Arquivo para outubro, 2016

ZUMIRO

Posted in Uncategorized on outubro 12, 2016 by contosdacratera

Por Glaucio Fabrizio

Não era mais aquela época onde geradores a diesel fornecia energia elétrica nas cidades, não havia mais enforcamentos, esquartejamentos ou bruxas queimando em fogueiras, entretanto fazia apenas uma semana que a programação das rádios FM estava 24 horas no ar na cidade cratera. Antes a emissora que ficava ate mais tarde encerrava a programação às 23:55,  sempre ao som do mesmo mambo mexicano, não demorava e o ruído da estática cortava o silencio em intervalos inconstantes madrugada adentro. A guerra do golfo ganhava cobertura em cores na tv, misseis tomahawk  deixavam  rastros de luz nas câmeras com visão noturna desenhando o céu como uma obra do Pollock. O mundo pegava fogo com cheiro de gasolina no ar e  Zumiro ouvia compulsivamente radios FM.

De cabelo encaracolado meio black power, o pastorador de carros geralmente de chinelos usava um shorts Elite vermelho encardido com listras brancas na lateral, uma camiseta regata da campanha pra algum deputado da década passada, carregava um balde e uma flanela no ombro. Lavava e guardava carros dia e noite nos logradouros públicos. Criado nas ruas era safo para sobrevivência urbana como um gato vadio. Passou o começo da vida num orfanato ate  ser adotado por um casal de idosos. Durante quatro anos teve uma vida feliz, mas o sumiço misterioso dos velhos intrigou toda a população local: Zumiro devia ter uns 8 anos quando disse ter visto os pais adotivos serem levados por uma bola de luz no céu. Depois disso passou a morar nas ruas, se abrigou um tempo numa Kombi abandonada, em varias malocas ate ocupar o vão que ele chama de casa.

Entroncado meio marrento, o homem morava beirando a marginal de uma rodovia federal. Dentro de casa não tinha muita coisa, o suficiente para se virar, uma rede suja, um pote de barro com agua, algumas garrafas vazias de conhaque barato (um pela metade), pouca roupa e um velho walkman sony amarelo todo remendado de fita isolante que só funcionava o radio. O banheiro era ao ar livre num pequeno quintal, cagava e mijava junto de umas bananeiras e o banho era de cuia (um velho pote desbotado de margarina) junto de um tonel que usava como cisterna. O quintal além das bananeiras tinha uns pés de acácia que a noite dava privacidade para o pastorador que gostava também de ficar no escuro, sentado numa cadeira ouvindo o radio com uns headphones de esponjas desgastadas observando os carros passando.   Comia de tudo que aparecia na rua, sobras em lanchonetes e churrascarias de beira de estrada, machista se recusava a comer sobras de homem, pois segundo ele não queria sobejo de macho. Comia também goiaba, seriguela, manga, quando não era do chão era roubada nos quintais de noite e de dia que ele saia para pastorear.

Nos últimos três dias Zumiro não sabia o que era dormir. Já era fissurado por radio, ouvia de tudo, assobiava perfeitamente as vinhetas dos comerciais, os jingles, mas agora com as FMs 24 horas no ar, a empolgação exagerada o levava a viver em função de comprar pilhas pra manter o walkman ligado a todo vapor. Não existia crack naquela época, mas o aspecto acelerado, a fala ligeira às vezes difícil de compreender lembrava um viciado em pedra. Tinha levado muito sol naquele dia de labuta, a pele vermelha escura queimada ardendo e o bolso cheio de moedas fazendo barulho, chegou batucando no balde na bodega de Biu do Frinfa:

– Bote ai seis pilha na conta de Ziriguineldo Alencar! – Falou velozmente Zumiro.

– É o que bafo de rola? – rebateu o dono da bodega dando com um mata-moscas no ombro de Zumiro:

– Ai carai!!! Seu buceta, ta doido? Tô todo queimado omi, bote essas pilha logo– disse jogando muitas moedas no balcão.

Nesse momento chegou ao recinto o famigerado Chico Camelo, outro ouvinte inveterado de radio. Diferente de Zumiro, Chico vivia em função de comprar com as moedas pelas quais mendigava, fichas telefônicas para ligar pedindo musicas e dar recados para outros ouvintes nas difusoras AM e FM. Era comum ouvi-lo na sintonia, então o pastorador o considerava como uma figura ilustre. Chico usava um chapéu preto e óculos estilo caminhoneiro, já aparentava idade avançada o caboclo. Com muitos anéis nos dedos, o cigano comprou algumas fichas e saiu em direção do orelhão telefônico que ficava a poucos metros dali. Já abastecido de pilhas novas, Zumiro observava cada passo do seu heroi enquanto chupava um dindim de coco queimado que vendia a 10 cents na bodega de Biu do Frinfa. Sentiu-se extasiado ao ver e ouvir o velho viciado em radio pedindo uma musica de Bartô Galeno em oferecimento a rapaziada do Papôco.

O calor do dia parecia persistir ao cair da noite com a sensação da pele queimada. Zumiro sentia um certo enfado e ele sabia que precisaria de mais moedas para garantir mais baterias. Partiu num passo miúdo ao estacionamento de uma churrascaria chamada O Boizão. Procurou o carro mais sujo e com apenas um balde e sua flanela lambeu o veiculo em 15 minutos. O dono quando chegou ficou meio irritado com a liberdade de Zumiro, mas se conteve e meio contrariado deu umas moedas pro pastorador. Chegava um carro e o homem virava manobrista, conseguia vagas pra quem chegava e ali levantava seus trocados e umas sobras em marmitex, perto da meia noite o restaurante fechou. Antigamente Zumiro voltava pra casa, mas nos últimos tempos as coisas tinham mudado com a necessidade constante de comprar novas pilhas.

Seguindo a rodovia durante uns vinte minutos de andada, se chegava num clube de bancários onde estava rolando uma tertúlia. Durante a caminhada Zumiro imaginava maneiras de solucionar o problema das pilhas. Não tinha eletricidade em casa, pensou em conseguir com Tião Mufino, um velho da oficina auto elétrica que funcionava perto da sua maloca, uma bateria de caminhão pra usar como gerador e manter o walkman funcionando, também pensou em roubar energia mas não parecia ser viável. Chegando próximo ao clube o viciado em radio observou os carros estacionados ao longo da rodovia, o lugar estava tomado pela turma das Maldivas, pastoradores com os quais ele tinha boas relações. Aproximou-se de um pequeno jeep cor carmim feito de fibra de vidro onde dois jovens suburbanos observavam o movimento de fora da festa enquanto rolava no toca fitas “roadstar cara preta” (com um equalizador tojo) a musica Roxxane:

– Que som é esse galego? É Bob Marlis? – perguntou ao jovem loiro de óculos.

– Não, é The Police. – Respondeu o rapaz meio sorridente.

– Massa! To ligadão faz três dias, so tomando dreher e ouvindo FM! – disse um muito empolgado e saltitante Zumiro.

Depois de passar uma hora e meia no lugar e ter descolado algumas moedas, o pastorador cansado e com a pele dolorida queimada de sol, já se preparava para retornar pra seu barraco quando foi abordado por duas motocicletas que pararam do seu lado buzinando. Em uma das motos estava um velho amigo de orfanato, Irineu, os condutores eram dois homossexuais conhecido das cercanias. O seu antigo amigo convenceu o pastorador a aceitar uma carona. Como estava cansado não rejeitou. Quem conduzia a moto em que ele estava era um deficiente auditivo traficante de loló (uma mistura de álcool e clorofórmio). As motos emparelharam e Irineu gritou perguntando:

– Bora la na casa do mudo, tomar uma?

– Vou nada omi,  tô todo moído! – berrou de volta o pastorador.

No meio da conversa (ou dos berros) o surdo mudo condutor apertou na virilha de Zumiro que no susto do impulso derrubou os dois da motocicleta. No momento da queda para o seu desespero o walkman amarelo foi arremessado longe e destruído, enquanto catava os restos Zumiro chorava feito uma criança. Compadecido, o surdo mudo que não morava longe, foi ate sua casa e trouxe um pequeno radio de pilha pra tentar amenizar o sofrimento do pastorador. As costas pareciam em chamas, os joelhos arranhados escorriam filetes de sangue. Ao chegar no seu barraco, Zumiro bebeu no gargalo a meia garrafa de conhaque que restava, se despiu, pendurou o pequeno radio de pilha num galho da acácia que ficava próxima do tonel cisterna, ligou o radio que tocava uma musica antiga, dos tempos dourados do radio, entrou no tonel e ficou só com a cabeça de fora, tipo um hipopótamo, aliviando as dores da carne com a agua fria observando caminhões carregados de sal passando na rodovia.

 

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