BUS DRIVER

Posted in Uncategorized on maio 4, 2015 by contosdacratera

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por Glaucio Fabrizio

No inicio se chamava Agenor de Andrada, nome imponente, tipo o próprio, grande e sutil como um mamute. O franzir da testa, tentando enxergar ao longe o tornava mais carrancudo do que era. Sonho de criança realizado adorava a profissão como poucos, mas nos últimos tempos a civilização estava fodendo com seu sonho. Primeiro tentou ser soldado, porem foi reprovado por ter pés muito grandes para correr e dedos muito grossos para gatilhos. Restou-lhe o volante do ônibus.

Como não tinha família, praticamente vivia no ambiente do trabalho, dormia nos alojamentos, muito direito e integro, perdia noites de sono quando cometia algum erro, às vezes coisas simplórias demais para se preocupar, mas que virava uma bola-de-neve-de-consciência na sua cabeça. Não reclamava da vida que levava, embora tenha conseguido pouca coisa no oficio, como umas hemorroidas e pressão alta. Muito cigarro, café, gordura, sódio e remédio pra aguentar a lida, nunca foi de beber. Quarenta anos nessa levada até que as sombras da ultraviolência passassem a rondar e defenestrar o seu sagrado local de trabalho, bem perto da aposentadoria.

A cidade estava perigosa, rebeliões nos presídios, centenas de delinquentes soltos nas ruas, a tv noticiava tudo com imagens em alta definição na hora do almoço pra fazer a digestão. Como nas estórias do velho-oeste selvagem americano, bandidos assaltavam ônibus tal qual nos tempos das diligencias. Circulava uma nova droga chamada Mijo-do-Cão, uma maquina de criar assassinos, vinte vezes mais viciante do que o crack. A droga era inalada e fazia o usuário excretar um suor fétido, como urina e enxofre. Sob efeito o viciado ficava perigoso e hostil, na breve abstinência, se tornava um psicopata capaz de tudo para conseguir outra dose, oito meses de uso era suficiente para causar danos irreversíveis ao cérebro e consequentemente demência.

Há décadas o exercito tentava combater o narcotráfico, bilhões de recursos públicos foram queimados junto com sangue e pólvora. A população pobre ficava na linha entre o exercito e os guerrilheiros do narcotráfico, de quatro em quatro anos bandidos assumiam seus postos no congresso e nada mudava. Agenor via de perto isso acontecer quase que diariamente. Perto de se aposentar não negava fazer os trajetos mais perigosos da cidade, muitos motoristas fugiam, pagava para Agenor fazer a linha em seu lugar. Assim o gigante fazia um pé-de-meia antes de largar a profissão que amava. No inicio pensou em comprar uma van e trabalhar com estudantes, mas seu corpanzil já dava sinais de desgaste, hérnia de disco por vícios posturais. Precisava de descanso. Já tinha decidido utilizar o dinheiro das contas pra comprar um terreno na zona rural, fazer um pequeno rancho, com horta, criar umas poucas galinhas, uma cabra chamada Lady Dy, umas frutíferas dando sombra, igual a um sonho que teve.

No dia que de Jandira subiu pela primeira vez no seu itinerário, foi paixão a primeira vista. Já passava dos 35 anos, corpo delgado, pele vermelha como brasa, o coração do velho motorista sentiu um baque. Vinda do interior a índia trabalhava como massagista em varias saunas espalhadas pela cidade, todas pertenciam ao Grupo dos 13, gang de empresários e políticos que jogavam as cartas na mesa do crime organizado local. Sempre gentil, depois de algumas viagens ofereceu os seus serviços a Agenor o tornando um cliente especial, Jandira trabalhava três dias na semana exatamente nos dias que o motorista tinha folga, então toda semana a índia cuidava de Agenor como um rei. O gigante mal cabia na maca de massagens, as pernas ficavam pra fora. Preferia encontrar a índia de manhã cedo e depois tomavam café juntos.

Os dias seguiam o seu rumo de violência, Agenor chegou a ser assaltado duas vezes na mesma semana, pelo mesmo ladrão viciado em Mijo-do-Cão ou MDC. Era um jovem com pouco mais de vinte anos, baixa estatura, cadavérico, a cara ossuda e os dentes apodrecidos. Olhos esbugalhados que pareciam saltar da cara, geralmente acompanhado de um comparsa muito parecido com ele, não seria uma surpresa se fossem gêmeos. Portando um 38 enferrujado, roubava o dinheiro do caixa enquanto o outro conferia os passageiros com uma faca. A partir de então, quando Agenor via alguém suspeito não parava no ponto, muitos passageiros esbravejavam quando passava o ônibus direto.

A cada semana que passava Agenor ficava mais vidrado na índia Jandira. Não conseguia tirar ela da cabeça, dormindo sonhava com ela, acordado também sonhava desejando a sua pele macia quente e perfumada, as mãos com óleos e cremes massageando seus músculos cansados e tensos, a boca macia beijando a sua, os cabelos pretos de graúna acariciando o seu rosto quando ela se colocava por cima para sentar no seu órgão monstruoso finalizando a sessão com uma gozada. Estava tão apaixonado que nem se lembrava de ter ciúmes dela com outros clientes, tinha sido sem duvida a melhor coisa que acontecera em sua vida.

Naquela manhã cinzenta de maio Jandira faria a sua ultima sessão de massagem com Agenor, era dia de folga, mas um motorista pediu para cobri-lo, Agenor aceitou, mas antes se encontrou com a índia. Por volta das dez da noite viriam a se ver novamente. Já indo pra casa, largando o batente, a moça sentou na cadeira por trás do motorista. Iam conversando sobre a vida, ele sentia uma grande paz de espirito ouvindo a voz de sua amada enquanto trabalhava.

O ônibus estava praticamente vazio, entretido com Jandira, parou no ponto e não percebeu que era o viciado que já havia assaltado ele outras vezes. Desta vez estava sem seu comparsa e muito mais alterado, visivelmente drogado, encostou o 38 enferrujado na têmpora direita de Agenor, rapidamente depois de pegar o dinheiro do caixa, saltou pela roleta e foi direto na índia Jandira, quando a abordou disparou um tiro no peito da amada de Agenor acidentalmente. Furioso o gigante como um raio saltou a roleta dando um chute derrubando o viciado, antes q ele levantasse apontando o 38, Agenor com uma mão segurou no tambor do revolver, sua mão gigante impossibilitou o mecanismo da arma em disparar, por mais que o viciado tentasse puxar o gatilho, não conseguiu, pois ficou emperrado. Com a outra mão o motorista apertou com tanta força e ira que acabou estraçalhando a garganta do viciado, o sangue tomou conta do chão do ônibus.

Agenor como um louco saiu dirigindo o ônibus pela cidade em busca de um hospital, arrastando os poucos carros que ainda circulavam pela cidade, incluindo duas viaturas da policia. Conseguiu chegar num hospital de urgência particular a tempo de salvar a vida da sua amada. Foi preso pela conduta perigosa no volante e homicidio, mas teve sua fiança paga por admiradores das redes sociais que passaram a trata-lo como um herói pelo feito, com sua carteira cassada, o gigante finalmente abandonou o oficio e se arrumou no seu rancho dos sonhos, na zona rural. Jandira voltou pro interior e abriu um salão de beleza. Hoje Agenor é conhecido pela alcunha de Keanu Reeves brasileiro, por conta do filme Velocidade Máxima. Cria porcos e galinhas e há quem diga que terá a sua historia contada no cinema por um tal de Scorsese. Responde em liberdade aguardando seu julgamento.

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TEMPORADA DE CAÇA

Posted in Uncategorized on fevereiro 17, 2015 by contosdacratera

                                        ursoeditado                                                                                                                               Por Glaucio Fabrizio

Segunda-feira de carnaval na década mais violenta dos últimos 50 anos. Calor intenso, meio-dia, há exatamente 20 anos um cidadão de nome Ariovaldo resolveu criar um bloco formado de um tipo muito comum nos carnavais, os Ursos. Garotos se cobriam da cabeça aos pés com trapos e saiam em grupos pedindo trocados para inteirar a cachaça das festas. O bloco a cada ano que passava crescia, as ruas ficavam tomadas, ursos batendo latas fazendo algazarra seguindo a fanfarra, a avenida parecia um rio de sujos molambos. No camarote armado para as autoridades, dondocas bebiam seus finos drinks gelados ostentando poder e beleza. No meio da multidão de farrapos estavam Jeová, Raimundim e Bartô, três perigosos marginais que se aproveitaram das fantasias para cometer latrocínios, traficar crack, bater carteiras e anarquizar geral, o disfarce era perfeito para malocar armas e drogas. Eles precisavam com urgência juntar uma boa quantia pois estavam endividados com um chefão local do trafico.

Por volta das nove da manhã num galpão abandonado antes da festa começar, Jeová fumava um grosso baseado enquanto Raimundim e Bartô estalavam pedras em latas de refrigerante crack!crack!crack! fazia o barulho da pedra subindo no ar um cheiro de borracha queimada.

– Vida lôca mermão, vida lôca! – disse Bartô alucinado parecendo que ia decolar.

Jeová, o mais tranquilo e calado de todos (o mais perigoso também) tirou uma pistola reluzente do meio dos farrapos, verificou o pente lotado de munição, deu uma polida na maquina com ajuda da fantasia, passou a unha na numeração raspada da arma e sorriu candidamente. Raimundim como de costume depois de fumar, tinha diarreia, obrava e depois chegava louco querendo fazer arte.

– Quarta feira de cinza porra, só temo até quarta pra pagar O Omi! – disse Raimundim.

– Nois consegue, fique peixe! – tentou tranquilizar Jeová, líder dos CONGAS VERMELHOS, os três usavam tênis conga de cor vermelha, a marca da gangue.

Abordavam as vitimas como ursos batendo lata depois anunciavam o assalto, vitimaram primeiro um jovem casal de lésbicas cambaleantes e chapadas, dois celulares, 80 reais e Bartô (estuprador crônico) ainda tirou uma casquinha da mais vistosa das garotas, só não foi mais adiante pois Jeová não permitiu. A segunda investida foi numa bodega que tinha acabado de abrir, ali descolaram mais uma boa quantia do caixa e umas garrafas de uísque Chanceler. Jeová gastou a primeira bala do dia na cabeça do dono da venda. Depois da bodega resolveram vender umas pedras e uns dolinhas. A cada viciado que vendiam, roubavam dois, esse era o revezamento 2 por 1 como dizia Jeová:

– É as olimpíada malandragem! – debochava o líder dos C.V.

Eles roubavam quase todo tipo de gente que viam pela frente, ate mesmo outros míseros ursos tinham seus trocados engabelados pela mira do cano prateado de Jeová, ou pela ponta enferrujada do punhal de Raimundim, Bartô chegava dando sopapos:

– O dinheiro fela da puta, cadê o celular? – aterrorizava Bartô dando safanões.

Por volta das 11, enquanto passavam pela Rua do Ouvidor, depois de assaltarem um posto de gasolina, viram na janela aberta de uma casa de esquina numero 45, a oportunidade de levantar mais algum. Bartô chegou batendo palmas pedindo agua enquanto Raimundim filmava o local, junto da porta Jeová esperava o desfecho. Uma mulata gorda e suada veio atender, Juju como era conhecida na rua já veio com uma garrafa d’agua e umas pratas pra dar aos ursos, mal sabia ela que seria abordada violentamente por Bartô, Raimundim rapidamente entrou pela janela e abriu a porta para Jeová. Raimundim arrumou uma sacola grande e ia jogando dentro coisas de valor, enquanto Jeová de larica assaltava a geladeira, Bartô arrastou Juju pro quarto, onde se encontrava seu esposo Manoel, um velho soldado reformado que se encontrava prostrado na cama há pelo menos 8 anos depois de ter sofrido um AVC, viviam da sua aposentadoria desde então.

Bartô arrancou o vestido de Juju, revelando suas arrobas de carne morena e suada, tetas imensas com aureolas marrons, pareciam bolachas pretas. Enquanto abafava com um travesseiro os gritos da pobre mulher, o marginal metia com força em seu sexo roxo, as marcas escurecidas entre as coxas e nas axilas deixavam Bartô mais excitado. Do lado na cama o pobre velho vegetando olhava pro teto. Raimundim entrou no quarto com uma sacola cheia de cacarecos no ombro e uma garrafa de rum que bebericava no gargalo:

– Mas que putaria é essa Bartô, só falta comer o boga do velho! – disse o marginal.

Bartô alucinado deixou a mulata Juju de lado e foi direto no velho, esfregou o pênis na sua cara que não esboçava reação nenhuma, virou o soldado reformado de bruços e meteu sem pena no rabo de seu Manoel. Raimundim dava gargalhada e como já tinha virado uma babilônia resolveu meter na mulata Juju também, espancou a pobre no rosto ate que ela desmaiou. Seu Manoel com a cara virada pro colchão deixou escorrer umas lágrimas que molharam o lençol junto com suor e esperma dos bandidos.

De bucho cheio, Jeová entrou no quarto depois de toda a anarquia, avaliando os espólios da investida:

– Pronto, agora nois já tem dinheiro pro material – disse Jeová.

-Ouxe que material? – perguntou Raimundim.

-Vamo descolar umas dinamite e estourar uns caixa amanhã, acho que pelo menos dois caixa paga nossa divida com O Omi e ainda sobra – respondeu calmamente Jeová enquanto enrolava um baseado.

– Agora vai! Bem que a gente devia trocar esses tênis conga por redley vermelhos, dá menos calo – falou Raimundim.

-Não, porra de redley tem que ser conga, é a marca da gangue, deixe de frescura porra! – rebateu Jeová meio puto.

-Bora pro bloco, vai ser só chinfra agora! – disse Bartô depois de ter sodomizado o seu Manoel.

Fumaram mais pedras Bartô e Raimundim, antes de sair Jeová gastou a segunda bala do dia na cabeça da mulata Juju, resolveu poupar o velho inutilizado Manoel economizando bala.

Meio-dia em ponto os ursos mal feitores estavam no meio da folia. Estimava-se pelo menos 3 mil pessoas no bloco, farrapos cobriam a avenida Joaquim Trabuco, o forte odor de suvaqueira e éter estavam suspensos no ar. Num canto perto das arquibancadas um urso cheirava lança-perfume nos seios siliconados de um travesti fantasiado de Marilyn Monroe, Bartô ficou excitado mas foi logo arrastado por Raimundim que seguiram em fila no meio da multidão, a locomotiva era Jeová, um autentico trem do mal. No momento que a fanfarra dava sua clássica paradinha para reverenciar os camarotes com as autoridades, um urso portando uma 12 de dois tiros com cano serrado se aproximou por trás de Bartô e efetuou um disparo em sua nuca, o mesmo tiro alvejou Raimundim que também foi abatido na hora, meio atordoado com os estilhaços, Jeová ainda tentou revidar com sua pistola, mas foi alvejado com segundo disparo na altura da garganta quase decepando sua cabeça.

No primeiro disparo a multidão já tinha entrado em pânico, o caos estava tomado, o urso da 12 foi logo derrubado pela policia que fazia a segurança das autoridades após ter tombado Jeová. Varias pessoas foram atingidas com os tiros dos policiais, ao todo foram 8 mortes. Quando tiraram a fantasia do urso da 12 viram que era seu Manoel, o velho soldado reformado que se fingia de prostrado na cama para poder receber sua aposentadoria.Com sede de vingança seguiu em caça no rastro dos ursos de congas vermelhos assassinos de sua esposa, estava então aberta a temporada de caça aos ursos de carnaval.

FALSO DIABO INFERNO VERDADEIRO

Posted in Uncategorized on janeiro 19, 2015 by contosdacratera

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Por Glaucio Fabrizio

A loucura sempre esteve ao lado de Estefânio. Criança órfã criada num convento que ficava no fim da rua 7, logo cedo mostrou interesse pela musica, lá aprendeu a tocar saxofone, ou pelo menos o básico para começar a tocar intuitivamente, pois além da loucura, Estefanio apresentava um alto grau de dislexia que dificultava ao máximo o seu aprendizado. Prestes a completar a maioridade, foi expulso do convento depois de ser pego cheirando as roupas intimas sujas das freiras. Passou a viver nas ruas, tocando o sax que roubou antes de sair do orfanato, juntava umas moedas e ia tomar uns refrigerantes em qualquer boteco que não o afugentasse por ser um morador de rua. Apesar de todos os seus problemas, o garoto apresentava uma inteligência fora do comum, era capaz de reformular teorias científicas com argumento de fazer o mais hétero dos héteros dar o rabo a um cavalo. Tinha uma voz aveludada e olhos complacentes, porem logo depois de ideias fantásticas desvirtuava em falácias sem sentido:

– Sabe Geraldo, esses fios de eletricidade são trabalho de gente burra e gananciosa, Tesla muito antes disso tudo inventou uma forma de distribuição de energia elétrica, de forma gratuita e sem fios, percebe? – disse a Geraldo, o pipoqueiro da praça.

– É mesmo? Indagava desconfiado o pipoqueiro enquanto cutucava com o cotovelo um universitário que sempre vinha ouvir as lorotas de Estefanio.

– É verdade Geraldo, Nikola Tesla foi um cientista genial que foi engolido pela ganancia de Thomas Edson! – rebateu o universitário.

Logo em seguida Estefanio completava:

– Antes eu achava que o mundo tinha a forma redonda, mas depois descobri que ela tem a forma de uma garrafa e tem um suspiro logo em cima do gargalo!

– Suspiro? – perguntou o universitário.

– É, daqueles doces! – finalizava Estefanio, caminhando e tocando um arranjo genial que faria Charlie Parker chorar de emoção.

As mulheres do bairro as vezes o olhava com desprezo, as vezes com pena, pois muitas delas tinham filhos na idade dele . Certa noite de natal, dona Aurora, quitandeira do bairro se compadeceu do pobre coitado e o convidou para ceia em sua casa, no primeiro descuido dela, o garoto sumiu, foi achado minutos depois no banheiro, cheirando uma calçola enorme que ele havia retirado do cesto de roupas sujas. No desespero da mulher que gritou ao ver a cena, uma viatura que fazia a ronda naquele momento, entrou na casa e levou preso o pobre coitado do menino, preso pelo maior de seus vícios, cheirar calcinhas sujas.

O delegado que estava de plantão, não permitiu que o mantivesse preso por mais que uma noite, quando ouviu o garoto tocar o seu sax, fanático por jazz fez umas ligações e em algumas horas uma figura excêntrica apareceu e levou Estefanio, era um famoso produtor musical que caçava talentos para seu grupo de jazz.

Primeiro tentaram fazer com que o garoto acompanhasse o grupo com determinado tema, ele ate conseguia no inicio, mas depois perdia a concentração e de repente estava tocando outra coisa completamente diferente, depois tentaram fazer o contrario, ele começava tocando e o grupo tentava acompanha-lo, ele começava com um blues e pouco tempo depois já estava tocando uma polca.

Quando abriu um bordel no bairro, a cafetina que já conhecia os talentos de Estefanio o convidou para tocar na noite de abertura, ele até que se apresentou surpreendentemente muito bem, tocou musicas completas, fez os clientes dançar e consumir muitas bebidas e prostitutas, um verdadeiro sucesso de estreia. Pela primeira vez teve uma mulher, embora tenha passado mais tempo cheirando a sua calcinha e a vagina, soube o que era finalmente o sexo. Nesta época passava horas animando as garotas contando estórias hilárias e cheirando suas calcinhas sujas de todas as cores e tamanhos que elas traziam em bacias antes de levar para lavar, ele realmente ficava excitado, tinha até ereções. Praticamente viveu no bordel até o dia que a moral e os bons costumes resolveu fechar o estabelecimento, era uma época de censura, as beatas cristãs do bairro não suportavam ver seus filhos se degenerando nas noites, gastando suas mesadas e contraindo doenças venéreas, ainda mais quando seus pais (seus maridos) os acompanhavam. Estefanio estava novamente nas ruas, agora  viciado no álcool  e mais alucinado do que antes por calcinhas sujas.

Certa manhã, um homem conversava com outro enquanto lhe engraxava o sapato:

– Esse mundo está perdido, estão tentando legalizar a erva do demônio!

– Verdade, dizem que é a porta de entrada para o inferno das outras drogas!

– A porta de entrada para outras drogas é uma buceta suja, ou seria a cachaça que leva pras bucetas sujas?! Disse e indagou ao mesmo tempo Estefanio embriagado mamando numa meiota de cana que sentado na sarjeta ouvia a conversa dos nobres senhores.

Quando completou 27 anos, estava completamente tomado pelo alcoolismo, tinha alucinações e a aparência de um homem de 60 anos. Depois de tocar e juntar algumas moedas no chapéu entrou no primeiro bar para beber seus espólios. Deparou-se com uma jovem, bela e exótica moça que o encarava no final do balcão. Seus olhos castanhos amarelados parecia o pôr-do-sol, tinha o corpo tatuado, uma argola no septo, a cabeça raspada estilo moicano, usava uma roupa de látex preto, tinha um corpo escultural, era uma verdadeira diaba. Se aproximou e sentou ao lado de Estefanio:

– Posso te pagar uma bebida? Perguntou a moça.

– Claro, por que não? Afinal hoje é meu aniversario – respondeu o rapaz.

Piscou um olho e tentou alcançar com a língua a pedra de gelo que estava no fundo do copo, Estefanio notou que a língua da moça era bifurcada como a língua de uma cobra:

– Essa juventude de hoje em dia não tem jeito, no meu tempo não era assim, se tatuam todos, arrombam as orelhas como africanos tribais, rasgam as línguas, colocam brincos nos mamilos, na xoxota, na cabeça dos seus cacetes, não duvido que coloquem no cu também – Disse Estefanio apesar de só ter 27 anos.

– Quem é você meu querido? Perguntou a moça.

– Eu sou o Satanás! Respondeu Estefanio.

– Sério? Vamos pro meu apartamento que você me deixou excitada, Diabão! – disse a moça sibilando a lingua como uma verdadeira serpente.

Abrindo a porta, o quarto da moça estava numa desordem e desleixo que deixou os olhos de Estefanio brilhantes, calcinhas sujas de bosta, corrimento e sangue de menstruação por todos os lados, ele não sabia por onde começar a cheirar, tremia de alegria e compulsão, encontrou naquele inferno um verdadeiro paraíso. Ela logo arrancou as calças esfarrapadas de Estefanio e aproveitou sua ereção para chupa-lo. No momento em que estava para gozar a porta se abriu e entrou um sujeito enorme, com chifres enrolados, pele avermelhada como um gringo que pegou insolação numa praia tropical, tinha os pés de bode, bufava pelas ventas e lhe apontou um tridente em chamas:

– O que está fazendo com minha filha seu maldito? – perguntou o Diabo.

– Eu? Nada, ela que está me chupando! – respondeu Estefanio calmamente enquanto cheirava uma calcinha de renda suja.

– Você me disse que era o Satanás! – acusou com um sorriso maroto a moça exótica, olhando com aqueles olhos de pôr-do-sol.

– E mesmo assim, você ainda me quis! – rebateu Estefanio.

– Claro, adoro incesto! – completou a moça.

– Vamo parar com essa conversa mole, eu vim aqui pra buscar sua alma! – vociferou o Diabo.

Assim, Estefanio pegou seu saxofone e tocou summertime, naquele instante, tanto o diabo como sua filha, ficaram atordoados com a melodia divina que saia do sax, quando terminou de tocar, olhou nos olhos vermelhos flamejantes do diabo e disse:

– Infelizmente uma dama roubou minha alma, quando eu tinha 12 anos, era uma freira, me apaixonei por suas mãos macias que me tocava embaixo do lençol enquanto me ensinava a rezar – disse tristemente Estefanio.

– Mulheres…nós damos nossos corações e elas levam também nossas almas! – Finalizou o Diabo, enquanto fazia um cafuné em sua bela filha que descansava a cabeça em seu colo.

SÃO EGÍDIO EM CHAMAS

Posted in Uncategorized on dezembro 29, 2014 by contosdacratera

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                                                                                                                                                                Por Glaucio Fabrizio

Eles se conheceram formalmente numa fila do INAMPS, antes daquela tarde José e Zulmira tinham varias coisas em comum, além de serem alcoólatras, frequentavam os mesmos lugares e eram deficientes físicos. Aleijados de nascença como se dizia na época, José era mais conhecido como Zé das Roda, andava numa cadeira de rodas com uma espécie de manivela na lateral. Zé das Roda tinha os membros inferiores atrofiados, era um homem da cintura pra cima, para baixo era como um bebezinho de colo. Tinha o braço direito maior que o esquerdo, mas curiosamente a manivela ficava no lado do braço menor, o braço maior ele usava como freio apertando o pneu, certamente não tinha mãos delicadas. Era um bom sapateiro, caprichoso e habilidoso, às vezes vacilava nas carraspanas e os meninos de rua lhe roubavam cola pra cheirar no mangue, meninos estes que constantemente vilipendiavam o pobre sapateiro gritando:

– Zé dá a roda, Zé dá a roda!

– Vão pro inferno mangote de fela da puta! – rebatia sempre o pobre homem.

Zulmira era uma galega queimada do sol das salinas. Nasceu com uma perna também atrofiada, parecia uma perna de uma criança de cinco anos. Usava uma muleta de madeira, geralmente o mesmo vestido florido, uma chinela japonesa, os olhos azuis habitualmente avermelhados, como se tivesse acabado de acordar, alguns diziam que ela usava tóxico. Fazia grude pra vender na praia e vivia disso. José e Zulmira moravam numa pequena cidade litorânea, eram analfabetos, desamparados, sobreviviam no dia a dia e a noite como besouros eram atraídos pelas luzes dos bares, principalmente aqueles mais ferrados. Zé das Roda chegava e parava num canto, enrolava um brejeiro e ficava observando o movimento, pedia uma meiota de cana e ficava na sua bebericando a pinga no crânio de um preá que ele sempre carregava amarrado no pescoço quando saia pra beber, um dia foi seu preá de estimação, Damião.

Lá pelas tantas da madrugada ela chegava, já meio possuída pelos demônios etílicos, tentava seduzir alguém em uma mesa, bebia um trago, depois era afugentada como um cachorro faminto tentando comer as sobras embaixo da mesa de uma lanchonete. A tertúlia pra ela começava quando o ceguinho puxava o fole, antes os olhares de repulsa pra aquela mulher deficiente agora se voltavam com encanto, pois ela bailava no barro pisado do terreiro de Dona Frizêlda com uma leveza angelical, logo aparecia o primeiro par, com um braço apoiava a muleta de madeira, com o outro agarrava firme a cintura do homem, assim deslizavam como que flutuando sem levantar poeira naquele forrobodó, as putas perfumadas do lugar sentiam inveja, todos queriam dançar com ela, Zé das roda observava bebendo sua pinga no crânio de Damião, às vezes com ciúmes de sua amada secreta, às vezes boquiaberto como que estivesse olhando um anjo bailando nas nuvens brancas do paraíso.

Já perto de amanhecer Dona Frizêlda ia desligando as luzes do terreiro e todos iam embora devagar, Zé das Roda via de longe Zulmira cambaleante arrastada por algum cabra que ia comê-la escondida lá no cais, sentia ódio de si pois não era homem suficiente para possui-la, ela nem mesmo olhava pra ele, só uma vez, quando ele estava tão embriagado que caiu da cadeira, todo cagado e mijado, ela parou para olhar se ele estava vivo, balançou a cabeça negativamente e saiu se equilibrando na velha muleta. José odiava a sua situação, bebia pra espantar a tristeza, mas era que nem catinga de cu que nunca cessava. Um dos dias mais felizes de sua vida foi na fatídica tarde em que encontrou Zulmira na fila do INAMPS, na cidade vizinha, um centro urbano mais desenvolvido. Tentavam pela centésima vez uma aposentadoria que sempre lhes eram negados, pois eles não residiam naquela cidade, o carimbo vermelho de NEGADO entristecia os olhos de Zé, e enchiam de ódio os olhos de Zulmira:

– Bando de fi de rapariga, eu sou uma aleijada num tão vendo seus porra?!

Quando foi colocada pra fora da repartição pelos seguranças, Zé das Roda estava a sua espera no lado de fora, tomou coragem e a convidou pra tomar uns tragos numa bodega que tinha perto do ponto onde eles pegariam a condução pro litoral:

– É muita omilhação, aqui quem é pobre num tem vez, ainda mais sendo aleijado! – lamentou Zé enquanto tomava o seu trago.

– Eu quero é que tudo vão tomar no cu ate sair sangue pelas urêia! Vociferou Zulmira.

– Dizem que lá no sul um homem perdeu um dedo e se aposentou por invalidez, hoje é sindicalista – Disse um almofadinha que estava ao lado no balcão se metendo na conversa.

– E o que djabo é sindicalista? – perguntou já meio trôpega na língua Zulmira ao mesmo tempo em que se enroscava no almofadinha com sua perninha atrofiada.

– Sindicalista é um tipo que cuida para que seus companheiros tenham seus direitos garantidos como trabalhador! – respondeu o almofadinha.

– Ouxe e isso é lá trabalho de gente, parece vagabundagem! – rebateu Zé.

– Qual a sua graça moço? – Perguntou Zulmira.

– Mauro Junior de Albuquerque, advogado a seu dispor! – respondeu o almofadinha lhe entregado o seu cartão.

Adevogado Mauro, num carece não, num sei ler nem escrever um ó com uma quenga – disse Zulmira dando uma gargalhada seguida de pigarro.

– Seu Doutor, o que a gente faz pra conseguir se apusentar? – perguntou Zé das Roda.

– Bem, primeiro preciso do titulo de eleitor de vocês, meu cliente, vereador muito bem articulado vai ser o homem que pode conseguir isso fácil – disse o advogado.

– Xii moço, nóis num tem isso de titulo não! Disse o pobre Zé com um sorriso amarelo.

Depois de ouvir isso, o homem foi embora ligeiro, como o diabo foge da cruz, mas sem esquecer antes de pegar o seu cartão de visitas de volta.

Horas se passaram e ate a condução para o litoral chegar (na verdade era o carro do leite que levava entre passageiros, carneiros e galinhas pra zona rural até o litoral) Zulmira estava tão embriagada que já não se aguentava de pé, Zé muito solícito lhe acomodou em seu colo na cadeira, ela adormeceu em seus braços como uma criança, aquele homem nunca esteve tão feliz em sua vida, acalentando sua amada num sono pesado, às vezes roncava baixinho, sentia o cheiro de óleo de côco do seu cabelo galego queimado de sol, sentia o calor de seu corpo magro, mas com aquela certa delicadeza típica da pele feminina. Quando chegou ao litoral já de noitinha Zulmira ainda dormia, Zé a levou pra seu casebre, a colocou na sua cama com forro de palha, foi ate o tanque nos fundos do barraco, se lavou ligeiramente e quando retornou Zulmira dormia com as pernas entreabertas, o vestido meio levantado mostrando a calcinha branca e o seu sexo peludo dourado saindo nas laterais da lingerie, meio hipnotizado com a visão Zé acariciou levemente os pelos loiros do púbis da galega, enquanto afastava um pouco pro lado a calcinha, Zulmira acordou com um sorriso, quando colocou a mão dentro da calça de Zé das Roda e se deparou com seu órgão minúsculo caiu numa gargalhada:

– Ouxe Zé, vai me matar de fazer cósca com isso é?

Furioso o homem acertou forte com seu braço maior o rosto de Zulmira a jogando na cama, meio atordoada com a bofetada, sentiu um puxão forte pelas coxas, Zé a puxou violentamente arrancando a calcinha e começando a chupar Zulmira alucinadamente, no começo ela tentou se desvencilhar, mas depois foi tomando gosto e já começava a revirar os olhos de prazer, gritava, suava e arranhava as costas de Zé, puxava o seu cabelo e pedia pra que ele não parasse nunca mais de chupa-la. Zulmira não parava de gozar e no meio de tanto prazer não notaram quando a lamparina acesa caiu no chão do barraco começando um incêndio que se alastrou rapidamente por conta do material que o sapateiro usava no seu oficio, quando se deu pelo incêndio, a cama já pegava fogo, Zé tentou salvar sua amada mas já era tarde, entre os gritos dos dois e o cheiro de carne queimada que subia no ar, ainda restava na parede do barraco um antigo calendário desbotado de São Egídio que parecia observar placidamente os amantes queimando em dor, o calendário do santo padroeiro dos aleijados não demorou muito até também ser consumido pelas chamas do casebre.

Somente no outro dia, de manhã, apareceu um fusca da policia junto com um repórter gordo pra fazer a reportagem da morte dos desvalidos:

– Cristo santo mas que catinga de carniça é essa? – perguntou o policial.

– É catinga de churrasco de pobre! – respondeu ironicamente o repórter enquanto fazia fotos do que havia sobrado do casebre.

Anos depois esse repórter se tornou apresentador de um programa sensacionalista policial na tevê, aproveitou a fama, entrou na política e conseguiu se aposentar por invalidez como deputado, típico das terras tupiniquins onde os mais pobres, na sua grande maioria, sempre toma no rabo.

CARISMA E HIPNOSE NA TERRA DO DIABO

Posted in Uncategorized on setembro 12, 2014 by contosdacratera

Gonzalo-PeraltaTeolônio era uma pessoa carismática, talvez a mais carismática que já existiu. Quando nasceu, o médico ao invés de bater em seu traseiro fitou embasbacado seus olhinhos azuis abertos, era como se apenas com o olhar, o pequeno conversasse com ele contando suas aventuras intrauterinas. Ainda bebê as babás faziam fila na porta de sua casa querendo cuidar dele. Todos o adoravam e faziam questão de tê-lo por perto.

O rapaz cresceu assistindo televisão, primeiro com os programas infantis, depois com os shows de mágica, principalmente aqueles que envolviam a hipnose. Ficou fascinado desde o dia em que viu um então famoso mágico hipnotizando uma senhora a fazendo pensar ser um lutador de boxe peso pesado, a senhorinha sem luvas o acertou em cheio no queixo o nocauteando ao vivo e em cores no palco do seu show, enquanto ele caia lentamente desacordado a velhinha saltava feito um canguru ensandecido, desde então o mágico ficou com dificuldades para mastigar coisas e dar beijos de língua.

Ao longo da vida, Teolônio desenvolveu suas próprias técnicas de hipnose, era capaz de induzir qualquer criatura, apenas com um olhar sugestivo ou com um tom de voz diferenciado macio e acalentador. Conquistou muitas cabrochas que se sentiam seguras quando se aproxegavam em seu peito ouvindo sua voz de travesseiro, se fosse cantor não sobraria xereca para nenhum outro homem nessa face da terra, assim dizia uma ex-namorada que não quis ter o nome identificado. Nessa época o garoto carismático já sabia desde já que poderia ter ou fazer tudo aquilo que quisesse, mas como tinha um bom coração nunca prejudicou ninguém, até o dia em que resolveu entrar para a política.

Começou como vereador aos 21 anos recém-formado na faculdade de sociologia, na sua primeira campanha no horário reservado a propaganda eleitoral gratuita na tevê, passava 15 segundos que tinha direito, calado, com um sorriso de Monalisa na cara sem dizer nenhuma proposta, resultado: foi eleito batendo dois recordes, primeiro de votos e depois de divórcios, toda a mulherada queria dar pra ele, até alguns homens também.

Na câmara de vereadores causou uma revolução. Suas leis eram sempre aprovadas por unanimidade, conseguiu a façanha de por um projeto de lei, diminuir o salário dos vereadores em 80%, usando o seu forte poder de persuasão, fez com que quase a metade podre da câmara pedisse renuncia e o restante se convertesse aos rincões da honestidade. Quatro anos depois foi eleito deputado estadual e conseguiu outra revolução na assembleia legislativa, nos mesmos moldes de quando estava na câmara, com a diferença que na sua campanha, ao invés do silêncio, ele proferia três palavras: vote em mim!

Porém Teolônio só foi ter uma projeção nacional quando se elegeu deputado federal, causou intrigas e ganhou pela primeira vez na vida inimigos quando mexeu no maior vespeiro venenoso da política, a religião. Além de conseguir diminuir o salário dos deputados, acabou quase por definitivo com os cargos comissionados e aposentou praticamente todos os velhos políticos coronéis que durante anos mandaram e desmandaram mamando nas tetas do estado. A guerra contra sua pessoa começou quando ele induziu dois dos lideres da bancada evangélica a se casarem de papel passado, desistindo da política e se tornando os primeiros pastores de uma igreja exclusiva para gays. Enquanto isso na cúpula do maior partido cristão,  todas as castas reunidas discutiam desesperadamente o que poderiam fazer com o caso:

– Esse homem deve ter parte com o Satã, algo tem que ser feito – comentou um velho pastor.

– Ate o Pastor Zezão (um ex-zagueiro de futebol) se debandou pro lado dos afeminados – disse outro religioso.

– É o fim dos tempos, é o fim dos tempos! – gritava vários tornando um caos a reunião  parecendo um culto.

Apesar da forte campanha comprada contra Teolônio, jornais, revistas e telejornais que o difamavam a torto e a direito,  voltavam atrás se retratando quando o político carismático se pronunciava e tudo era revertido a seu favor, a popularidade logo o levou a ser senador, poderoso Teolônio mirava o maior cargo do executivo, queria realmente mudar o país, de senso de humor apurado no meio do caminho aprontou algumas, como na vez que induziu o mais velho cacique e grande latifundiário no congresso nacional a mudar o discurso  enquanto falava na importância do agronegócio:

– Eu dou a bunda, sempre dei, ai meu Deus, o que estou dizendo? – se perguntou em voz alta o velho enquanto baixava as calças e mostrava a bunda murcha no púlpito causando clamor, o pobre velho depois disso foi internado em um asilo.

Depois de fazer com que outro velho político procurado pela Interpol se entregasse a policia e devolvesse toda a fortuna subtraída dos cofres públicos, estava prestes a aprovar o que poderia ser as suas maiores conquistas: um incremento da lei da ficha limpa em que político pego em contravenções fosse banido da vida publica o impossibilitando ate de ter negócios posteriores com o estado, caso fosse um empresário e por fim a extinção dos partidos políticos envolvidos em corrupção (esse seria o mote da sua campanha para presidente).

Enquanto andava na rua e era parado por seus eleitores numa manhã agradável na capital do país distribuindo abraços e sorrisos, uma senhora ex-senadora da republica aposentada se aproximou com uma bíblia feita de C-4* na mão, abraçou o Teolônio e gritou Antes de explodir junto com o candidato e dezenas de simpatizantes :

– Sangue de Cristo tem poder!

Interrompeu-se ali naquele instante, a mais revolucionaria passagem de um político na historia desse país, apesar disso, suas leis continuam em vigor, varias foram as tentativas de derruba-las, felizmente sem sucesso pois o povo que o elegeu não permitiu. A cada tentativa de veto, o povo ia nas ruas quebrando tudo que se via pela frente, um deputado foi esquartejado e teve suas partes expostas em praça publica no norte do país.

Mesmo depois de morto, Teolônio bateu outro recorde, de mais vezes homenageado com nome de ruas, avenidas, praças, escolas e crianças. São Teolônios e Teolônias espalhados por todo o país, afinal ninguém foi mais carismático do que ele, o maior hipnotizador de todos.

Glaucio Fabrizio

Natal-RN setembro de 2014

*C-4 explosivo plástico de uso militar

O ULTIMO DA FILA QUE SE FODA

Posted in Uncategorized on setembro 9, 2014 by contosdacratera

fila1

Por Glaucio Fabrizio

O inventor da fila deveria ser amaldiçoado até a décima geração. Na infância, ainda naquela ressaca da ditadura, éramos obrigados a cantar o hino nacional todas às quintas. Saíamos mantendo a formação com a mão direita sobre o ombro do colega de classe à frente, marchando para nossas obrigações cívicas, com chuva ou sol. Parecíamos pequenos fascistas adorando nossos Mussolinis imaginários que só saberíamos ou teríamos ideia de quem fora muito tempo depois nas aulas de historia, já com pentelhos nas genitálias, espinhas na cara e uma tara que parecia nunca se acabar. De fato, era mais divertido do que as aulas de religião, na verdade lições para ensinar alguém a ser cristão. Nunca tive aulas de candomblé ou budismo.

Ainda na escola, na hora do lanche, as filas na cantina eram desrespeitadas, as crianças nascem anarquistas e vão sendo domados pelos pais como animais de estimação ao longo da vida ate se tornarem adultos de coleira ou aliança no dedo. Existia fila para tudo, ate mesmo quando a ninfomaníaca do bairro resolvia liberar geral e se fazia aquela fila de adolescentes ansiosos para terem suas primeiras trepadas, primeiras DSTs. O ultimo da fila sempre se dava mal, pelo cansaço da ninfomaníaca ou simplesmente por já pegar uma carne pisada, mastigada como goma de mascar. O pobre coitado do Ozeas sempre era o ultimo, certa vez ele vomitou em cima da ninfomaníaca, tinha que ser um cabra muito macho para suportar o cheiro de peixe podre que a vagina de Deuzuíte exalava. Ao longo da vida passamos por tantas filas que daríamos muitas voltas ao redor da terra. No dia da formatura, as filas de futuros cidadãos eram enormes, todos esperançosos para sair dali direto para o matadouro de criatividade, a universidade.

No inicio dos anos 90, o país estava numa recessão daquelas. O dinheiro de hoje poderia não valer mais nada alguns poucos meses depois, a inflação era galopante ao passo que o ministro da economia peidava novas medidas ou criavam seus pacotes econômicos enfiados rabo adentro do povo. O então jovem e bonito presidente da republica, junto com sua cúpula resolveu confiscar as economias de suas cadernetas de poupança. O caos tomara conta do país, empresários faliram e se jogavam de prédios como santinhos de político em épocas de eleição, a população desesperada correu para os bancos na esperança de poder sacar o seu tão precioso dinheiro guardado. O povo não se incomoda de ser enrabado, mas tocar em suas economias é como tocar suas almas diretas para o inferno.

Desde cedo as pessoas esperavam do lado de fora o banco abrir, pareciam bois a caminho do abatedouro com suas caras sofridas de quem já sabia que iam virar hambúrguer antevendo más noticias. Filas imensas que davam voltas no quarteirão, como torcedores querendo comprar ingressos para a final do campeonato. Algumas pessoas madrugavam no lugar para garantir lugares, outras madrugavam apenas para poder vender as vagas na fila, há quem diga que uma velhinha mendiga ficou rica nessa época no negocio de vagas nas filas de banco, comprou uns terrenos, fez uns casebres para alugar e hoje pede esmola só por esporte, essa merecia estampar a capa de EMPRESÁRIOS DO ANO.

No lado de dentro, o ar condicionado não dava vencimento com a superlotação. Alias o ar condicionado de banco era o único alento, o único conforto diante do calor desgraçado que fazia do lado de fora, mas nem isso o povo tinha mais direito. Todo tipo de gente estava naquelas filas, homens, mulheres e crianças, idosos, gente preta, gente branca, gente marrom.

– Me desculpe senhora, mas isso é um cheque cruzado! – Disse com a língua meio presa um caixa meio afeminado para uma jovem morena que tinha toda pinta de mulher da vida.

– O que?! Aquele corno me paga! – respondeu a morena que saiu furiosa com aquelas coxas colossais numa ultra mini saia que se ela espirrasse mostrava os fundilhos.

– Paga sim filha, com cheque cruzado – disse baixinho o caixa logo em seguida chamando o próximo.

Um senhor de tapa olho e bigode tingido de acaju, ficava no guichê ao lado do afeminado, parecia se divertir mais com a situação, fazia piada de tudo:

– Como? Você quer sacar toda a sua poupança? Tá mais fácil botar na poupança do colega aqui do lado visse? – dizia o caixa pirata com um sorriso lacônico.

Sem filas preferenciais os idosos desmaiavam, urinavam e cagavam nas roupas, crianças choravam com fome, homens e mulheres se revoltavam. Às vezes lembrava as filas dos campos de concentração, com as pessoas vestidas com seus pijamas listrados esperando um pouco de sopa e um pão duro ou simplesmente numa fila direto para as câmaras de gás. Offices Boys ouviam musica em seus walkmans com envelopes a tira colo, às vezes com quilos e mais quilos de contas a serem pagas que muitas vezes irritava as pessoas.

– Já faz uma meia hora que esse moço tá sendo atendido! – reclamava uma senhora gorda com tetas imensas que fugiam do decote a cada palavra proferida.

À medida que o dia se aproximava da hora do almoço, os caixas iam deixando seus postos, tornando o serviço mais lento e penoso. Quando o ultimo caixa se levantou e colocou a placa de FECHADO em cima do balcão as pessoas alucinaram, um senhor que estava muito nervoso e era o próximo a ser atendido não aguentou e gritou pulando sobre o balcão atacando o caixa com uma chave de fenda ameaçando furar o seu pescoço o fazendo de refém:

– O ultimo da fila que se foda! – Gritou o homem

A policia foi chamada, logo a imprensa também chegou ao local como formigas em cima de um pirulito jogado ao chão, o homem com a chave de fenda foi identificado por Jesus da Silva, um eletricista desempregado que tentava a todo custo retirar as suas únicas economias no banco. Pessoas foram pisoteadas na confusão quando a tropa de choque entrou com bombas de gás e metendo borracha para tudo que é lado. O ultimo da fila era um gringo que não estava entendendo nada do que se passava, estava ali de gaiato esperando uma informação de como chegar à estação de trem mais próxima, se chamava Henry Cinaski, parecia bêbado com um sorriso sacana no rosto.

– Senhor, por favor me entregue a chave de fenda, vamos conversar – advertiu o policial negociador.

– Eu só quero meu dinheiro que juntei a minha vida toda! – foram as ultimas palavras de Jesus, antes de ser abatido na cabeça por um atirador de elite.

KID FIMOSIS

Posted in Uncategorized on agosto 29, 2014 by contosdacratera

       capuz-negro                                                                                                                                                        Por Glaucio Fabrizio

      Quando nasceu, seus pais fugindo da guerra só te deram um nome meses depois. Seria Isaque, como seu tio, mas ter um nome judeu naquele tempo poderia lhe trazer grandes problemas. Sara sua bondosa mãe, mudou o nome para Neuza, assim como seu pai passou a se chamar Joaquim. Todos os machos judeus recém-nascidos são circuncidados, mas Sara, ou melhor, Neuza, na sua paranoia natural de épocas de guerra e perseguição, não permitiu o corte do prepúcio de seu filho único, afinal ela não queria correr o risco de alguém identificar a origem judaica de sua cria quando lhe olhassem a piroca sem capote, por mais absurdo que parecesse a ideia.

      Batizado cristão sob a alcunha de Pierre, já em terras distantes, demorou a compreender os seus pais lendo o livro sagrado dos judeus às escondidas enquanto todos dormiam, assim como os sabás eram festejados em qualquer dia da semana, principalmente naqueles dias em que seu pai estava de folga de qualquer um dos trabalhos temporários que arrumasse. O garoto cresceu nesta confusão, sem saber ao certo se era cristão (era obrigado a frequentar o catecismo nas manhãs de domingo) ou judeu. Mas para Pierre, o seu maior sofrimento era sem duvida a fimose. Na adolescência não conseguia controlar suas doloridas ereções (quando lembrava as tetas enormes da sua professora de francês). Ao urinar tinha que ter cuidado redobrado para não sair mijando tudo pela frente, sem falar que frequentemente era acometido por infecções urinarias.

     Certa manhã, Pierre veio todo contente mostrar um artigo no jornal sobre um medico que estava fazendo circuncisões gratuitamente na cidade, a mãe chorou e pediu que enquanto viva, ele mantivesse o couro da rola, pois ela não queria ver o único filho sendo perseguido:

– Mas mãe, a guerra já acabou faz tanto tempo! – choramingava Pierre.

– Não importa, o medico vai saber que você é Jud… – interrompeu a palavra levando a mão à boca dona Neuza.

– Mas mãe, ele é judeu, por isso ta fazendo tudo de grátis! – insistia Pierre.

– Certamente é um espião, ninguém quer ser judeu hoje em dia! – rebatia a mãe

– Mas mãe, nem todo mundo circuncidado tem que ser judeu…

– Meu Deus, você ta querendo me ver morta é isso? – encerrava o assunto a mãe, fingindo que a vista estava escurecendo e que ia desmaiar.

                                                                              ************

     A primeira relação sexual de Pierre foi traumatizante, aos dezessete anos arrumou uma namoradinha muito danada, os namoros no portão, de inocentes não tinha nada e aquelas dores (tanto da fimose como do saco cheio) apesar de horríveis eram muito bem disfarçados pelo garoto, afinal de contas não poderia dar uma de maricas e negar fogo para sua donzela. Donzela esta que certa noite resolveu te presentear, os pais viajaram e a deixaram aos cuidados da velha tia que tomava uns drinks para ver a novela e adormecia ate o outro dia na cadeira de balanço. A garota o levou pro quarto dos pais ficou nua e disse:

– Olhe, tem que ser só por atrás, porque na frente vai ser só depois de casar! – advertiu a moça

     Desta feita, Pierre, teve uma das experiências mais dolorosas de sua vida, o rabinho apertado da sua namorada o fez sangrar e ele sofreu horrores para disfarçar a dor lancinante, muito envergonhado, o rapaz nunca mais apareceu no portão, a donzela logicamente que o odiou para sempre.

Desse dia em diante, ao ouvir seus amigos confessando suas estripulias sexuais, sentia calafrios quando um deles dizia:

– Meu amigo fulaninha é uma delicia, xana apertadinha!

      Nos momentos de secura afetiva aguda, Pierre caia nos braços de Jeniffer(na verdade se chamava Jurema) a puta mais rodada das cercanias, devia ter uns 30 anos de experiência.

– Rapaz, esse dai adora uma folote, vai casar com Jurema vai? – alguém tirando sarro com Pierre.

     Pierre por varias vezes marcou a cirurgia de fimose, mas sempre na hora H pensava na mãe, mesmo que ela não precisasse saber, afinal a velha não ia passar o resto da vida checando a rola do filho, porem sua consciência martelava com a delicadeza de uma marreta juggernaut.

       Já adulto e com muito esforço, Pierre conseguiu entrar em uma escola de medicina, demonstrou habilidade com o bisturi, foi laureado e se tornou um cirurgião. Quando conheceu Lucinha, sua futura esposa, não demorou muito e sua mãe adoeceu, logo em seguida veio a falecer. No leito de morte, ela deu vários conselhos, sobre como respeitar sua futura esposa, aprovou Lucinha, moça de família, deu conselhos sobre não ficar devendo na praça, pediu que a primeira neta tivesse seu nome e finalmente naqueles momentos lúcidos que só temos perto do fim, abriu mão da obsessão e permitiu que o filho fizesse a cirurgia de fimose.

        Certa noite, depois de uma caminhada tranquila, ao chegar em casa Pierre colocou na vitrola In a Sentimental Mood, com Duke e Coltrane, fumou um grosso cigarro de Skunk, tomou uma dose de conhaque, fez assepsia das mãos, sentou sem calças numa poltrona confortável, puxou uma luminária focando o pau com álcool iodado e habilmente fez a sua própria circuncisão retirando o prepúcio que durante toda a sua vida, sufocou sua glande e todos os seus desejos, foi como nascer de novo, seis meses depois casou. Na sua noite de núpcias não ligou ao sentir que Lucinha não era tão apertadinha assim, longe de ser uma Jurema, mas pela primeira vez Pierre amou sem sentir dor.

     Alguns bons anos depois num dia de finados, juntamente com a esposa e a filha pequena nos braços, Pierre levou flores e umas relíquias suas de infância que sua mãe guardava envolto em um lenço: tufos de seu cabelo quando criança, uma coisa parecendo um torresmo velho(seu umbigo)e por fim, o seu prepúcio ressecado envolto numa gaze. Pierre sorriu e sentiu saudades de sua mãe deixando ali em seu túmulo as suas relíquias de recém-nascido. Sua filha se chamou Sara, quando adulta, Sara casou com um palestino da Cisjordânia chamado Alak que apesar da sua origem, era budista.