penoso. Quando o ultimo caixa se levantou e colocou a placa de FECHADO em cima do balcão as pessoas alucinaram, um senhor que estava muito nervoso e era o próximo a ser atendido não aguentou e gritou pulando sobre o balcão atacando o caixa com uma chave de fenda ameaçando furar o seu pescoço o fazendo de refém:

– O ultimo da fila que se foda! – Gritou o homem

A policia foi chamada, logo a imprensa também chegou ao local como formigas em cima de um pirulito jogado ao chão, o homem com a chave de fenda foi identificado por Jesus da Silva, um eletricista desempregado que tentava a todo custo retirar as suas únicas economias no banco. Pessoas foram pisoteadas na confusão quando a tropa de choque entrou com bombas de gás e metendo borracha para tudo que é lado. O ultimo da fila era um gringo que não estava entendendo nada do que se passava, estava ali de gaiato esperando uma informação de como chegar à estação de trem mais próxima, se chamava Henry Cinaski, parecia bêbado com um sorriso sacana no rosto.

– Senhor, por favor me entregue a chave de fenda, vamos conversar – advertiu o policial negociador.

– Eu só quero meu dinheiro que juntei a minha vida toda! – foram as ultimas palavras de Jesus, antes de ser abatido na cabeça por um atirador de elite.

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Uma resposta to “O ULTIMO DA FILA QUE SE FODA”

  1. Dudu Vortex Says:

    Que massa man. Quase morro de rir aqui.

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