O POSTO DA AVENIDA 6

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Por Glaucio Fabrizio

São Cristóvão era um posto de gasolina decadente, há décadas funcionando numa esquina no quarteirão das oficinas mecânicas das Marrócas, bairro tradicional do comercio e serviços da capital. De um lado havia uma loja de peças de tratores e escavadeiras, do outro uma loja especializada em carburadores e retifica. O quarteirão era sujo como as oficinas que o abrigava, imensos e sujos galpões com cheiro de óleo de motor e esgoto que se confundiam como uma só coisa nas sarjetas negras das ruas. Cedo da manhã e o movimento de veículos já era frenético, fumaça, buzinas, calor. Uma viatura da policia militar e gente do IML movimentava a pista do posto naquele momento interditado, além de funcionários e um cadáver coberto com um lençol ensanguentado. Transeuntes curiosos sussurravam entre si:
– Quem é o morto?
– Parece que é o velho!
– E o filho?
– Ta no escritório com os pêpa!
O velho era Sebastião Gonçalves, tinha mais de 70 anos, herdara o posto do seu pai, mascate libanês, havia sido o ultimo negocio do estrangeiro, Sebastião que tinha pouco mais de 20 anos na época não teve muita escolha e seguiu tocando o posto ate o filho primogênito (Sebastiao Junior) assumir a direção dos negócios. Mesmo diagnosticado com câncer de próstata, Seu Sebastião continuava presente no dia a dia insalubre do Posto São Cristóvão, quase sempre aporrinhando os funcionários, assediando moralmente, acusando de roubos, aumentando abusivamente os preços dos produtos que eram vendidos no local. Não demorou ate um carro da tv com um jornalista de programa policial sensacionalista aparecer como urubu rodeando a carniça (com todo respeito ao morto):
– E ae Tavares, o que houve? Perguntou o repórter colocando discretamente uma nota de 50 no bolso do policial.
– O funcionário confundiu o velho com um ladrão e acertou um tiro no meio da testa dele – respondeu o policial enquanto levantava o lençol e mostrava o local do tiro, o morto estava de olhos abertos, como se estivesse olhando pro céu.
– Porra, me devolve os 50, isso num rende matéria! – retrucou o repórter.
– Calma, tem mais. Um funcionário acusou o velho de roubo, e o filho do velho está acusando os funcionários, vai todo mundo depor na delegacia.
– Balaio de gato da porra!
-Masomi…

Já na delegacia, o gerente do posto nervoso dava seu depoimento:
– O velho roubava a gente direto, o filho que dirige os negócios, roubava do velho, que descontava dos nossos salários pra cobrir os roubos do filho.
– Mas como o velho roubava vocês? Perguntou o delegado.
– Quase todo dia sumia ferramentas, latas de óleo, sobrava pra gente!
– O velho mesmo roubava?
– Infelizmente o menino que tava de vigia descobriu isso nessa madrugada.
– e o filho? Como agia?
– o posto era todo antigo, não tinha computador, era mais fácil engabelar no apurado final do dia, dizia que tava faltando 30, 40 reais por bomba e queria entubar isso nos funcionários.
O gerente continuou contando historias envolvendo as misérias do velho Sebastião. Ele chegava num funcionário e apontava para outro o chamando de ladrão, depois ele ia ao funcionário que tinha chamado de ladrão e apontava para o primeiro agora o acusando. Durante muito tempo os frentistas usavam macacões sujos e esfarrapados, maltrapilhos certa vez a filha do velho se assustou achando que eram mendigos, obrigou o velho a comprar novos fardamentos, lógico que o velho arrumou alguma forma de descontar do salario dos rapazes.
Contou também da vez que um cliente apressado fez uma troca de óleo que lhe custou pelo menos três vezes o valor de mercado, quando se tocou horas depois do abuso voltou ao posto para trocar satisfação com o velho, o chamou de ladrão e o velho chegou para um funcionário:
– Bora todo mundo pra delegacia, o rapaz chamou a gente tudo de ladrão!
– Negativo, ele chamou o senhor de ladrão! eu ouvi tudo, eu não vou para delegacia.

Já em outra sala, o filho Sebastião Junior respondia sob efeito de calmantes as perguntas do delegado assistente:
– Como os funcionários roubavam o senhor?
– na aferição diária das bombas, eles sempre omitiam pelo menos 50 litros de cada bomba.
– explique melhor!
– Eles diziam que tinha menos combustível nas bombas e vendia por fora o restante, lucro entre eles.
– o senhor tem como provar?
– Não as bombas são antigas, não tem como registrar isso.
– E como o senhor descobriu?
– Desconfiei e passei a acompanhar a aferição de perto!
– Então eles pararam de te roubar?
– Não, eles sempre arrumam uma maneira de ganhar, frentista é foda!
– E o senhor tem como provar isso?
– Não! é minha palavra contra a deles.

Naquela mesma tarde, agentes da policia civil foram na casa do finado Sebastião Gonçalves, lá encontraram realmente muitas ferramentas com o selo do posto, além de latas de óleo e ate pertences dos funcionários. O autor do disparo fatal contou o que ocorreu naquela madrugada. Com a ausência de um vigilante contratado, os próprios frentistas se revezavam na vigilância, o velho aparecia na madrugada, aproveitava o cochilo dos vigilantes e roubava as coisas do posto. Teve o azar de pegar o rapaz acordado e armado que o acertou com um tiro único e certeiro no meio da testa.
O delegado propôs ao filho do finado que retirasse a queixa por falta de provas, em contra partida pediu aos funcionários que poupasse a perda do patrão, apesar de todas as provas coletadas na casa do velho Sebastião. O pessoal aceitou o acordo, mas o posto não funcionou durante muito tempo depois, foi arrendado e modernizado, agora faz parte de uma franquia estrangeira, o bairro também mudou, já não corre mais o esgoto preto e fétido nas sarjetas.

 

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