Arquivo para maio, 2016

MEIOTAS E DEVANEIOS

Posted in Uncategorized on maio 17, 2016 by contosdacratera

Bar-do-Firma-Viajadora16

Por Glaucio Fabrizio

O bar nunca fechava e ficava a três quadras da zona portuária. Seu Osmar, eternamente de olhos vermelhos dizia não conseguir dormir fazia oito anos, desde o dia que presenciou um cliente sendo esfaqueado na jugular por um travesti apaixonado. Ele não sabia, mas dormia de olhos abertos, às vezes de pé, encostado no balcão, escondendo uma velha 12 enferrujada de cano serrado e dois disparos. Quando falava, seu Osmar puxava o ar fazendo um buraco no peito. O bar ficava no beco das almas, vizinho ao antigo teatro chinês que hoje só tinha a faixada e era abrigo de doenças e animais viciados em pedra. As paredes encardidas ainda exibiam timidamente o que um dia foi uma pintura, podia ser verde, mas podia ser azul, nem seu Osmar lembrava mais. O balcão, de madeira que cupim não rói, era todo tatuado em ponta de canivete de nomes como Chico, Zé da Rola, Cid Malavéia, Brigite, Jamaica do Pife.

Ao raiar do dia entrava pela porta o tremulo Dantas. A sede brutal não permitia ações simples do dia a dia como abrir  o zíper e tirar o cacete pra urinar. Chegava meio envergonhado e perguntava se tinha café. Seu Osmar bufava alguma palavra indecifrável e trazia a garrafa de aguardente. Os olhos de Dantas brilhavam, esboçava um sorriso no que havia lhe restado de dentes na boca. Trazia consigo um canudinho branco listrado de vermelho desses que vem nas caixinhas de achocolatado cheias de vitaminas e diabetes para o seus filhos. Sem o acessório Dantas não conseguia segurar o copo sem derramar o que matava sua sede. Bebia de canudinho e lambia os beiços como se fosse toddynho.

Luizito era outro grande habituê do lugar. Praticamente vivia no bar, tomava umas 3 doses seguidas e apagava na mesa ao canto perto de um calendário antigo com a Roberta Close. Geralmente levantava pra fazer as necessidades fisiológicas. Suas refeições se resumiam aos tira gostos gordurosos e geralmente azedos da casa:

– ô seu Osmar, tem carne de sol tem? – perguntava Luizito

– Tem não! – respondia pigarreando.

– Tem macaxeira?

– Tem não!

– Guiné?

– Tem não!

-Tem o que então omi?

-Muela!

– Só isso? É de hoje?

– É não! Se quiser mastigue papel de embrulho! – respondia enfezado seu Osmar.

– Pode trazer a muela.

Enquanto Luizito ruminava o tira gosto, dois estudantes surgiram no boteco, sentaram no balcão e pediram um refrigerante, era um jovem casal, já se passava das 9 da manhã. O rapaz de cabelos longos e camiseta do ac /dc fazia um carinho na barriga da jovem, que por sua vez tinha uma pele muito alva e cabelos tingidos de vermelho cor de sangue. Ela repousava suas pernas entre as coxas do seu jovem amante. O rapaz segurava a mão da moça, cantarolava uma musica num inglês bem sem vergonha, ela curtia, bebia o refrigerante também de canudo, mas suas tremidas deviam ser somente quando gozava na ponta dos dedinhos delicados. Seus pequenos lábios carnudos rosados sem batom envolviam o objeto, segurava a garrafa de vidro de uma forma que fazia seu Osmar imaginar sacanagens, imaginava a calcinha de algodão suja da garota, como ele queria sentir o cheiro, os dois foram embora e seu Osmar logo se perdeu em outros pensamentos menos pecaminosos.

Por volta das 11 horas ouviu-se cincos disparos secos de espoleta. Um jovem jornalista que refrescava a goela com uma cerveja gelada levantou-se ligeiro e correu pra fora do boteco. Seu Osmar não ficou preocupado, pois o rapaz havia deixado suas coisas por sobre o balcão, com exceção da câmera fotográfica que trazia consigo. A polícia demorou uma meia hora pra chegar. Um menino de rua foi executado enquanto dormia entorpecido de cola de sapateiro na sarjeta. Segundo a única testemunha ocular do crime, um louco sem teto, uma freira chegou numa traxx e executou o pequeno delinquente atirando a queima roupa. Segundo o vadio, o garoto deu vários sopapos a cada tiro que tomava, parecia uma folha de papelão, de fato o menino era magérrimo. O jornalista como um abutre circulando o corpo, fotografava freneticamente de vários ângulos, mas depois deu-se conta que a estória da testemunha não era publicável, não fazia sentido, voltou para o bar descontente, tomou mais uma cerveja enquanto via no visor da câmera um corpo magro furado de balas.

La pelas 15 horas adentraram ao bar dois jovens discutindo sobre politica, um era de direita, o outro de esquerda, eram orgulhosos em assumir seus posicionamentos, citavam trechos de livros famosos, manifestos, sorviam cerveja na mesa ao lado onde Luizito dormia. Tocava na radio uma musica dessas que se pagam pra tocar, alguns chamam de jabá, o rapaz de esquerda chamava de lavagem cerebral. Os ânimos alterados da população só refletia a conversa dos dois. Ambos eram a favor da liberdade, mas a liberdade de quem? Saíram embriagados do bar, cambaleando ainda discutindo quem merecia a liberdade. Seu Osmar dizia consigo:

– Mangote de fela da puta que nunca pegaram numa enxada – refletia e deixava quieto, afinal eles pagaram a conta sem problemas.

Com o cair da tarde, o calor amenizou. Uma nuvem enorme que estava sobre a cidade mijava uma fraca chuva, daquelas que você se arrepende de não ter trazido um guarda chuvas. O camarada sai acreditando que não vai  se molhar muito mas depois de dois minutos de caminhada fica todo encharcado. Entrou uma turma de universitários trazendo junto uma marola de erva, a única moça do grupo já chegou meio alterada, usava essas saias indianas hippies e discutia sobre feminismo. Era pequena, mas parecia mais forte que todos aqueles marmanjos abobados. Subia nas pontas dos pés e apontava com o dedo na cara exibindo uma tatuagem de Simone de Beauvoir nua de costas na parte interna do braço, ostentava também um suvaco cabeludo. Pediu uma dose de cana enquanto os garotos foram de cerveja. Seu Osmar a seu modo gostou dela, mas tratava de forma grosseira a todos. A moça era magra, sem sutiã os seios pequenos marcava na blusa branca com flores bordadas, a bela transparência da liberdade. Ela não ligava quando seu Osmar mirava discreto. Ele sabia que ela não ligava, mas não desrespeitou a moça. Luizito acordou e se aproximou do balcão onde estavam os universitários chapados. Ficou observando indiscretamente as tatuagens, brincos que arrombavam as orelhas e outras extravagancias do grupinho de hipsters. Fixou o olhar de forma muito constrangedora no suvaco peludo da garota. Seu Osmar para evitar confusão serviu logo as tres doses que Luizito sorveu instantaneamente e voltou pra sua mesa dormitorio. Aproximava-se das 20 horas quando o grupinho foi embora.

Aquela parte da cidade diminuía o ritmo enquanto apareciam as criaturas que habitavam a noite. Travestis, putas, traficantes pé de chulé, cafetões, policiais. O bar ficava quase sempre vazio, aqui acolá umas criaturas surgiam, compravam um cigarro, um estivador que vinha comprar uma meiota de cana ou ate mesmo buscando os serviços das putas, travestis e traficantes.

O relógio orient de Luizito marcava meia noite, subia um vapor das bocas de lobo do beco. A umidade estava no ar, parecia uma buceta quente e viva. Uns besouros se chocavam nas duas únicas lâmpadas de tungstênio que dava aquela luz âmbar ao lugar. No exato momento que seu Osmar puxava um cochilo e sonhava com os seios da jovem feminista, o barulho de motoneta o acordou. Rapidamente entrou no recinto uma freira de baixa estatura com uma pistola automática desert eagle , parecia um canhão cromado, primeiro acertou Luizito na cabeça , que do jeito que dormia continuou. Seu Osmar primeiro puxou um gatilho sob o balcão acertando na região da barriga a freira, atordoada recebeu mais um disparo no peito agora por sobre o balcão, a freira com o impacto foi jogada sobre a mesa onde estava o cadáver de Luzito. Seu Osmar rapidamente correu ate a porta e verificou se alguém havia testemunhado o ocorrido, o beco estava vazio tomado pela neblina de vapor. Muito raramente seu Osmar baixava a porta do bar, oito anos aberta a mesma emperrou. Antes de deitar sobre o balcão seu Osmar verificou os documentos da freira, se chamava Irmã  Rosalba, era da paroquia velha.

Dantas que chegou tremulo atrás de seu “café” parou a tremedeira ao ver os cadáveres sobre a mesa e seu Osmar deitado em cima do balcão dormindo roncando alto. O dia raiava e logo chegaram uma viatura da policia civil e uma ambulância, a mesma viatura que veio atender o caso do cheira-cola morto, Dantas, suando frio de abstinência, ficou horrorizado quando um dos policiais sacou o celular do bolso  e fotografou sob o habito da freira morta sua calcinha com os fartos tufos de pentelho saindo pelos lados, Seu Osmar também viu a cena e então lembrou da moça feminista. Foi levado pra depor na delegacia e nunca mais reabriu o bar.

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