BUS DRIVER

motorista-onibus2

por Glaucio Fabrizio

No inicio se chamava Agenor de Andrada, nome imponente, tipo o próprio, grande e sutil como um mamute. O franzir da testa, tentando enxergar ao longe o tornava mais carrancudo do que era. Sonho de criança realizado adorava a profissão como poucos, mas nos últimos tempos a civilização estava fodendo com seu sonho. Primeiro tentou ser soldado, porem foi reprovado por ter pés muito grandes para correr e dedos muito grossos para gatilhos. Restou-lhe o volante do ônibus.

Como não tinha família, praticamente vivia no ambiente do trabalho, dormia nos alojamentos, muito direito e integro, perdia noites de sono quando cometia algum erro, às vezes coisas simplórias demais para se preocupar, mas que virava uma bola-de-neve-de-consciência na sua cabeça. Não reclamava da vida que levava, embora tenha conseguido pouca coisa no oficio, como umas hemorroidas e pressão alta. Muito cigarro, café, gordura, sódio e remédio pra aguentar a lida, nunca foi de beber. Quarenta anos nessa levada até que as sombras da ultraviolência passassem a rondar e defenestrar o seu sagrado local de trabalho, bem perto da aposentadoria.

A cidade estava perigosa, rebeliões nos presídios, centenas de delinquentes soltos nas ruas, a tv noticiava tudo com imagens em alta definição na hora do almoço pra fazer a digestão. Como nas estórias do velho-oeste selvagem americano, bandidos assaltavam ônibus tal qual nos tempos das diligencias. Circulava uma nova droga chamada Mijo-do-Cão, uma maquina de criar assassinos, vinte vezes mais viciante do que o crack. A droga era inalada e fazia o usuário excretar um suor fétido, como urina e enxofre. Sob efeito o viciado ficava perigoso e hostil, na breve abstinência, se tornava um psicopata capaz de tudo para conseguir outra dose, oito meses de uso era suficiente para causar danos irreversíveis ao cérebro e consequentemente demência.

Há décadas o exercito tentava combater o narcotráfico, bilhões de recursos públicos foram queimados junto com sangue e pólvora. A população pobre ficava na linha entre o exercito e os guerrilheiros do narcotráfico, de quatro em quatro anos bandidos assumiam seus postos no congresso e nada mudava. Agenor via de perto isso acontecer quase que diariamente. Perto de se aposentar não negava fazer os trajetos mais perigosos da cidade, muitos motoristas fugiam, pagava para Agenor fazer a linha em seu lugar. Assim o gigante fazia um pé-de-meia antes de largar a profissão que amava. No inicio pensou em comprar uma van e trabalhar com estudantes, mas seu corpanzil já dava sinais de desgaste, hérnia de disco por vícios posturais. Precisava de descanso. Já tinha decidido utilizar o dinheiro das contas pra comprar um terreno na zona rural, fazer um pequeno rancho, com horta, criar umas poucas galinhas, uma cabra chamada Lady Dy, umas frutíferas dando sombra, igual a um sonho que teve.

No dia que de Jandira subiu pela primeira vez no seu itinerário, foi paixão a primeira vista. Já passava dos 35 anos, corpo delgado, pele vermelha como brasa, o coração do velho motorista sentiu um baque. Vinda do interior a índia trabalhava como massagista em varias saunas espalhadas pela cidade, todas pertenciam ao Grupo dos 13, gang de empresários e políticos que jogavam as cartas na mesa do crime organizado local. Sempre gentil, depois de algumas viagens ofereceu os seus serviços a Agenor o tornando um cliente especial, Jandira trabalhava três dias na semana exatamente nos dias que o motorista tinha folga, então toda semana a índia cuidava de Agenor como um rei. O gigante mal cabia na maca de massagens, as pernas ficavam pra fora. Preferia encontrar a índia de manhã cedo e depois tomavam café juntos.

Os dias seguiam o seu rumo de violência, Agenor chegou a ser assaltado duas vezes na mesma semana, pelo mesmo ladrão viciado em Mijo-do-Cão ou MDC. Era um jovem com pouco mais de vinte anos, baixa estatura, cadavérico, a cara ossuda e os dentes apodrecidos. Olhos esbugalhados que pareciam saltar da cara, geralmente acompanhado de um comparsa muito parecido com ele, não seria uma surpresa se fossem gêmeos. Portando um 38 enferrujado, roubava o dinheiro do caixa enquanto o outro conferia os passageiros com uma faca. A partir de então, quando Agenor via alguém suspeito não parava no ponto, muitos passageiros esbravejavam quando passava o ônibus direto.

A cada semana que passava Agenor ficava mais vidrado na índia Jandira. Não conseguia tirar ela da cabeça, dormindo sonhava com ela, acordado também sonhava desejando a sua pele macia quente e perfumada, as mãos com óleos e cremes massageando seus músculos cansados e tensos, a boca macia beijando a sua, os cabelos pretos de graúna acariciando o seu rosto quando ela se colocava por cima para sentar no seu órgão monstruoso finalizando a sessão com uma gozada. Estava tão apaixonado que nem se lembrava de ter ciúmes dela com outros clientes, tinha sido sem duvida a melhor coisa que acontecera em sua vida.

Naquela manhã cinzenta de maio Jandira faria a sua ultima sessão de massagem com Agenor, era dia de folga, mas um motorista pediu para cobri-lo, Agenor aceitou, mas antes se encontrou com a índia. Por volta das dez da noite viriam a se ver novamente. Já indo pra casa, largando o batente, a moça sentou na cadeira por trás do motorista. Iam conversando sobre a vida, ele sentia uma grande paz de espirito ouvindo a voz de sua amada enquanto trabalhava.

O ônibus estava praticamente vazio, entretido com Jandira, parou no ponto e não percebeu que era o viciado que já havia assaltado ele outras vezes. Desta vez estava sem seu comparsa e muito mais alterado, visivelmente drogado, encostou o 38 enferrujado na têmpora direita de Agenor, rapidamente depois de pegar o dinheiro do caixa, saltou pela roleta e foi direto na índia Jandira, quando a abordou disparou um tiro no peito da amada de Agenor acidentalmente. Furioso o gigante como um raio saltou a roleta dando um chute derrubando o viciado, antes q ele levantasse apontando o 38, Agenor com uma mão segurou no tambor do revolver, sua mão gigante impossibilitou o mecanismo da arma em disparar, por mais que o viciado tentasse puxar o gatilho, não conseguiu, pois ficou emperrado. Com a outra mão o motorista apertou com tanta força e ira que acabou estraçalhando a garganta do viciado, o sangue tomou conta do chão do ônibus.

Agenor como um louco saiu dirigindo o ônibus pela cidade em busca de um hospital, arrastando os poucos carros que ainda circulavam pela cidade, incluindo duas viaturas da policia. Conseguiu chegar num hospital de urgência particular a tempo de salvar a vida da sua amada. Foi preso pela conduta perigosa no volante e homicidio, mas teve sua fiança paga por admiradores das redes sociais que passaram a trata-lo como um herói pelo feito, com sua carteira cassada, o gigante finalmente abandonou o oficio e se arrumou no seu rancho dos sonhos, na zona rural. Jandira voltou pro interior e abriu um salão de beleza. Hoje Agenor é conhecido pela alcunha de Keanu Reeves brasileiro, por conta do filme Velocidade Máxima. Cria porcos e galinhas e há quem diga que terá a sua historia contada no cinema por um tal de Scorsese. Responde em liberdade aguardando seu julgamento.

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