Arquivo para janeiro, 2016

OS ASTRONAUTAS ERAM DEUSES

Posted in Uncategorized on janeiro 15, 2016 by contosdacratera

 

iris-scanPor Glaucio Fabrizio

O Sujeito desta narrativa tem um nome impronunciável, chamemos de W para facilitar a vida de quem vos narra o conto. W veio de algum observatório de galáxias, num quadrante entre zilhões, agora estacionado em um setor entre as galáxias de Andrômeda e Via Láctea onde os humanos costumam chamar de universo. Criatura excêntrica, de formas hominídeas, o formato do crânio era muito parecido com a cabeça de um nordestino, mas ao invés de cabelos, olhos, orelhas, nariz, boca, pelos, todo seu corpo ou tecido parecia ser de uma massa cintilante que hora permanecia com aspecto metálico cromado, hora se misturava em uma íris multicolorida como se o corpo inteiro fosse um olho ou para ser mais especifico: um globo ocular.

W fazia parte de uma classe de criaturas extremamente criativas e sensitivas. Apesar de engenhosas, estavam bem abaixo do alto escalão. Concebido pelos seres superiores, que aqui podemos chamar de Mestres, W funcionava como uma engrenagem num mecanismo magico infinito de geração de uma forma de energia comum a tudo e a todos, que aqui chamaremos de *. Criado como unidade, W passava toda a sua existência sozinho, vagando de universo em universo, observando as galáxias. A sua finalidade se resumia a criar o cosmos, planetas, vida e a matéria. Tudo que fosse criado teria uma alma, teria o básico essencial da matéria prima que se fabrica *.

Desta energia, como sentinelas, as criaturas da classe de W observavam, separavam e sintetizavam a matéria prima essencial aos Mestres que também criava outras classes e suas respectivas hierarquias. Se num planeta distante um alien peidasse, o fato do alien existir, do peidar, já estaria gerando o básico essencial. O correr do tempo, o vagar das coisas, o nascer de pessoas na terra, uma punheta em alto mar, tudo, mas tudo produzia. O seu trabalho era acompanhar e tentar manter a produção de * estável para os Mestres, pois deles, criaturas como W dependia para existir. As galáxias, os planetas e todos os corpos celestes eram desenhados e projetados de maneira que lembrava um aquário, ou um formigueiro de projeto de feira de ciências onde o console de controle era a sua mente. Em alguns planetas como a terra, a matéria prima se dividia em dois subprodutos:*1 e *2. O primeiro era extraído de vida orgânica, pessoas, plantas, bichos, bactérias e etc. e servia diretamente como fonte de alimentação dos Mestres, e o *2 extraído de matéria não orgânica, menos nobre era processado como fonte de energia para a criação das sentinelas.

Uma vez estacionado, W calibrava a conexão com cada elemento existente nas galáxias.Na terra o escoamento das almas se dava pelo que durante muitos anos os cientistas chamaram de buracos na camada de ozônio. À medida que se mantinha estável a produção, os mestres evoluíam as subclasses, criando classes mais avançadas e fazendo melhorias nas suas sentinelas. A tal calibração às vezes necessitava de uma presença em campo, então W criava milhares de subsentinelas (mini copias dele mesmo) que desciam diretamente nos pontos de controle, também pelos buracos na camada de ozônio. Apesar de criados como unidade e nunca se esbarrarem diretamente pelo universo, as criaturas como W, como que por uma espécie de anomalia conseguiam interagir entre eles no estado de subsentinelas e podiam assumir as formas que melhor lhe convir. Quando seus entes se cruzavam in loco, a troca de energia causava uma sensação de bem estar e êxtase.

Nessas ações dos subsentinelas, muitas vezes havia um contato direto com os objetos criados, os inicios de varias civilizações assim se deram, com um leve empurrãozinho ou ajuste, os humanos foram desenvolvendo seus instintos mantendo a cadeia de produção do néctar essencial. Como autômatos os sistemas naturais foram se criando e se multiplicando. Os grandes cientistas, todos eles foram criados com o objetivo de serem superiores no seu intelecto, de forma que o conhecimento fosse compartilhado em uma velocidade gradual para a sociedade, o conhecimento as vezes pode ser perigoso para quem não está acostumado com o poder de saber. Por isso que são poucos gênios para uma imensa massa de idiotas.

Um subsentinela desceu em uma área suburbana cercada de remanescentes de vegetação hipexerofila. Os lugares mais áridos apresentavam uma boa quantidade de matéria prima, pois a energia envolvida para manter a estrutura básica dessas plantas era imensurável, tais espécies esperavam vários meses, segurando sua latência, sem folhas, sobrevivendo com o mínimo de agua e com o primeiro sinal de umidade no ar, explodiam numa energia de mil bombas atômicas, sistemas delicados, uma verdadeira obra prima minimalista das sentinelas. A mini copia de W assumia naquele instante, a singela forma de um pardal preto. Pousou na janela de um banheiro onde uma senhora gravida, com um imenso barrigão, sofria sentada no vaso, gemendo baixinho, ela estava com cólicas há alguns minutos, mas não sabia se era o menino que ia nascer ou era vontade de obrar. Por alguns bons segundos ela soltou um peido gigante, mas tão forte que derrubou o espelho do banheiro, assustando o pardal preto sentinela que estava na janela, quando ouviu aquele bater danado de asas a mulher que ainda viu o vulto do pássaro assustado, pode jurar que o menino nasceu com asas, ricochetou no espelho e saiu voando pela janela. Em estado de choque a mulher ainda balbuciava que o menino ia aparecer lá na torre da igreja da catedral profetizando o apocalipse.

Há alguns quilômetros dali, outro subsentinela, em forma de barata, observava o habitat de um bar decadente. O prédio que parecia um drive thru, era uma cabine em forma de V, tinha duas janelas que abertas lateralmente formava dois balcões, era coberto com toldos para proteger de chuvas que eram muito raras e algumas mesas de plástico espalhados pela calçada. Não tocava musica no lugar porque o dono do bar já havia trocado o radio por crack. Um jovem apresentando boa aparência contava com entusiasmo uma estória cheia de ação, aventuras, espancamentos, mulheres nuas,  interrompia ia no banheiro, cheirava pó na unha do polegar e voltava todo cafungado pra continuar. Às vezes aparecia uns maconheiros com cachaça barata comprada no posto de gasolina malocada embaixo das camisetas, não consumiam nada do bar, mas o barman gostava de tê-los por perto, fazia volume, elevava o astral do lugar. Nas prateleiras tinha uma garrafa de cachaça com uma lagosta dentro e uma garrafa de uísque gringo, mas só a garrafa, pois o conteúdo era aguardente de uísque para enganar playboy. Às vezes acendia uma lâmpada do lado de fora e colocava um pedestal sem microfones, somente para atrair alguns clientes secos por musica ao vivo. No passar da noite já começando a sentir os efeitos da abstinência, esperava ate ter a quantidade de dinheiro para pagar o ultimo debito com o traficante e comprar suas doses extras, fechou o bar e saiu alucinado em direção a boca. No caminho sentiu uma dor muito forte de cabeça quando a barata que o observava no bar voou e pousou na sua testa, padeceu vitima de derrame, sentado na calçada de uma rua que durante o dia era muito movimentada, na real fora abduzido por algum deus sentinela, virou matéria prima, virou energia. W cumprira sua missão naquele lugar e partiu carregado de almas para alimentar o seu deus faminto, partiu para um quadrante aleatório no espaço e no tempo em algum entre os incontáveis universos.

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