Arquivo para novembro, 2015

MANTENDO DISTANCIA

Posted in Uncategorized on novembro 24, 2015 by contosdacratera

animais na estrada
Por Glaucio Fabrizio
Aos sete anos de idade Cícero foi diagnosticado com síndrome de asperger. Era uma época onde os veículos ainda andavam sobre rodas em longas estradas pavimentadas também conhecidas como estradas de rodagem.  A humanidade era dependente do óleo negro que causava guerras, genocídios e poluía a terra e a agua, além de alimentar os motores dos veículos, na fabricação de roupas, pênis e vaginas de silicone. Todos os anos durante o verão a família viajava pela autoestrada em direção ao oeste nas montanhas onde tinham um belo e confortável chalé.

Era o nono verão do menino, a viagem lhe fazia muito bem, a interação com os animais do pequeno rancho fazia parte do seu tratamento. A casa ficava no alto de um penhasco, de lá era possível ver toda a região, no escuro da noite as luzes das cidades distantes chegavam a se confundir com as estrelas do céu. Os irmãos mais velhos junto com os pais acendiam uma fogueira e ficavam horas ao redor, assando milho, queijos e bebendo vinho. Cícero brincava sozinho com seus pequenos soldados de plástico. Apesar de estar no inicio do tratamento já era notável uma evolução no seu quadro, a socialização era lenta mas deixava seus pais esperançosos.

Havia diversas arvores frutíferas no lugar, todos acordavam muito cedo, afinal dormia muito cedo também, o pai colhia frutas pela manhã, o caseiro Eli que tomava conta do lugar a maior parte do ano também aparecia cedo trazendo leite, ovos, queijo de cabra e uma maconha natural que o próprio plantava na serra, o patriarca sentava e fumava aquela erva verde num belo cachimbo feito de chifre de veado espalhando uma fumaça doce por todo o alpendre, dando gargalhadas puxava umas canções num velho fole de oito baixos, conhecido vulgarmente por pé-de-bode, Cícero sentia toda aquela vibração positiva no ar, sentava junto do pai e ficava observando com olhos vidrados o ir e o vir da sanfona e os dedos ágeis do seu velho. Havia também um galinheiro, o galo que era o dono do pedaço, costumava intrigar o garoto quando cobria as galinhas no seu coito aperreado e desengonçado. O mês corria ligeiro entre os dedos do tempo, como cobra de Mussum ensaboada. Logo a família estaria a bordo do carro carregado de malas no bagageiro do teto, Eli geralmente se despedia com aquele sorriso fingindo alegria no lugar da tristeza, afinal ele também se divertia com aquela família.

Quando partiram de volta para a cidade no final das férias pela manhã, o verão ainda castigava com o seu sol bravio, sobrevoando a estrada de rodagem urubus observavam o seu almoço, talvez um café da manhã atrasado, Pedro o irmão mais velho lia um gibi sci-fi, Sofia, a irmã do meio, encaracolava a ponta do seu cabelo preto pensando no inicio das aulas, no seu professor de álgebra pelo qual era apaixonada. O rádio do carro tocava a mais bela bachiana de Heitor Vila Lobos, a numero quatro, segundo a mãe Pedro o primogênito, tinha sido concebido ao som dessa obra prima. No exato momento em que a mãe contava essa historia da concepção olhando e segurando a mão do marido candidamente, um filhote de jumento cruzou a estrada, o pai freou bruscamente mas não conseguiu evitar a batida no pequeno asno que foi lançado sobre o para-brisas do veiculo, os pais foram atingidos em cheio morrendo com a violência do choque, sem controle o carro desgovernado capotou ao atingir o meio fio do acostamento, a musica continuou tocando no rádio ate o momento que parou a capotagem. Lançado pra fora do carro pelo vidro traseiro, Cícero foi o único sobrevivente do acidente.

A tragédia foi manchete nos telejornais locais, pois o seu pai era uma figura conhecida, empresário bem sucedido. Restou à avó materna cuidar do garoto até que esse atingisse sua vida adulta. Vivendo no seu mundo particular, Cícero aprendeu a ler sozinho, não precisou ir à escola, autodidata demonstrou habilidades com cálculos complexos e surpreendeu a todos quando inventou um pequeno dispositivo que mudaria a sua vida para sempre. Desde o acidente, se tornou uma obsessão descobrir alternativas para que aquela tragédia não se repetisse novamente, durante toda a adolescência estudou elementos de frequência e sua relação com os bichos. Partindo da ideia de um apito de cachorro desenvolveu um aparelho que afugentava animais em um raio de 300 metros.

O dispositivo foi instalado ao longo da rodovia mais movimentada do estado, onde a estatística com acidentes envolvendo animais era considerada mais alta, a eficiência foi demonstrada logo nos primeiros meses onde houve uma redução de 98% dos casos, os outros 2% se deu pela falta de  manutenção dos equipamentos que não suportava o calor forte do sertão. Tornou-se milionário aos 18 anos quando o governo criou uma lei obrigando as fabricas de automóveis a utilizar o dispositivo como peça obrigatória de segurança. Aos trinta ficou bilionário quando criou um anel repelente de insetos, o dispositivo foi vendido em todo mundo, porem distribuído na África gratuitamente, diminui drasticamente os casos de doenças como malária e dengue chegando a quase zero de casos.

 A avó faleceu pouco tempo depois de ver o neto se tornar famoso. Solitário, Cícero passou a se incomodar cada vez mais com o assedio das pessoas, não suportava as reuniões com os sócios mostrando planilhas e números de lucro absurdos mas com potencial para ser maiores. No dia que quase foi estuprado por duas belas loiras, o rapaz resolveu se debruçar sobre a prancheta mais uma vez para evoluir o seu evento, o seu desejo agora era que os seres humanos fossem afetados de alguma maneira, a sensação tinha que ser sutil, afinal ele também sofreria com os efeitos, partindo da ideia de armas sonoras não letais utilizadas para controlar manifestantes em massa, Cícero foi trabalhando o dispositivo para que este causasse certas sensações incomodas, como cólica, dor de cabeça.

Primeiro testou com os empregados que trabalhavam na sua casa, Nazaré que estava na família há anos foi a primeira cobaia, ela trazia o seu café da manhã no quarto desde pequeno, quando entrou naquela manhã, Cícero ligou o dispositivo afetando de alguma forma o sistema digestivo dele e da domestica, ela peidou sem querer e quase cagou nas calças, ele também quase suja a cueca. O inventor anotou aquela frequência, de repente poderia ser usada como alternativa para laxantes, a indústria farmacêutica não gostaria desta ideia certamente. A segunda cobaia foi o jardineiro Jeremias, Cícero se aproximou com o dispositivo ligado e notou nos primeiros segundos um comichão nos bagos que logo se transformou numa ereção dolorida, Jeremias que já era meio idoso, aproveitou correndo pra junto de Nazaré, que era sua esposa, atacando-a na cozinha, pena que o fogo só durou o tempo em que o dispositivo estava ligado para a decepção do velho jardineiro. Anotada a frequência certamente Cicero quebraria a indústria farmacêutica ou seria assassinado a mando dela.Com os ajustes feitos, o jovem inventor finalmente conseguiu êxito numa reunião na qual foi obrigado a comparecer, com o dispositivo disfarçado no relógio, o jovem gênio resumiu a chata reunião em apenas 5 minutos.

No outro dia pela manhã, apesar do sucesso na sua empreitada, Cícero sentiu um imenso vazio no seu peito, tipo a musica de Cartola, o sentimento de saudades que tinha de sua família lhe deixava com um nó na garganta, o seu invento poderia realizar o seu desejo de ficar sozinho, mas jamais afugentaria a sua saudade. Ordenou que o motorista o levasse até a casa da montanha, antes no caminho parou no local do acidente onde perdeu seus entes queridos, deixou um ramalhete das flores prediletas de sua mãe e tocou para o chalé, lá encontrou Eli, já meio velho, cego de um olho, o mesmo sorriso inocente , passaram a tarde sentados na varanda, calados, o jovem já não precisava ali do seu repelente de gente, observou a paisagem ate quando anoiteceu e as luzes da cidade faziam parecer que as estrelas caíram do céu, ele não voltou mais pra cidade, ali ficou até o ultimo dia de sua vida.

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