NÁUFRAGO

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                                                                                                                                                               Por Glaucio Fabrizio
Atormentado por uma enxaqueca moral diária nos últimos dois anos, Bertoldo Antunes já não tinha paciência para travar diálogos com outras pessoas. Enclausurado numa redoma de intolerância social, até o cantar de um passarinho poderia incomodar, principalmente quando não conseguia dormir na noite anterior. Tomava café com pão e nas primeiras horas do dia sentia um certo conforto até o momento que uma de suas vizinhas do prédio acordava e tirava o seu sossego com barulhos de panelas, cantigas religiosas e comentários fervorosos sobre o capitulo passado da telenovela ou da roupa indecente da gostosa do 1808, tudo  isso com uma voz rouca de quem fuma 4 maços de cigarro diariamente.

As 7 e meia da manhã o filho da vizinha trazia o seu neto, pra sorte de Bertoldo, nesse momento geralmente ele estava indo pegar a condução até a repartição onde trabalhava como funcionário publico. O garoto era infernal e nas poucas vezes que esteve na casa da sua avó no dia que Bertoldo também estava em casa, foi difícil sobreviver sem um AVC por tanta aporrinhação e barulho, a musiquinha da galinha escrotinha era a coisa mais insuportável para o náufrago.  A voz rouca intercaladas com tosses e pigarro a cada gargalhada da avó chamando o neto de coisa fofa fazia Bertoldo sonhar acordado, ele se imaginava saindo de casa deixando uma boca de gás aberta no fogão, sonhava com uma explosão tipo Hiroshima devastando toda a vizinhança e as gargalhadas de pigarro da sua vizinha.

No ponto de ônibus Bertoldo colocava um fone de ouvido, mesmo sem ouvir musica, só para evitar papo com os outros. Sempre tinha uma senhora solitária que puxava conversa, enquanto o nosso personagem fingia ouvir e sacudia a cabeça lentamente, nem fazendo sim nem fazendo não. Certa vez dentro da condução um senhor tentou puxar conversa mas Bertoldo se fingiu de surdo, pra sua surpresa o homem conhecia a linguagem dos sinais e a viagem se tornou um grande estorvo. Quando alguém atendia o celular dentro do ônibus então era um grande martírio, ouvir conversas torpes quase gritadas por conta do barulho do motor do veiculo, gritarias (conversas) sobre a rapariga do marido de uma, ou sobre o placar do jogo de outro.

O dia costumava ser lento na repartição, os colegas de trabalho já conheciam o seu temperamento, mas não conseguiam evitar conversar entre eles, alias uma coisa que funcionário publico não consegue evitar: falar no trabalho, falam de tudo, desde a vida alheia até a cirurgia de hemorroidas que atrapalha horrores na hora de defecar. O alivio chegava as 17:00 horas quando o naufrago social batia o cartão e saia afrouxando a gravata como se libertando de correntes, todo dia. No fim de semana Bertoldo praticava mergulho e fotografia na Baia dos Afogados. Aqueles minutos embaixo d’agua eram esplendorosos para ele, o silencio, os poucos peixes que sobrevivam à poluição da baía. Apesar do nome nosso mergulhador solitário nunca avistou corpos ou esqueletos de vitimas de afogamento no lugar. Fotografava muita coisa como tampa de privada, botas, placas e latarias de carro, garrafas e latas de refrigerante ou cerveja e todo tipo de coisa que você pode encontrar nos supermercados. Ganhou até um premio com uma belíssima fotografia que foi usada numa campanha dessas ongs ambientais, ele encontrou um carrinho de compras e logo conseguiu enchê-lo com outros lixos encontrados por ali, tipo garrafas de detergente, latas de óleo, engradados de bebida, com as garrafas e tudo mais.  A luz do sol que entrava ganhava cores, talvez pela própria poluição suspensa na agua, parecia uma imagem futurista pós apocalíptica do consumismo mundial. Era também no final de semana que Bertoldo encontrava Alzira, uma massagista surda muda que aliviava a sua tensão com uma massagem cósmica finalizada com uma lenta e intensa gozada tântrica.

Já não frequentava mais bares, comprava uma garrafa de uísque e a derrubava em casa mesmo sozinho, sentado no escuro da sala, em dias de insônia ajudava a dormir, muito embora os pesadelos fossem mais amargos nesses dias. Antes ele fumava um grosso baseado de Skank, mais saudável que o álcool, mas o deixava com uma forte impulsividade para conversar, conversava sozinho, com as paredes, de frente pro espelho, sentia ate vontade de dançar. Definitivamente Bertoldo não gostava de ouvir sua própria voz, desde criança quando se gravou cantando uma musica num velho gravador aos 8 anos de idade. Só o uísque salvava.

Morava no 18º andar, num condômino de classe media baixa, eram  milhares de apartamentos em um enorme amontoado de edifícios, tipo uma floresta de arranhas céus.  A verticalização da cidade era marcante, não existia mais subúrbios como antigamente, todos migraram para apartamentos apertados, de seu Ap Bertoldo não conseguia ver o céu , somente prédios que ficavam tão próximos um dos outros que era possível conversar da janela com o morador de outro edifício. O voyeurismo era comum desde a era dos reality shows.

O prumo da vida de Bertoldo começou a mudar no dia que não se ouviu mais barulho da sua vizinha, pouco tempo depois ficou sabendo que ela havia falecido, estava internada há dias com um enfisema pulmonar brutal que lhe ceifou a vida. Não demorou muito até chegar um novo morador, ficou preocupado no dia que se deparou com um belo piano no corredor, a dona e sua agora vizinha estava no elevador, era uma jovem senhora, devia ter uns 45, cabelos encaracolados e ruivos, tinha olhos castanhos meio esverdeados, sardas no rosto, usava uma roupa confortável, cheirava bem,  olhou profundamente nos olhos de Bertoldo, mas não falou com ele, nem um bom dia deu. Ele gostou dela. Morava sozinha, não recebia visitas e era silenciosa como um gárgula no alto de um prédio. Apesar de não se interessar  pela musica, Bertoldo se emocionava quando Helena (descobriu o nome com o porteiro) tocava diferentes peças clássicas ao piano toda noite.

A musicava soava triste mas trazia uma certa luz ao escuro da sua sala melancólica e quase silenciosa (o vento as vezes assobiava por alguma fresta de janela entreaberta), tipo como as luzes das estrelas ou um pálido luar. Remetia a filmes antigos de fantasmas vitorianos, Já não precisava mais do uísque pra dormir, como sentia um cheiro de cânhamo que vinha do ap de Helena, voltou com o Skank, a musica soava mais aveludada, a vida parecia mais colorida agora para Bertoldo. Chegar em casa depois de um dia duro na repartição agora fazia sentido. A noite em casa enquanto alguns tomam ansiolíticos, outras bebem, outras fodem, outras assistem novela, comem pizza, Bertoldo fuma Skank e escuta musica clássica, na real escuta Chopin tocada por sua silenciosa musa pianista, claro que descobriu isso também com o porteiro, afinal eles sabem tudo.

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