SÃO EGÍDIO EM CHAMAS

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                                                                                                                                                                Por Glaucio Fabrizio

Eles se conheceram formalmente numa fila do INAMPS, antes daquela tarde José e Zulmira tinham varias coisas em comum, além de serem alcoólatras, frequentavam os mesmos lugares e eram deficientes físicos. Aleijados de nascença como se dizia na época, José era mais conhecido como Zé das Roda, andava numa cadeira de rodas com uma espécie de manivela na lateral. Zé das Roda tinha os membros inferiores atrofiados, era um homem da cintura pra cima, para baixo era como um bebezinho de colo. Tinha o braço direito maior que o esquerdo, mas curiosamente a manivela ficava no lado do braço menor, o braço maior ele usava como freio apertando o pneu, certamente não tinha mãos delicadas. Era um bom sapateiro, caprichoso e habilidoso, às vezes vacilava nas carraspanas e os meninos de rua lhe roubavam cola pra cheirar no mangue, meninos estes que constantemente vilipendiavam o pobre sapateiro gritando:

– Zé dá a roda, Zé dá a roda!

– Vão pro inferno mangote de fela da puta! – rebatia sempre o pobre homem.

Zulmira era uma galega queimada do sol das salinas. Nasceu com uma perna também atrofiada, parecia uma perna de uma criança de cinco anos. Usava uma muleta de madeira, geralmente o mesmo vestido florido, uma chinela japonesa, os olhos azuis habitualmente avermelhados, como se tivesse acabado de acordar, alguns diziam que ela usava tóxico. Fazia grude pra vender na praia e vivia disso. José e Zulmira moravam numa pequena cidade litorânea, eram analfabetos, desamparados, sobreviviam no dia a dia e a noite como besouros eram atraídos pelas luzes dos bares, principalmente aqueles mais ferrados. Zé das Roda chegava e parava num canto, enrolava um brejeiro e ficava observando o movimento, pedia uma meiota de cana e ficava na sua bebericando a pinga no crânio de um preá que ele sempre carregava amarrado no pescoço quando saia pra beber, um dia foi seu preá de estimação, Damião.

Lá pelas tantas da madrugada ela chegava, já meio possuída pelos demônios etílicos, tentava seduzir alguém em uma mesa, bebia um trago, depois era afugentada como um cachorro faminto tentando comer as sobras embaixo da mesa de uma lanchonete. A tertúlia pra ela começava quando o ceguinho puxava o fole, antes os olhares de repulsa pra aquela mulher deficiente agora se voltavam com encanto, pois ela bailava no barro pisado do terreiro de Dona Frizêlda com uma leveza angelical, logo aparecia o primeiro par, com um braço apoiava a muleta de madeira, com o outro agarrava firme a cintura do homem, assim deslizavam como que flutuando sem levantar poeira naquele forrobodó, as putas perfumadas do lugar sentiam inveja, todos queriam dançar com ela, Zé das roda observava bebendo sua pinga no crânio de Damião, às vezes com ciúmes de sua amada secreta, às vezes boquiaberto como que estivesse olhando um anjo bailando nas nuvens brancas do paraíso.

Já perto de amanhecer Dona Frizêlda ia desligando as luzes do terreiro e todos iam embora devagar, Zé das Roda via de longe Zulmira cambaleante arrastada por algum cabra que ia comê-la escondida lá no cais, sentia ódio de si pois não era homem suficiente para possui-la, ela nem mesmo olhava pra ele, só uma vez, quando ele estava tão embriagado que caiu da cadeira, todo cagado e mijado, ela parou para olhar se ele estava vivo, balançou a cabeça negativamente e saiu se equilibrando na velha muleta. José odiava a sua situação, bebia pra espantar a tristeza, mas era que nem catinga de cu que nunca cessava. Um dos dias mais felizes de sua vida foi na fatídica tarde em que encontrou Zulmira na fila do INAMPS, na cidade vizinha, um centro urbano mais desenvolvido. Tentavam pela centésima vez uma aposentadoria que sempre lhes eram negados, pois eles não residiam naquela cidade, o carimbo vermelho de NEGADO entristecia os olhos de Zé, e enchiam de ódio os olhos de Zulmira:

– Bando de fi de rapariga, eu sou uma aleijada num tão vendo seus porra?!

Quando foi colocada pra fora da repartição pelos seguranças, Zé das Roda estava a sua espera no lado de fora, tomou coragem e a convidou pra tomar uns tragos numa bodega que tinha perto do ponto onde eles pegariam a condução pro litoral:

– É muita omilhação, aqui quem é pobre num tem vez, ainda mais sendo aleijado! – lamentou Zé enquanto tomava o seu trago.

– Eu quero é que tudo vão tomar no cu ate sair sangue pelas urêia! Vociferou Zulmira.

– Dizem que lá no sul um homem perdeu um dedo e se aposentou por invalidez, hoje é sindicalista – Disse um almofadinha que estava ao lado no balcão se metendo na conversa.

– E o que djabo é sindicalista? – perguntou já meio trôpega na língua Zulmira ao mesmo tempo em que se enroscava no almofadinha com sua perninha atrofiada.

– Sindicalista é um tipo que cuida para que seus companheiros tenham seus direitos garantidos como trabalhador! – respondeu o almofadinha.

– Ouxe e isso é lá trabalho de gente, parece vagabundagem! – rebateu Zé.

– Qual a sua graça moço? – Perguntou Zulmira.

– Mauro Junior de Albuquerque, advogado a seu dispor! – respondeu o almofadinha lhe entregado o seu cartão.

Adevogado Mauro, num carece não, num sei ler nem escrever um ó com uma quenga – disse Zulmira dando uma gargalhada seguida de pigarro.

– Seu Doutor, o que a gente faz pra conseguir se apusentar? – perguntou Zé das Roda.

– Bem, primeiro preciso do titulo de eleitor de vocês, meu cliente, vereador muito bem articulado vai ser o homem que pode conseguir isso fácil – disse o advogado.

– Xii moço, nóis num tem isso de titulo não! Disse o pobre Zé com um sorriso amarelo.

Depois de ouvir isso, o homem foi embora ligeiro, como o diabo foge da cruz, mas sem esquecer antes de pegar o seu cartão de visitas de volta.

Horas se passaram e ate a condução para o litoral chegar (na verdade era o carro do leite que levava entre passageiros, carneiros e galinhas pra zona rural até o litoral) Zulmira estava tão embriagada que já não se aguentava de pé, Zé muito solícito lhe acomodou em seu colo na cadeira, ela adormeceu em seus braços como uma criança, aquele homem nunca esteve tão feliz em sua vida, acalentando sua amada num sono pesado, às vezes roncava baixinho, sentia o cheiro de óleo de côco do seu cabelo galego queimado de sol, sentia o calor de seu corpo magro, mas com aquela certa delicadeza típica da pele feminina. Quando chegou ao litoral já de noitinha Zulmira ainda dormia, Zé a levou pra seu casebre, a colocou na sua cama com forro de palha, foi ate o tanque nos fundos do barraco, se lavou ligeiramente e quando retornou Zulmira dormia com as pernas entreabertas, o vestido meio levantado mostrando a calcinha branca e o seu sexo peludo dourado saindo nas laterais da lingerie, meio hipnotizado com a visão Zé acariciou levemente os pelos loiros do púbis da galega, enquanto afastava um pouco pro lado a calcinha, Zulmira acordou com um sorriso, quando colocou a mão dentro da calça de Zé das Roda e se deparou com seu órgão minúsculo caiu numa gargalhada:

– Ouxe Zé, vai me matar de fazer cósca com isso é?

Furioso o homem acertou forte com seu braço maior o rosto de Zulmira a jogando na cama, meio atordoada com a bofetada, sentiu um puxão forte pelas coxas, Zé a puxou violentamente arrancando a calcinha e começando a chupar Zulmira alucinadamente, no começo ela tentou se desvencilhar, mas depois foi tomando gosto e já começava a revirar os olhos de prazer, gritava, suava e arranhava as costas de Zé, puxava o seu cabelo e pedia pra que ele não parasse nunca mais de chupa-la. Zulmira não parava de gozar e no meio de tanto prazer não notaram quando a lamparina acesa caiu no chão do barraco começando um incêndio que se alastrou rapidamente por conta do material que o sapateiro usava no seu oficio, quando se deu pelo incêndio, a cama já pegava fogo, Zé tentou salvar sua amada mas já era tarde, entre os gritos dos dois e o cheiro de carne queimada que subia no ar, ainda restava na parede do barraco um antigo calendário desbotado de São Egídio que parecia observar placidamente os amantes queimando em dor, o calendário do santo padroeiro dos aleijados não demorou muito até também ser consumido pelas chamas do casebre.

Somente no outro dia, de manhã, apareceu um fusca da policia junto com um repórter gordo pra fazer a reportagem da morte dos desvalidos:

– Cristo santo mas que catinga de carniça é essa? – perguntou o policial.

– É catinga de churrasco de pobre! – respondeu ironicamente o repórter enquanto fazia fotos do que havia sobrado do casebre.

Anos depois esse repórter se tornou apresentador de um programa sensacionalista policial na tevê, aproveitou a fama, entrou na política e conseguiu se aposentar por invalidez como deputado, típico das terras tupiniquins onde os mais pobres, na sua grande maioria, sempre toma no rabo.

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