FOGO VERDE

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Por Glaucio Fabrizio

Zuleica, como era chamada a embarcação, seguia firme rio acima com destino final ao porto da Cidade Floresta, capital do estado. Quase todos dormiam em suas redes no frio agradável daquela madrugada de outubro, embalados pelo barulho do motor e das marolas que batiam na proa. Em meio a turistas, trabalhadores e toda sorte de pessoas, viajava insone, pela ansiedade de chegar, um jovem luthier de nome Cantinflas Marcos. Ele partira para capital no intuito de obter conhecimento sobre a arte da fabricação de instrumentos e o uso de nobres madeiras exclusivas. Cantinflas que devia ter uns quarenta e poucos anos, estatura mediana com um cavanhaque de fios prateando e cabelo black power ouvia vindo da cabine, em meio a roncos e peidos dos que dormiam ao redor, tocar baixinho uma clássica guitarrada amazônica, havia um cheiro de diesel no ar, o céu estava limpo, o luthier resolveu subir no ponto mais alto da embarcação para ver as estrelas e fumar um fino baseado que guardava para uma ocasião especial como aquela.
No alto da cabine o viajante pôde observar no horizonte distante um começo de claridade da alvorada. Parecia um encontro de rios de cores diferentes, neste caso a noite e o dia fazendo sua transição. Pensava na vida com a ponta do cigarro apagado no lábio inferior, ia finalmente ter a oportunidade de aprender e executar com excelência profissional o que já vinha fazendo a muito tempo de forma artesanal, quase um hippies. Teria os melhores mestres, as melhores ferramentas e o principal: as melhores e mais nobres madeiras existentes. O ateliê onde trabalharia por seis meses era reconhecido mundialmente, fabricava instrumentos clássicos utilizados por orquestras do mundo todo, seus projetos sociais de inclusão colocava Cantinflas como aprendiz, incluindo alimentação, estadia e ajuda de custo.
A longa viagem estava na metade do caminho, o estomago de Cantinflas roncava vazio, não demoraria a amanhecer e assim aparecer os vendedores em suas velozes canoas motorizadas com suprimentos. Num breve instante que inclinou a cabeça para trás observando as estrelas, o luthier notou uma constelação estranha em forma de triangulo que parecia expandir no céu em sua direção rapidamente. Numa fração de segundos o que ao longe parecia uma constelação se tornou uma imensa estrutura que se confundia como triangulo ou pirâmide com luzes muito fortes e um zumbido ensurdecedor, a aproximação do imenso objeto voador praticamente tomou todo o céu pela sua dimensão, as fortes luzes parecia ter rompido o limite entre a escuridão da noite com a claridade do dia. A aproximação também causou um efeito catastrófico nas aguas que mais pareciam ondas tempestuosas no meio do oceano do triangulo das bermudas. Rapidamente uma imensa onda engoliu a proa da embarcação causando um naufrágio instantâneo. Apesar do esforço descomunal na tentativa de nadar, Cantinflas foi engolido pelo rio, assim como Zuleica. À medida que afundava o zumbido parecia aumentar, as luzes fortes iluminava o fundo do rio e o que o luthier viu era assombroso: Uma espécie mezzo baleia mecânica colossal mezzo submarino se aproximou e o engoliu, em estado de choque o luthier desmaiou…

O naufrago acordou numa espécie de câmara branca onde não se via a geometria interna do lugar, não tinha paredes ou teto ou linhas que marcassem esses limites. A claridade não incomodava, mas o ar parecia viscoso, se fechasse os olhos era possível sentir como se estivesse enfiando a mão num barril de gelatina, mas estranhamente não existia uma resistência nos movimentos, ao respirar o luthier também sentia esse ar viscoso nos pulmões. Eis então que no meio do branco abre uma porta mostrando uma luz mais forte ainda e uma plantação de se perder no horizonte. Tateando o bolso grande da bermuda, Cantinflas encontrou o seu estojo com óculos escuros onde ele guardava o baseado que fumou no alto da cabine do Zuleica.
Ao sair da câmara o naufrago olhou o céu branco vítreo como uma redoma, a luz era forte, contudo não se via o sol, assim se sentiu numa gigantesca estufa. As plantas não pareciam com nada que ele já tivesse visto na vida, o ar parecia menos viscoso naquele ambiente externo. O silencio era esplendido, trazia uma paz interior imensa, Cantinflas logo pensou estar no paraíso ou coisa parecida, apesar de ser ateu. Já caminhava há horas e tudo que via era plantas desconhecidas, milhares de espécies ate se deparar finalmente com algumas conhecidas. Aproximou-se de uma que parecia um cajueiro. Pegou um vermelho bem bonito, tinha cheiro de caju, encheu a boca d’agua e quando estava prestes a dar uma mordida ouviu uma voz fina bem familiar dizer:
– Omi, se eu fosse você não faria isso, doido!
Boquiaberto Cantinflas deixou cair o caju ao ver quem havia falado com ele. Era uma criatura hominídea com 1,50 de altura, cabeça grande, o rosto era tipo Chico Anysio sorrindo, não usava roupa, mas não aparentava estar nu, o pequeno sujeito rapidamente apanhou o fruto caído e com a ponta do dedo mindinho colou de volta a fruta no lugar soltando uma espécie de laser ou solda.
– Aqui essas espécies não devem ser ingeridas – advertiu o alien usando a voz de Cantinflas com a cara parada de Chico Anysio sorrindo.
– Esse ome tá falando com minha voz? Perguntou o naufrago.
– Sim, na verdade estou emulando a sua voz para que haja um melhor entendimento na nossa comunicação, aqui não há som, você não está me ouvindo na verdade e nem está falando, nossa comunicação é telepática.
– Omi deixe de onda!
– Siga-me, por favor! – disse o alien caminhando suave como se não pisasse o chão em direção a uma espécie de escotilha aberta no chão.
A escotilha dava acesso a um emaranhado complexo de tuneis gigantescos que abrangia toda a área da floresta amazônica e seus rios. Nesse ambiente a luz dispensava óculos escuros, a iluminação se dava por uns tipos de lamparinas translucidas como vidro e um fogo verde que emitia um cheiro de manga verde e maconha.
– Eu conheço esse cheiro – pensou Cantinflas
– Sim, está presente no seu planeta, principalmente na espécie que vocês chamam de cannabis. Que é uma corruptela de Cann-A-Beezi – respondeu telepaticamente o alien como se estivesse estalando a língua no céu da boca ao fazer a pronuncia da letra A do verbete alien.
– Esse ome vai ficar lendo meus pensamentos direto?
– Se for pensar besteira avise que finjo não ouvir – respondeu o alien com a cara de Chico Anysio sorridente.
Depois de alguns minutos caminhando nos tuneis os dois alcançaram uma câmara esverdeada com um ar mais viscoso e que tinha sabor ao respirar. Nesse momento o alien vestiu uma espécie de traje que o deixava com pelo menos a altura do luthier. Não demorou ate o naufrago sentir uma letargia repentina, um relaxamento muscular e uma vontade de rir.
– O ar aqui ta me deixando doidão – pensou Cantinflas.
– Sim, aqui a presença de Plankzitz que vocês chamam de THC está em níveis aceitáveis para humanos – respondeu o alien.
Na antecâmara havia umas poltronas antigas de cinema e um velho projetor. O alien pediu que Cantinflas sentasse numa poltrona enquanto ligava o equipamento e apagava as luzes. Era um antigo filme do canal 100 começando com aquela musica “que bonito é…” o locutor então disse:
“Há bilhões de anos, a terra era apenas uma imensa esfera de magma vagando nessa caravana de planetas e constelações também conhecida por via láctea. Quando surgiram os primeiros portais remotos (buracos de minhoca) milhares de espaçonaves rapidamente ocuparam as orbitas dos doze planetas existentes no sistema. Eram raças variadas de seres altamente evoluídos desbravando o universo, colonizando planetas ou usando os locais como pontos de referencia para outras rotas, cinco raças uniram esforços no projeto de terraformação. Para possibilitar o resfriamento, seus cientistas criaram um fluido de três componentes (H2O) que solidificados em baixas temperaturas em imensos blocos foram arremessados contra a massa de magma. O impacto de cada bloco na terra era como 10 explosões de Hiroshima, foram dois anos terrestres de bombardeios incessantes ate o resultado inicial esperado, o resfriamento possibilitou a formação das placas tectônicas e de parte dos oceanos. Os Cinco Colonizadores ocuparam igualmente a pangeia, onde desenvolveram toda a fauna e flora, a vegetação era para algumas espécies sua principal arma de defesa, os vírus também foram criados com esse objetivo. Depois de milênios convivendo pacificamente, as raças de tão evoluídas começaram a involuir ao chegar ao fim do universo ocupando, desenvolvendo e vendo que não tinha mais porra nenhuma para fazer. Na terra os recursos foram ficando escassos e antes de declarada guerra, desmembraram a pangeia nos continentes atualmente conhecidos além de bombardear os oceanos com mais gelo e agora com seres criados para povoar os mares. Alguns planetas foram completamente consumidos nesse sistema solar, restando apenas os atuais que conhecemos incluindo plutão. Passados bilhões de anos, os colonizadores ainda habitam os lugares inalcançáveis, estão no centro intocado de florestas como a amazônica ou outras florestas tropicais existentes. Os colonizadores também habitam as profundezas abissais dos oceanos, e os polos gelados do planeta. O desmatamento das florestas faz parte desta guerra que ainda perdura. A raça humana passou a ser uma das principais armas usadas entre os cinco colonizadores”.
– Que doidera mermão, e agora? – pensou o luthier.
– Todos vocês que estão em sintonia com a Cann-A-Beezi, estão do nosso lado e tem o dever de defender as matas, sobretudo a planta sagrada. Os algozes da planta estão em outro exercito, o homem que destrói as matas foi projetado para fazer isso.
– Mas eles são a maioria! – pensou Cantinflas.
– Não subestime o poder da planta, o poder do fogo verde, mas precisamos agir rapidamente! Disse o alien enquanto recolhia o rolo de filme e desligava o projetor calmamente.

 

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