Arquivo para julho, 2015

DROPS AMARGOS SABORES URBANOS

Posted in Uncategorized on julho 28, 2015 by contosdacratera

                                                                                                                                                                             Por Glaucio Fabrizio
Naquela tarde as três horas, parecia uma espécie de limbo entre os poucos que circulavam pela urbe, sem muitos estudantes nem trabalhadores indo ou voltando do trabalho, a condução seguia rumo a Uptown quando um sujeito enorme da cara-suada-e-rosada-do-sol subiu urrando como um leão marinho no cio perguntando se alguém poderia pagar sua passagem, uma jovem senhora com uma sombrinha lhe deu uns trocados. O homem disse ser representante de uma organização que trata de dependentes químicos, saiu distribuindo a cada um dos passageiros sentados um pequeno kit contendo a mais variada espécie de bugigangas como espelhinhos, mini agendas telefônicas, canetinhas, lanterninhas, drops, barras de chocolate, além de um folheto com algum texto bíblico. Depois de citar de cabeça uma passagem do evangelho e contar seu triste testemunho de vida onde perdeu tudo que tinha pro álcool e o crack, saiu recolhendo os kits rapidamente com o corredor praticamente livre. Alguns davam umas moedas e devolviam o produto, outros compravam dois ou somente um. Na ultima poltrona estava um jovem com dreadlocks e camiseta de Bob Marley, este levantou a mão e perguntou:

-Tem algum desses com isqueiro? – perguntou ao mesmo tempo em que estava de olho na barra de chocolate.

O ônibus parou no ponto, o sujeito realmente tinha um kit isqueiro com versículo impresso, desceu da condução para logo em seguida já subir noutro que vinha atrás.
Da mesma condução na qual o sujeito suado subiu, saltou uma bela jovem com um vestido florido justo ao corpo exibindo sua forma atraente até para os pardais que brigavam por um espaço num galho de arvore. O barulho do salto alto na calçada tinha quase uma cadencia de marcha marcial.  Os seios balançavam no decote, esquerda direita, esquerda direita, uns garotos recrutas que serviam o tiro-de-guerra pararam boquiabertos batendo continência. Um artista de rua que fazia malabares deixou as bolas caírem, um guarda de transito esqueceu o oficio enquanto olhava para a bela mulher e deixou de multar alguns barbeiros. Atravessou a faixa de pedestres de forma glamorosa abrindo caminho entre os transeuntes. Alguns otários buzinavam pra ela que seguia seu desfile descomunal pela rua. A chuva que começava a cair não conseguiu interferir na elegância da moça, era como se as gotas d’agua não atingissem sua beleza, caminhando direto para entrada daquele colossal templo de consumo, as portas automáticas abriram fazendo reverencia a sua beleza. Parou para retocar a maquiagem, os cabelos negros brilhavam como cachoeiras de café, estava ali para uma entrevista de emprego muito importante, vinda da capital vizinha sonhava arrumar um bom emprego e continuar a vida naquela cidade que havia adotado para viver. Ao olhar para a vitrine da loja achou sua barriga (chapada) um pouco saliente e ficou preocupada, não podia perder aquele emprego por conta daquele bucho (pura paranoia da morena) sem pensar duas vezes se dirigiu ate a farmácia mais próxima e pediu o laxante mais poderoso que eles possuíam, tomou ali mesmo umas boas goladas do frasco que tinha uma aparência de xarope. O remédio fez efeito muito rápido, o suficiente para não dar tempo da moça chegar ao banheiro, mesmo com a bosta fina escorrendo por suas belas pernas torneadas, a moça seguiu elegante, segurando o choro, toda cagada, mas sem perder a pose.

Ainda no templo de consumo havia um grande supermercado. Por ali rondava um senhor muito magro aparentando 1,90 de altura, de boné enterrado na cabeça quase cobrindo seus olhos e uma barba rala com pelos grisalhos. Parecia tranquilo, sereno enquanto a cidade lá fora cuspia em seus cidadãos como se estivesse entojada, prenhe. Usando um agasalho de time de futebol, o senhor caminhava na seção de eletrodomésticos, apreciava o cheiro dos eletrônicos, passava o dedo meio que avaliando se a limpeza do lugar havia sido desleixada procurando poeira nas prateleiras. Experimentou alguns bonés na seção de vestuário, não encontrou as cuecas samba-canção, gostava da liberdade nos bagos, cuecas apertadas tipo sunga era coisa de afeminado pensava ele, pareciam calcinhas. Nos secos e molhados, adorava ver a grande variedade de grãos multicoloridos, os cheiros, as texturas.  Lembrava-se de sua infância quando ia à feira com a mãe, viajava no tempo e enfiava as mãos na farinha amarela, nas sacas de lentilhas, arroz vermelho, quase como Amelie Poulain. Em êxtase, as câmeras espalhadas por todo o lugar já havia deixado em alerta os seguranças que foram ao seu encontro, quando chegaram lá se depararam com o senhor de calças arreadas com o seu pênis grande e mole enfiado no barril de azeitonas. Os guardas saltaram em cima do idoso imobilizando e jogando a cara do velho contra o chão. Mesmo depois de tomar uns safanões, socos e choques elétricos, o velho mostrava um sorriso tranquilo, apesar da violência que fez sangrar sua boca.
No mesmo instante que o senhor do pênis no barril de azeitonas frescas era dominado e hostilizado por seu ato indecoroso, um livro jazia abandonado num banco de ponto do ônibus no outro lado da rua. Uma senhora aparentando 50 anos, cabelos pretos muito longos e bem penteados, vestido muito abaixo dos joelhos, bíblia embaixo do braço, óculos de armação e lentes grossas que deixava o seus olhos com aspecto de enormes, sentou ao lado do livro que estava esquecido no banco. Atraída pelos desenhos orientais da capa resolveu folheá-lo. Tratava-se de um livro de medicina tradicional chinesa comentada por um medico muito famoso que se apresentava frequentemente na TV. Tinha todo tipo de receita que se pode imaginar sempre com os comentários muito pontuais, fazendo alusão e comparações com o ocidente. No capitulo referente à limpeza intima a senhora ficou muito envergonhada quando leu que a mulher deveria diariamente descascar um pepino e introduzir na vagina em movimentos circulares para controlar a acidez interna e desta forma evitar infecções e mau cheiro. Ficou mesmo horrorizada no tópico que falava na importância vital do esperma para a saúde, indicava o seu uso na pele para mantê-la bem hidratada e nutrida, no comentário o medico ainda afirmava que era comum usar esperma nos batizados na época de Cristo, só depois foi substituído pela agua. Não aguentou e vomitou ali mesmo imaginando um padre se masturbando e gozando na cabeça de algum bebê, ou então imaginando muitos fieis enchendo um balde para um batismo coletivo.

Não muito distante dali, com a noite já se aproximando, no lado de fora do templo de consumo algumas pessoas se amontoavam e se espremiam no abrigo ridículo das paradas, fugindo da chuva agora incessante. Vendedores ambulantes se viravam com guarda-chuvas, o fogareiro aceso ainda deixava suspenso no ar o cheiro de milho verde cozido. Era comum naquele lugar aparecer do nada um travesti magro pedindo moedas, chegava pedindo licença com sua voz anasalada:

-Oi meus amores, vocês já me conhecem daqui né? Estou pedindo esses trocados, pois minha família me renega e ninguém emprega traveco! –disse o travesti que usava uma capa de chuva da hello kitty.

Algumas pessoas davam uns trocados, outros fingiam não ouvir, os mais estúpidos soltavam piadinhas infames, imaginavam que o dinheiro era pra comprar toxico. Ronaldo como se chamava tinha o sonho de fazer a cirurgia de mudança de sexo, desta forma guardava cada centavo que conseguia arrumar na rua, emprego era difícil, as pessoas não confiavam em travestis, no inicio ainda conseguia uns bicos como diarista, mas depois de ser acusado injustamente de roubo, resolveu recorrer a sociedade como pedinte, não se tratava de preguiça, pois caminhar quilômetros diariamente não era digno de preguiçosos, a sociedade o marginalizava não menos que a família. Não se prostituia, mas era muito namorador, a cidade estava cheia de gente solitária que caia nos seus braços magros em busca de carinho, dormia nos fundos de uma oficina no subúrbio, o dono do lugar era seu primo o único da família que ainda lhe era solidário. Chegando ao seu quarto, foi em busca do baú-cofre onde guardava as moedas arrecadadas, ficava malocada num buraco embaixo da cama, depois calmamente se despiu defronte de um velho espelho se olhando enquanto fumava delicadamente como uma gueixa um toco de cigarro, os seios com silicone industrial mal aplicados com formas bizarras, um mamilo infeccionado, escondia o pênis entre as coxas e se imaginava depois da cirurgia, a mulher mais bela da cidade, senão a mais feliz.

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